16.10.12

Bardana da semana



Arctium minus Bernh.

Como pode uma planta ser tão escassa quando Portugal inteiro se empenhou até há pouco em proporcionar-lhe habitats favoráveis? Na época de prosperidade ainda recente em que o todo o país de norte a sul era um estaleiro de obras, o volume de entulhos por quilómetro quadrado não deveria ter paralelo no mundo ocidental. E a bardana, não desdenhando as bermas de caminhos bem pisoteados, do que gosta mesmo é de um bom entulho. Certo é, porém, que ela pouquíssimo se vê. Será defeito dos observadores, avessos a botanizar em lugares degradados? Mas se nós não vamos ao entulho, o entulho vem ter connosco; por muito que o queiramos ignorar, a sua omnipresença assegura-lhe um alto grau de visibilidade. E há plantas igualmente adeptas da low life, como o Cirsium vulgare, que se fazem encontradas sem a menor cerimónia. Parece então legítimo inferir que a bardana, em Portugal, só não é considerada rara por preconceito classista: não se lhe reconhece categoria para merecer tal estatuto. Quando na verdade um entulho com bardana quase mereceria ser incluído na Reserva Ecológica Nacional.

Apesar de não ter folhas nem caules espinhentos, o Arctium minus assemelha-se, pelo tipo de inflorescência, às plantas a que costumamos chamar cardos; e, de facto, pertence à tribo Cynareae da família das asteráceas, a mesma que inclui os géneros Carduus, Cynara, Cirsium e Onopordum. Com um diâmetro de até 2 cm, os capítulos florais do Arctium minus são dotados de brácteas rígidas persistentes, que irão facilitar a dispersão das sementes ao fazerem com que os frutos (ouriços) se agarrem ao pêlo de animais ou à roupa de humanos incautos. A esse costume de se agarrar a tudo quanto mexe deve a bardana o nome alternativo de pegamassa. Igual estratégia de disseminação é usada pelo Xanthium strumarium, bastante mais vulgar em Portugal e também conhecido como bardana ou bardana-menor.

A legítima bardana, essa mais vistosa que hoje nos ocupa, é uma planta bienal, aveludada, que floresce ao longo do Verão no seu segundo ano de vida, desenvolvendo então um caule esparsamente ramificado com 50 a 150 cm de altura. Nativa de grande parte da Europa, instalou-se como imigrante indesejável noutros continentes. Em Portugal ocorre em todo o território continental, e daqui terá apanhado boleia para os Açores e Madeira. A planta das fotos mora na Golegã, numa passagem pedonal sob a linha férrea.

4 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Olá Paulo (e Maria)
Não calcorreei nada que se compare ao que vocês já fizeram!Nem por sombras.Mas de facto,nas minhas pequenas viagens na minha terra!! e nunca efectuadas com propósitos botânicos específicos,apenas no Jardim/Quinta das Lágrimas (Coimbra)a vi.E no caso,por lá,duvido que seja de geração espontânea;talvez apenas uma lágrima mais que caiu dos amores por lá acontecidos e se sim,não é certamente espontânea!
Abraços
Carlos M. Silva

Paulo Araújo disse...

Olá, Carlos.

Não vamos entrar em despiques, mas acho que já calcorreaste e viste pelo menos tanto como nós. Quanto à bardana, a Quinta das Lágrimas acaba por ser um local apropriado para uma planta tão fugidia se manifestar. Em lugares carregados de lendas devemos sempre esperar o inesperado.

Abraço,
Paulo

Mena Vale disse...

Olá, estava à procuda da planta Bardana e encontrei este site. Será que alguem me pode arranjar umas sementes ou mesmo a planta Bardana, gostava muito de a ter por razoes de saúde!
Contactei-me para:

artediversuss@gmail.com

Obrigada,

Mena Vale

Maria da Luz Borges disse...

Lindo!
Mais uam coisa que aprendi. A planta já conhecia, mas não sabia o seu nome,nem nada relacionado com ela!
Obrigado!