17.1.12

Negro como calcário

Portugal é um país achatado, com poucas montanhas e mal repartidas. Quase todo o território se situa abaixo dos 400 metros de altitude, com orlas recentes de grandes areais sem escarpas ou com elevações pouco acima do nível do mar. O norte é antigo, da chamada zona geológica centro-ibérica, com uma história tectónica de difícil destrinça e onde predominam o granito, o xisto e o quartzo. Aqui ocorre naturalmente a flora que aprecia solos ácidos. Mas há excepções, como as formações de rochas ultrabásicas do nordeste ou os raros afloramentos de calcário no Marão.

Fomos à procura deles, com a grata lembrança da flora calcícola das serras de Aire e Candeeiros. Habituados a calcorrear o Maciço Calcário Estremenho à procura de orquídeas, deveríamos ser capazes de achar umas pedras brancas a destoar nos montes se o nevoeiro não nos viesse atrapalhar a tarefa. O destino era Campanhó, no miolo do Marão, lugar de várias pedreiras desactivadas e não longe de antigas explorações mineiras de estanho e volfrâmio. Para lá chegar, houve que enfrentar as estradas de mau piso que foram apoio destas actividades. O primeiro sinal de que estávamos perto foi dado pela abundância de Ceterach officinarum, um feto que gosta de fissuras nas rochas e muros velhos e que, sendo em geral indiferente à natureza do solo, mostra no nosso país uma preferência nítida por substratos calcários. Outra evidência surgiu logo depois com os inúmeros exemplares de Helleborus foetidus, planta também de terrenos calcários, comum precisamente nas serras de Aire e Candeeiros. Mas onde estariam os mármores rosa eivados de pérola ou o chão avermelhado como o da Fórnea? Demorámos alguns minutos a perceber que tínhamos chegado: aquelas pedras gigantescas com a textura homogénea do carvão, de cor cinza e toque macio, eram bolhas de calcário no meio do xisto.


Campanhó (Mondim de Basto)

A confirmação não se fez esperar: ali estavam, meio escondidos pelas silvas, vários tufos de Asplenium ruta-muraria, um feto escasso no sul da Europa, muito sensível à poluição amosférica e que, em Portugal, se concentra numa área restrita do centro-oeste calcário.


Asplenium ruta-muraria L.

No livro Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal (1982), Franco e Rocha Afonso, a propósito deste feto, assinalam com bolinhas negras uns poucos lugares no Marão. Bolinhas que, na realidade, crescem para se transformarem em maciços calcários da mesma cor, a que voltaremos na época das orquídeas.

9.1.12

Língua-de-cobra


Reserva Ornitológica de Mindelo (Vila do Conde)

A protecção da natureza, em Portugal, nunca foi uma prioridade, mesmo quando o ambiente fazia parte de uma agenda política que a crise remeteu para segundo plano. O "ambiente" pode ser muita coisa, e de todas as suas possíveis acepções os nossos governos têm preferido aquelas que envolvam obra que se veja. É assim que, em nome das "energias renováveis", se destroem rios e se plantam ventoinhas por tudo quanto é cume; e é também assim que, na gestão de áreas ditas protegidas, se esbanja em desproporcionados centros de interpretação o dinheiro que não há para vigilantes da natureza ou para acções de conservação no terreno. Por isso "área protegida", em Portugal, pouco mais significa que um espaço onde vigoram certas restrições à construção de edifícios ou ao uso do solo. Quanto ao resto, a natureza lá saberá tomar conta de si, desde que as agressões não sejam muitas.

Consta dos anais que a Reserva Ornitológica de Mindelo (ROM), criada em 1957 por iniciativa de Santos Júnior, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), foi a primeira área oficialmente protegida em Portugal. Situada no concelho de Vila do Conde, logo a sul do rio Ave, e repartida entre as freguesias da Árvore e do Mindelo, ocupava 554 hectares de dunas, charcos e pinhais. Ainda que legalmente a ROM nunca tenha sido abolida, a expansão urbanística roubou-lhe boa parte da área e a Universidade do Porto deixou de a usar para trabalhos de campo. Houve extracção de areia nas dunas, secaram muitos dos charcos, a ribeira foi poluída, depositaram-se entulhos, chegaram veraneantes e veículos todo-o-terreno, a vegetação infestante de chorões, acácias e canas instalou-se e expandiu-se. Mas o ambíguo estatuto de protecção conseguiu evitar o mais sério dos atentados: o coração da antiga reserva, entre as dunas primárias e os hectares de pinhal, foi poupado às construções. Em toda a linha de costa entre Ovar e a foz do Cávado não sobrou outro pedaço de natureza com uma riqueza ecológica comparável.

Foi para proteger tal riqueza que, em Outubro de 2009, por decisão unânime da Assembleia Metropolitana do Porto, foi oficialmente criada a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde, que se estende por 380 hectares entre a foz do rio Onda, em Labruge, e a foz do rio Ave, na sede do concelho. O quinhão maior da nova área protegida, com cerca de 266 hectares, é o que resta dos 554 hectares da antiga ROM.

E que foi feito nos 27 meses decorridos desde essa feliz data? Burocraticamente, nada: não há orgãos de gestão, não há plano de ordenamento, não há sequer placas de informação para visitantes. E no terreno também nada se nota, como se a remoção do lixo, o controlo da vegetação infestante e o impedimento da circulação de veículos motorizados dependessem de aturados estudos e da benção de doutas comissões.



Ophioglossum lusitanicum L.

Neste compasso de espera a vida vai seguindo o seu curso, e a velha Reserva Ornitológica de Mindelo ainda guarda algumas surpresas para os naturalistas que a percorram de olhos bem abertos. No leito ou nas margens dos frágeis charcos temporários sobrevivem plantas que, na região do Porto, são preciosas relíquias de outras épocas: Spiranthes aestivalis, Centaurium chloodes, Samolus valerandi. Lista a que agora se acrescenta o Ophioglossum lusitanicum, um estranho feto que recebe no vernáculo o nome de língua-de-cobra-menor e que andava desaparecido do litoral nortenho. A última colheita para o herbário da FCUP data de 1912 e foi feita no lugar da Boa Nova (Leça da Palmeira). As populações por nós agora encontradas situam-se bem mais a norte, numa área onde a planta nunca havia sido detectada. Aliás, o relatório de 2007 que serviu de base à criação da paisagem protegida (texto integral - PDF) não inclui o Ophioglossum lusitanicum na listagem, que se quis completa, da flora local. (E também não inclui várias outras espécies de muito mais fácil observação, como o Samolus valerandi, o Asplenium marinum, a Vicia lutea e a Serapias parviflora.)

Morfologicamente, a língua-de-cobra-menor é a versão miniatural da (que outra coisa haveria de ser?) língua-de-cobra-maior. O tamanho exíguo da planta é aliás uma das peculiaridades que dificultam a sua detecção: as folhas, que são carnudas e surgem sozinhas ou em grupos de duas ou três, têm o pecíolo quase todo subterrâneo e ficam-se pelos 2 a 4 cm de comprimento; a haste com os esporângios (por vezes ausente) pode duplicar a altura da planta, mas raramente ultrapassa os 6 cm. Só podemos ter esperança de a ver quando a vegetação circundante é muito rala. Para dificultar ainda mais a observação, o aparecimento da planta à superfície é efémero e decorre numa época (de Outubro a Março) em que a maioria dos botânicos está recolhida na toca.

O habitat desta língua-de-cobra são os locais arenosos ou de solo magro dotados de alguma humidade e cobertos por musgos. A planta evita locais muito expostos ao vento ou ao sol, e nas dunas agradece a protecção que algum pinheiro ou sargaço lhe possa proporcionar. Na Reserva Ornitológica do Mindelo descobrimos duas populações de 20 a 30 indivíduos cada, ambas ameaçadas pelo avanço dos chorões. Apesar de ser uma planta com ampla distribuição europeia, é escassa em Portugal, e no norte do país está em risco de desaparecer de vez. Quem se preocupa com a biodiversidade não quererá que isso aconteça. Fica o alerta para quem vier a gerir a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde.