27.3.12

Margarida farrusca



Há uma crónica do escritor e médico duriense João de Araújo Correia (1899-1985) em que ele censura as senhoras finas suas conterrâneas por não admitirem o vinho do Porto à mesa, preferindo-lhe os licores importados de França. Causa desgosto ao cronista que tais famílias desprezem a produção que faz a fama e o carácter da terra onde vivem e de que, directa ou indirectamente, depende a sua própria prosperidade.

Se do vinho saltarmos para o azeite, facilmente enumeramos uma mão-cheia de razões patrióticas, paisagísticas e até ambientais para nunca deixarmos de usar com abundância o líquido dourado. A elas se acrescentam razões de saúde e de paladar: não há comparação possível entre um bom azeite e as mixórdias genericamente chamadas "óleos alimentares". Portugal é um país de olivais que tomam diversas qualidades quando descemos de norte para sul. Há os olivais à beira-Douro, no Pocinho, que se estendem como a terra prometida à janela do comboio depois de atravessarmos túneis e penedos medonhos. Nos Candeeiros e em Sicó, são os olivais que ocupam as planícies entre os assomos pedregosos de calcário. Quem quer que se passeie pelo país terá o seu olival favorito gravado na memória; e, para que a lista fique menos lacunar, fará o leitor a fineza de evocar o seu e acrescentá-lo mentalmente a este texto.



O aumento do consumo do azeite traz porém um inconveniente, que é a substituição dos olivais tradicionais pelos de produção intensiva. Um olival tradicional é dos melhores mostruários da nossa flora espontânea; os olivais modernos de alta produção são desertos plantados com oliveiras. E os olivais de modelo antigo são mais bonitos, motivo adicional para ilustrarmos com eles esta conversa.



Chamaemelum fuscatum (Brot.) Vasc.

Em chegando o mês de Março, ou até ainda em Fevereiro, há um malmequer que se especializa em pintar de branco a manta dos olivais; é ele o Chamaemelum fuscatum. Dizem certas fontes que o povo lhe chama margaça-de-Inverno ou margaça-fusca; mas, para isso ser crível, o dito povo deveria ser capaz de analisar detalhes morfológicos subtis para distinguir este malmequer de outros muito semelhantes que aparecem nos mesmos habitats, como o Anthemis arvensis. O assunto foi já sobejamente explicado pelos nossos vizinhos, e por isso nos dispensamos de reproduzir a lição. Acrescentamos um detalhe: o Chamaemelum fuscatum também se diferencia do Anthemis arvensis pelas brácteas involucrais debruadas a negro, visíveis na foto da esquerda aí em cima. Embora, como ensina Carlos Aguiar, o epíteto fuscatum diga respeito a um pormenor só visível quando se faz a autópsia da inflorescência, não é grande disparate relacioná-lo com o cálice farruscado desta ervinha pré-primaveril a que decidimos chamar margarida-farrusca.

20.3.12

O que é um pseudonarciso?



Narcissus pseudonarcissus subsp. nobilis (Haw.) A. Fern.

– Podemos entrar no seu lameiro para ver aquelas flores?
– Para ver o quê? As ovelhas?...
– Não, não, as flores.
– Não é meu, façam favor.

A Península Ibérica é abonada em narcisos, sobretudo as regiões mais frias ou de montanha. As maiores populações conhecidas no país de Narcissus pseudonarcissus, espécie do sudoeste da Europa, estão precisamente na serra da Estrela e na serra Amarela, aqui em zona de reserva integral. Mas ele também surge em altitudes baixas, no Minho, embora esteja dependente de uma gestão tradicional dos lameiros que está em risco de se perder.

O abandono da agricultura, substituída pela secção de verduras dos supermercados, poderia beneficiá-lo por poupar o solo e os bolbos, mas na verdade as terras em pousio tendem a encher-se de ervas que competem com excessiva valentia. Contudo, a tendência para, em vez de legumes, plantar forragem para o gado, que ali se alimenta em regime de self-service, trouxe novas esperanças aos narcisos. Nos poucos locais onde ainda há populações deste narciso, prados e regatos de água fresca, houve a oportuna iniciativa de negociar com os proprietários um acordo que incentiva o pastoreio, para que o gado segue estes campos com firmeza (deixando os narcisos intactos por lhe serem indigestos), e os impede de mobilizar agressivamente o solo e de utilizar herbicidas ou pesticidas. O resultado desta gestão minuciosa são as centenas ou milhares de tufos de folhas lineares, de secção trapezoidal, azuladas e erectas, encimados por elegantes trombetas amarelas com bordo crenulado, base protegida por uma bráctea, a recender a mel e aformoseadas por um colar de seis tépalas ligeiramente retorcidas. Lembram as do N. asturiensis, mas em versão de maior porte e com flores mais avantajadas.

Vimo-los primeiro em Póvoa de Lanhoso, tendo para isso de usar galochas nos pastos regados por fartos ribeirinhos e saltar algumas cercas com que a propriedade privada, legitimamente incomodada com a curiosidade alheia, se protege, e previne a colheita ilegal de bolbos. Num ano mais chuvoso formariam mantos extensos de flores (com as tépalas brancas, que algumas Floras designam N. pseudonarcissus subsp. nobilis), o que indicia que a preservação do habitat está a ser bem sucedida. Seguindo uma indicação do Carlos Silva, a quem agradecemos, fomos depois à serra d'Arga, um sistema montanhoso relativamente baixo (não sobe além dos 900 metros) e invulgarmente perto do mar. A vegetação é rala e o lugar rochoso e granítico, mas deve chover ali bastante porque nos planaltos predominam as turfeiras. Por ali, são os cavalos selvagens que fazem a manutenção das margens dos ribeiros, criando um refúgio propício à disseminação das plantas mais frágeis. Encontrámos Drosera rotundifolia, Pinguicula lusitanica, Anemone trifolia, Viola palustris, N. bulbocodium, Scilla monophyllos. E muitos exemplares deste narciso, mas desta vez com as flores completamente amarelas (que as mesmas Floras denominam N. pseudonarcissus subsp. portensis) e um perfume igualmente doce (embora não saibamos quantificar esta afirmação).


Narcissus pseudonarcissus subsp. nobilis (Haw.) A. Fern. / Narcissus pseudonarcissus subsp. portensis (Pugsley) A. Fern.

A rotina que nos impacienta no Inverno, à espera de que as plantas acordem, não nos permitiu sossegar enquanto não fomos ver aquela que pode ser a terceira maior população deste narciso. Está em Paredes de Coura, mas não no lugar onde ocorre o N. cyclamineus. Preferiu instalar-se mais acima, num recanto frio entre currais e pastos de feno húmidos, cruzados por um riacho de caudal escasso. Numa das populações, em exemplares que distavam não mais de dez centímetros entre si, encontrámos plantas com flores de tépalas brancas, outras com tépalas divididas entre branco e amarelo (este tom mais próximo da base da corola) e outras de colar inteiramente amarelo. O que parece dar alguma razão à revisão taxonómica que a Flora Ibérica iniciou nesta espécie. Segundo os seus autores, a espécie N. pseudonarcissus abrigaria quatro subspécies e, ignorando-se as variações de cor nas flores e outras diferenciações morfológicas menores, as plantas minhotas arrumar-se-iam todas numa designação única, N. pseudonarcissus subsp. portensis. Este é um endemismo do norte da Península Ibérica que em Portugal se concentra na Beira Alta, Trás-os-Montes e Minho - mas de que, por cá, se conhecem poucas populações.


Narcissus pseudonarcissus subsp. portensis (Pugsley) A. Fern.

Um relatório de 2010 sobre a biodiversidade em Vila Nova de Gaia inclui uma referência a este narciso, presume-se que baseada em observações antigas. Curiosamente, o epíteto portensis foi atribuído por H. W. Pugsley em 1933, referindo-se a exemplares colhidos perto do Porto. A Flora Ibérica (ainda em rascunho, a corrigir), que desconhece a presença do N. cyclamineus em Paredes de Coura, mantém que o N. pseudonarcissus subsp. portensis ainda ocorre no Douro Litoral.

Mais a sul, na Estremadura, Beira Baixa e Ribatejo, há registo de outra subespécie, N. pseudonarcissus subsp. pseudonarcissus, que não se restringe à Península Ibérica e que se suspeita ter sido introduzida em terras lusas. A diferença mais notória com a anterior está na relação de tamanhos das peças da flor e no habitat preferido: ambas gostam de prados, mas esta suporta melhor torrões mais pedregosos e até alguma secura.