28.9.12

Arabis à portuguesa



Arabis beirana P. Silveira, Paiva & N. Marcos

Há dias, os jornais noticiaram que, com o telescópio Hubble, se conseguiram avistar galáxias tão distantes que talvez elas já não estejam onde as vemos, ou já nem existam. Estranha-se um mundo tão vasto, onde há mortos que nos surgem vivos e o tempo que vai passando, em vez de se perder, se aconchega num lugar longínquo. Mas o pasmo não é menor quando lemos que se descobriu nas Beiras uma planta nova para a ciência. Como se conseguiu ela esconder, aqui tão perto, dos botânicos e colectores que calcorreiam os nossos montes? Por que ninguém reparou nela antes se o país é pequeno e não tem florestas impenetráveis? Sendo rara (em 2001 conheciam-se apenas sete populações), poderia ter desaparecido, como uma galáxia remota, sem nunca ter sido vista.

A Arabis beirana é um endemismo português identificado em 1996 nos cumes da serra do Açor. Foi descrita em 2001, na revista Botanical Journal of the Linnean Society, por Paulo Silveira, Jorge Paiva e Marcos Samaniego, mas na verdade já havia recolhas anteriores desta planta em herbário, de regiões a menor altitude. Porém, ninguém parece ter notado as diferenças que, meio século depois, lhe conferiram o estatuto de nova espécie. A primeira população referenciada, e a mesma que nós agora fotografámos, mora junto ao marco geodésico de São Pedro do Açor, a mais de 1300 m de altitude, numa encosta xistosa virada a norte e perto de um parque eólico; foi também lá que vimos a Jurinea humilis.

É uma herbácea pequena (não mais de 70 cm de altura) e hirsuta, com pêlos estrelados e inflorescência pubescente (um dos traços que a distingue e que pode ver na última foto), com características morfológicas e genéticas que a situam entre a A. stenocarpa Boiss. & Reut., um endemismo ibérico, e a A. sadina (Samp.) Cout., outro endemismo lusitano, de ecologia distinta. Conjectura-se mesmo que esta nova Arabis terá tido origem numa população isolada de A. stenocarpa (ou de um antepassado comum), e que idênticas circunstâncias terão criado a A. sadina.

É uma planta bianual ou perene, com uma roseta de folhas basais crenadas ou lobadas e um caule penugento a que se abraçam folhas lanceoladas de menor tamanho. As flores têm sépalas de cor púrpura, pétalas brancas ou rosadas e quatro nectários. O fruto é uma vagem longa e achatada, em posição ascendente, com uma fiada de sementes aladas.

Na Flora Ibérica, o género Arabis abriga 19 espécies, mas a A. beirana ainda não consta da lista. Talvez as galáxias descobertas na semana passada já figurem nos mapas celestes.

25.9.12

Costa dos cubres



Solidago sempervirens L.

Que o Solidago sempervirens é das plantas mais estimadas pelas gentes açorianas prova-o a circunstância de o seu nome, cubres, ser genuinamente popular, e não uma invenção de botânicos empenhados em enriquecer a língua portuguesa. Em São Jorge existe a Fajã dos Cubres, testemunho inequívoco do apreço em que esta planta é tida localmente. E, aquando da minha primeira vista às Flores, ao mencionar no hotel o meu interesse por plantas, a recepcionista puxou do livro Plantas e Flores do Açores, de Erik Sjögren, e mostrou-me os cubres em foto de página inteira. Desiludi-a ao admitir que nunca tinha visto a planta - embora, como comprovei depois, ela ocorresse em boa quantidade a poucas dezenas de metros do hotel.

O reverso da medalha é que o Solidago sempervirens, nativo da costa leste da América do Norte, não pertence à flora indígena açoriana. Ou será que pertence? Os registos históricos são incertos, mas há suspeitas de que a sua presença nas ilhas seja anterior à colonização portuguesa. Se chegou lá por meios naturais, com sementes trazidas pelas marés, pelos pássaros ou pelo vento, então deve ser considerada indígena e não exótica. Outro óbice a tratar-se de uma espécie introduzida é que, tirando os Açores, onde está presente em todas as ilhas, o Solidago sempervirens só ocorre na sua região de origem, nos EUA: não há notícia de se ter naturalizado em qualquer outra parte do mundo. O seu estatuto nos Açores tarda em ser esclarecido e é certamente merecedor de estudo sério.

O nome inglês seaside goldenrod é uma boa descrição da planta em flor e também um indicador do habitat por ela preferido. É uma planta alta, com 1 a 1,5 metros de altura, base lenhosa e folhas grandes, semicarnudas, com os capítulos florais, que brotam só nos meses de Verão, agrupados em panículas densas e alongadas. Nas Flores surge nas falésias e rochedos ao longo de toda a costa, mas também faz umas incursões ao interior da ilha. Sendo muito comum nesta ilha (menos nas outras), está perfeitamente integrada na flora e paisagem locais e, pelo seu comportamento regrado, não pode ser equiparada a exóticas daninhas como o Hedychium gardneranum e a Hydrangea macrophylla.

21.9.12

Macho arrepiado



Dryopteris crispifolia Rasbach, Reichst. & G. Vida

Nisto de fetos há uma tradição, que remonta a Lineu, de distinguir machos e fêmeas, numa separação de todo fantasiosa que não se baseia no papel de cada um na reprodução por via sexual. O feto-fêmea (Athryium filix-femina) não tem comércio com o feto-macho (Dryopteris filix-mas) e, mesmo que tivesse, dificilmente tal interacção daria origem a uma nova planta. Com todas estas ressalvas, e na ausência de nomes comuns em português para a maioria das espécies, dá jeito tratar todos os fetos do género Dryopteris, em geral plantas de envergadura respeitável que vivem em bosques e lugares húmidos, pelo nome de feto-macho. Ao endemismo açoriano de que hoje nos ocupamos, com as suas folhas retorcidas, assenta bem a designação de feto-macho-arrepiado. A temperatura nas ilhas não justifica, em geral, aspecto tão friorento, mas o nosso feto, que ocorre em apenas cinco ilhas (São Miguel, Terceira, Pico, Faial e Flores), prefere as altitudes mais elevadas, acima dos 350 metros. E nas Flores, ultrapassada a fasquia dos 600 m de altitude, o Inverno pode acontecer em qualquer dia do ano. Curiosamente, o outro feto crispado que já por aqui passou, Cryptogramma crispa, é uma especialidade de alta montanha, o que reforça a ideia de que, tanto num como noutro caso, os arrepios que afligem as folhas são uma reacção às baixas temperaturas.

Salvo pelo seu aspecto peculiar do anonimato em que, por inépcia nossa, se perdem grande parte dos fetos açorianos, do Dryopteris crispifolia podemos garantir que é presença assídua nas florestas liliputianas de zimbro com turfeira que preenchem a zona central da ilha das Flores. Mesmo o turista que se apeia do seu carro para a visita obrigatória ao miradouro das lagoas tê-lo-ia em abundância à mão de fotografar, caso as ditas lagoas, uma escura e redonda e a outra azul e estreita, não lhe monopolizassem a atenção.

Com frondes triangulares de não mais que 90 cm de comprimento, dispostas em tufos, o feto-macho-arrepiado aparece em ravinas e bosques naturais mas também, ocasionalmente, em antigas plantações de criptomérias.


Lagoa Negra e Lagoa Comprida - ilha das Flores

19.9.12

Flores de aquário



Ludwigia palustris (L.) Elliott


Regressemos à bacia hidrográfica do rio Vouga, desta vez para caminhar junto à lagoa do Mamodeiro. A lagoa some-se no Verão, para o que seguramente contribui a ocupação cerrada das margens por plantações de eucaliptos. Mas ainda se encontram alguns taludes humedecidos (com Pinguicula lusitanica e Drosera intermedia), regatos e zonas paludosas. O fundo avermelhado quase seco de um arroio tinha tantos pés de Alisma plantago-aquatica, Alisma lanceolata, Baldelia repens e Lindernia dubia, que decidimos inspeccioná-lo de perto. Pelo meio viam-se inúmeros caules acastanhados de uma planta rasteira, de folhas glabras com face superior verde e inferior com laivos rubros. Mas de flores nada.

Desconfiámos. Estas ervas quase-aquáticas florescem em geral no Verão para as flores poderem ficar fora da água e assim se fazerem notadas. Com uma lupa corrigimos o engano: havia flores, e muitas, mas verdes, minúsculas e sem pé. Ao contrário do que sucede com outras congéneres suas, as flores da Ludwigia palustris não têm pétalas, só as quatro sépalas que formam uma campânula e persistem no fruto. Quando este amadurece, é amarelo, tem uns 5 mm de comprimento e exibe umas bandas longitudinais verdes.

A prímula-dos-brejos (marsh primrose) é uma herbácea perene, significando isso que vive submersa no Inverno. É nativa da Europa, Ásia, África e América. Em Espanha ocorrem mais duas espécies de Ludwigia, ambas americanas, ali introduzidas.

Com o nome do género, Lineu quis homenagear o botânico alemão Christian Gottlieb Ludwig (1709–1773), com quem manteve uma discussão profícua sobre as vantagens do seu sistema de classificação das plantas. A correspondência entre ambos é um documento histórico valioso sobre esta época da botânica, ecoando as dúvidas e críticas da comunidade científica ao trabalho de Lineu e dando uma medida do seu impacto; pode ser lida on-line.

18.9.12

Séneçon de France


Senecio gallicus Vill.

Nomes vulgares: nenhum em português; em francês, séneçon de France; em italiano, senecione gallico; em inglês, southern ragwort
Ecologia: dunas marítimas, terrenos cultivados, descampados
Distribuição global: Portugal, Espanha, França, Marrocos e ilhas Baleares
Distribuição em Portugal: litoral centro e sul, bacia do Alto Douro
Época de floração: Março-Junho, com pico de floração em Abril
Data e local das fotos: 16 de Março de 2008, Torreira
Informações adicionais: planta anual com 20 a 30 cm de altura, folhas carnudas profundamente divididas, capítulos florais de 2 cm de diâmetro; talvez o mais bonito malmequer que se pode encontrar nas nossas dunas

14.9.12

Mansa com espinhos



Rubus hochstetterorum Seub.

Há dois motivos fortes para evitarmos as silvas: os seus espinhos agressivos, que tornam intransponíveis os matorrais por elas colonizados; e o labirinto taxonómico em que o género Rubus se tem enredado, e onde até os especialistas correm risco de desnorte. Graças a estratégias como a hibridação, a reprodução vegetativa ou a apomixia (produção de sementes férteis sem que tenha havido fecundação), o número de micro-espécies é assustadoramente alto e resiste a qualquer sistematização. Seguindo o exemplo de outros peritos, o autor da revisão do género na Flora Ibérica decidiu, para que a sua síntese tivesse alguma utilidade, não considerar como espécies válidas aqueles táxones com uma área de ocorrência inferior a 50 Km2. Há portanto silvas que, por lei, vivem no limbo das coisas sem nome.

Mas as flores que despontam com a Primavera, além da beleza modesta que é a sua, contêm a promessa de regalo para o paladar. No meio dos espinhos, quando chega o Verão, brilha o negrume luzidio das amoras silvestres. Perdoamos os arranhões e tratamos de adoçar a boca. Flores e frutos, cada qual a seu tempo, são razões que pesam no prato do bem e talvez consigam, na balança dos nossos (des)afectos, compensar as razões do lado do mal. Devemos pois manter uma atitude aberta. Silvas há que têm nome, entre elas a mais comum e mais fácil de identificar, chamada Rubus ulmifolius. Outras silvas compensam o anonimato pelas flores vistosas e pelos frutos generosos. E outras ainda juntam ao mérito visual e gustativo a conveniência de um nome inequívoco. Assim é o Rubus hochstetterorum, a silva-mansa açoriana, um endemismo que, de todas as ilhas do arquipélago, só não mora na Graciosa.

As duas silvas, a expansionista R. ulmifolius e a endémica R. hochstetterorum, competem uma com a outra nas oito ilhas restantes, com a primeira quase sempre em larga vantagem. A excepção é a ilha das Flores, em que a silva-mansa é muito comum e a outra nem por isso. Pelo perverso hábito de ignorar o que é abundante e só ter olho para as raridades, somado ao preconceito contra as silvas em geral, não dei qualquer atenção, durante a minha visita à ilha em 2011, a essa silva de flores imaculadamente brancas (ou por vezes rosadas) que encontrei desde os cumes do Morro Alto até às falésias costeiras. Que o erro pôde ser remediado em 2012 aí estão as fotos para comprovar.

A cor das pétalas não é um indicador infalível para distinguir as duas espécies, pois ocasionalmente o R. ulmifolius pode dar flores brancas. Mas em qualquer caso elas são mais pequenas, com cerca de metade do diâmetro das flores do R. hochstetterorum (que podem chegar aos 5 cm), têm pétalas mais delgadas, e dispõem-se em panículas estreitas, em contraste com as panículas amplas do R. hochstetterorum. Por não ter visitado a ilha na estação certa, não pude comparar os frutos de uma e de outra silva, mas consta que as da segunda são maiores.

São dois os botânicos alemães de apelido Hochstetter ligados ao estudo da flora açoriana, e não é impossível que o epíteto hochstetterorum tanto homenageie um como outro. Christian Ferdinand Friedrich Hochstetter (1787-1860) e Karl Christian Friedrich Hochstetter (1818-1880), pai e filho, visitaram demoradamente o arquipélago em 1838, mas só o primeiro é referido, e de raspão, no livro Os Dabney - Uma família americana nos Açores (edição Tinta da China, 2009), relato condensado da vida no Faial ao longo do século XIX. As descobertas açorianas dos dois Hochstetter serviram de base à pioneira Flora Azorica (1844), de Moritz August Seubert, onde surgem as descrições originais do Rubus hochstetterorum, da Veronica dabneyi e de muitos outros endemismos do arquipélago.

12.9.12

Trevo-encarnado

Modiola caroliniana (L.) G. Don

Crê-se que esta planta rasteira, cujo aspecto lembra o dos hibiscos, tem origem na América de clima temperado ou tropical, e não apenas nos estados da Carolina do Norte e do Sul, mas há muito se terá disseminado para regiões de ambiente idêntico noutros continentes. Tolera o ar salgado e não parece exigente com a qualidade do habitat: basta-lhe um prado bem irrigado, solo arenoso mas húmido ou um terreno inculto na margem de uma lagoa. Como não há nariz que aguente morar por longo tempo junto a águas poluídas, esta herbácea, em geral perene, consegue optar por um regime anual.

Vimos estas flores da cor do mercúrio junto à ponte de Requeixo, no concelho de Aveiro. Perto está a Pateira de Fermentelos, uma das maiores lagoas naturais da Península Ibérica (no Inverno chega aos 5 quilómetros quadrados), que integra a Zona de Protecção Especial da Ria de Aveiro e, portanto, a Rede Natura 2000. Lemos numa página mantida pela Câmara de Águeda que a Pateira já foi parte de um braço de mar, antes de se formar a ria de Aveiro. Há uns séculos, os aluviões dos rios Cértima e Águeda engordaram o caudal do que é hoje o rio Vouga e formaram uma vasta zona apaulada na sua envolvente, mas o assoreamento isolou uma lagoa, transformando-a num condomínio de patos com uma biodiversidade notável. Patos ainda há muitos, mas a lagoa está inquinada com jacintos-de-água, e são pouco críveis as descrições da flora do lugar que ali situam uma população de Marsilea quadrifolia.

Os caules da erva-do-amor (nome açoriano, tal como o do título), a quem Lineu chamou Malva caroliniana em 1753, enraizam-se pelos nós e podem chegar aos 25 cm de comprimento. As flores, de Primavera-Verão, são solitárias, axilares e minúsculas (cerca de oito milímetros de diâmetro), com cinco pétalas e outras tantas sépalas triangulares verdes que se unem num cálice um pouco mais curto que a corola. Por sorte, o mesmo pé de Modiola tinha já frutos, umas cápsulas que lembram o carrossel dos antigos projectores de diapositivos, com umas duas dezenas de sementes duplas alinhadas em círculo e separadas por raios que se encaixam como numa roda.

A designação Modiola, do latim modiolus, alude ao formato do fruto e foi proposta pelo botânico alemão Conrad Moench em 1794. Este género é hoje mono-específico depois de as outras espécies se terem mudado para o Modiolastrum; talvez a Modiola não tarde a juntar-se-lhes.


Ponte de Requeixo, Aveiro

11.9.12

Tasneira-dos-brejos



Senecio aquaticus Hill

Nomes vulgares: em português, os mesmos do S. jacobaea (tasneira, erva-de-São-Tiago); em inglês, marsh ragwort
Ecologia: margens de lagos e ribeiras, pauis
Distribuição global: quase toda a Europa a oeste da linha que vai da Escandinávia aos Balcãs
Distribuição em Portugal: mais frequente no Minho, esporádica no litoral centro e no sudeste
Época de floração: Junho-Agosto
Data e local das fotos: 9 de Agosto de 2012, Rio Tinto, Esposende
Informações adicionais: o Senecio aquaticus é venenoso como o Senecio jacobaea e tem aspecto geral semelhante, dele se distinguindo pelos capítulos florais maiores, dispostos em panículas muito menos densas, e pelas folhas menos recortadas, em geral rematadas por um lobo grande e arredondado

7.9.12

Patalugo



Leontodon rigens (Dryand.) Paiva & Ormonde Leontodon hochstetteri M. Moura & L. Silva

Há quem saia das ilhas movido por sonhos de grandeza. As plantas têm a atitude oposta e instalam-se nas ilhas para ficarem grandes. Já aqui reportámos instâncias desse fenómeno açoriano, com uma Angelica e uma Tolpis que extravasam escandalosamente as medidas aconselhadas para os géneros a que pertencem. E, embora de aparência mais comedida, pois não ultrapassa os 60 cm de altura, o Leontodon rigens, outro endemismo açoriano, faz figura de extraterrestre face a congéneres continentais como o L. tuberosus e L. taraxacoides. Além das folhas grandes (30 cm de comprimento), caracteristicamente recortadas e peludas (toda a planta é aliás bastante hirsuta), o que singulariza o L. rigens é o modo como os capítulos florais, cada um deles com 5 ou 6 cm de diâmetro, se dispõem em corimbos quase esféricos.

Patalugo-menor é o nome por que ele é conhecido no seu arquipélago natal, ficando patalugo-maior reservado para o também açoriano Leontodon filii. Paradoxalmente, o patalugo-menor excede o seu irmão em quase todos os parâmetros: no tamanho das folhas, na altura da haste floral, na abundância da floração. O patalugo-maior só se superioriza no diâmetro dos capítulos florais, mas perde por ter apenas 4 ou 5 em cada haste. Os dois Leontodon são de floração estival, ocorrendo cada um deles em cinco ilhas: ambos em São Miguel, Pico e Terceira; o L. filii ainda em São Jorge e no Faial; e o L. rigens nas Flores e no Corvo. Como sucede a quase todos os endemismos açorianos, os patalugos são raros e têm a sua sobrevivência ameaçada, com a importante ressalva de o L. rigens ser comum nas Flores, e só nas Flores. Enfeitando bermas de estrada, onde aliás só não surge com maior frequência por causa da perseguição das brigadas de limpeza, substituiria com vantagem as exóticas hortênsias como imagem de marca da ilha, pois floresce na época do ano em que chegam mais visitantes.

Terminamos com um apontamento semântico-morfológico. Leontodon significa dente de leão, nome que é costume dar, em português e em outras línguas, às plantas do género Taraxacum. Os dois géneros botânicos têm evidentes semelhanças, tanto nas inflorescências como no recorte das folhas onde a imaginação popular, acolhida por Lineu, quis ver a dentadura do grande felino. Talvez o modo mais fiável de distinguir os Taraxacum seja pelas brácteas involucrais proeminentes, por vezes com os ápices recurvados para baixo.

Nota. Um artigo de 2015 na revista Phytotaxa, intitulado A revision of the genus Leontodon (Asteraceae) in the Azores based on morphological and molecular evidence), mostrou que as plantas do grupo ocidental antes incluídas em Leontodon rigens constituem de facto uma espécie diferente, a que os autores chamaram Leontodon hochstetteri. Assim reinterpretado, L. rigens é um endemisno da ilha de São Miguel.

5.9.12

A próxima invasão





Senecio inaequidens DC.

Nomes vulgares: em inglês, narrow-leaved ragwort ou South African ragwort; em francês, séneçon du Cap; em português, propomos tasneira-do-Cabo
Ecologia: terrenos ruderais, afloramentos rochosos, dunas costeiras
Distribuição global: nativa da África do Sul, Namíbia e Moçambique, foi introduzida acidentalmente na Europa no final do século XIX; hoje em dia está naturalizada em quase toda a Europa ocidental (incluindo a Grã-Bretanha, a Escandinávia e a faixa mediterrânica entre Espanha e Itália) e também na América do Norte e do Sul
Distribuição em Portugal: desconhecida, pois nunca até hoje ela tinha sido detectada no nosso país; está pelo menos naturalizada no estuário do Lima e nas dunas da Amorosa, em Viana do Castelo
Época de floração: quase todo o ano, mas especialmente de Abril a Outubro
Data e local das fotos: 12 de Agosto de 2012, Amorosa, Viana do Castelo
Informações adicionais: planta perene com 60 a 80 cm de altura, glabra, por vezes de base lenhosa, que se distingue pelas suas folhas estreitas e pelas brácteas involucrais com ápices escuros; tem vindo a expandir a sua área de ocupação a grande velocidade, e é considerada uma invasora preocupante em vários países europeus pela ameaça que pode representar para a flora nativa; contudo, a sua presença em Portugal, onde tenderá a ocupar dunas e lugares degradados, dificilmente representará uma ameaça comparável à dos chorões (Carpobrotus edulis), que, por ignorância ou incúria, ainda são usados ocasionalmente no ajardinamento público (em Moledo do Minho, por exemplo)

4.9.12

O amarelo que faltava





Centaurea ornata Willd.

Entre as centáureas, predominam as cores vizinhas do roxo, com mais ou menos matizes de rosa, magenta, azul ou branco. A minoria que resta optou por flores amarelas. Dividido, desse modo, o mundo em duas cores, verificámos que por aqui nunca se tinha visto uma centáurea amarela, pecado grave porque até há um endemismo português neste grupo. Porém, a sua distribuição restringe-se às longínquas serras costeiras do sudoeste, e nós tivemos de nos contentar com um endemismo ibérico: o cardazol, herbácea perene que em Espanha parece ser frequente, tendo em conta os registos do Anthos, mas que por cá se avista pouco.

Há algum tempo que sabíamos onde a procurar. Como ela aprecia solos pedregosos em sítios áridos e secos, lugares que à primeira vista parecem inapropriados para plantas mas que à segunda nos surpreendem agradavelmente, bastava encontrar um terreno inculto sem uso recente, com entulho, sim, mas abençoado com raridades botânicas. O leitor já adivinhou? Esse mesmo. Em Julho, as amplas bermas desse parque de estacionamento pareciam pintadas de amarelo vivo, tão saudável e florida estava a população desta «cigarra» naquele recanto. As plantas eram altas, com cerca de 70 cm de altura, ramosas e a deixar pouco espaço à vegetação concorrente, algumas com frutos acetinados cheios de papilhos brancos. Como é comum neste género, a folhagem é espinhosa - repare, pela quarta foto, na unha-espinho com que terminam os folíolos - assim como as brácteas dos capítulos florais.

A Nova Flora de Portugal (vol. II, 1984) refere a divisão desta espécie em duas subespécies: a ornata, sobretudo do nordeste, centro-este (onde a vimos, e onde se inclui também o Sabugal) e sudeste; e a interrupta, com algumas pequenas diferenças nas folhas e no invólucro exterior da inflorescência, que prefere os climas mais quentes e mediterrânicos do sul e da bacia do Alto Douro.