30.11.12

Cartões amarelos




Ranunculus bullatus L.

Nomes vulgares: borboleta-bolhada, montã-do-Outono
Ecologia: Planta perene que prefere solo calcário de habitats em locais abertos e com alguma humidade
Distribuição global: Região mediterrânica e Península Ibérica
Distribuição em Portugal: Na região calcária no centro-oeste do país (Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo), no sudeste (Baixo e Alto Alentejo) e no sul (Algarve)
Época de floração: Outubro a Janeiro
Data e local das fotos: 10 de Novembro de 2012, vale do Poio, Pombal
Informações adicionais: O epíteto bullatus alude a protuberâncias, semelhantes a bolhas, que algumas folhas exibem
Nota: Esta é a primeira de algumas fichas sobre o género Ranunculus



26.11.12

Um cardo português





Carduus lusitanicus Rouy

Os cardos são, em geral, plantas de fraca reputação, por preferirem lugares degradados e por, ocasionalmente, se instalarem como convidados indesejáveis em terrenos cultivados. A esses defeitos de carácter há que adicionar os agressivos espinhos com que eles se protegem da herbivoria. Mas a beleza das suas inflorescências e o farto néctar com que recompensam abelhas e outros polinizadores são bons argumentos para não lhes declararmos guerra aberta - ressalvando, porém, que a criação não tem como finalidade última o serviço da humanidade, e que uma planta tem direito à existência mesmo que não nos seja directamente útil.

Além de merecerem o carinho dos apicultores, os cardos são das plantas com maior interesse para os estudiosos de botânica, pela dificuldade que há em delimitar géneros, espécies e subespécies. No princípio, com Lineu, tudo era simples: quase todas as compostas mais ou menos espinhentas com inflorescências desprovidas de «pétalas» (ou, mais correctamente, de lígulas) foram por ele reunidas no género Carduus. De cisões posteriores nasceram, entre outros, os géneros Cirsium, Serratula e Sylibum; e, das 23 espécies de Carduus descritas por Lineu, só três (C. acanthoides, C. crispus e C. nutans) não migraram para outro género. Como compensação, o contingente dos Carduus viu-se reforçado com muitas novas espécies europeias, africanas e asiáticas. Das cerca de 90 espécies hoje registadas, 19 ocorrem na Península Ibérica e 9 em Portugal.

As diferenças morfológicas e a diversidade dos ciclos biológicos ditaram ainda a divisão do género Carduus em vários subgéneros e inúmeras secções, de que só um dos subgéneros e três das secções têm representantes na flora portuguesa. O cardo que hoje nos ocupa pertence à secção cuja figura de proa é o lineano C. nutans: são plantas de inflorescências grandes e vistosas, bienais, que florescem no seu segundo ano de vida. Ao contrário de outros cardos, não se reproduzem vegetativamente, dependendo em exclusivo da germinação de sementes. Talvez por isso sejam pouco comuns. Além do Carduus lusitanicus, essa secção integra, em Portugal, uma única outra espécie: C. platypus. Os dois distinguem-se pelas brácteas involucrais, que são ascendentes no C. lusitanicus e recurvadas para baixo no C. platypus. Um bom lugar para observar o primeiro é, em meados de Junho, a serra da Boa Viagem, na Figueira da Foz; o segundo, que floresce pela mesma altura, é frequente em bermas de estrada nos arredores de Manteigas.

Claro que os taxonomistas não se dariam por satisfeitos se não inventassem complicações adicionais, e tanto o C. platypus como o C. lusitanicus foram divididos em diversas subespécies. Por cá existem o C. lusitanicus subsp. broteroi, presumível endemismo português dos maciços calcários do centro-oeste, e o C. lusitanicus subsp. lusitanicus, de solos ácidos no interior centro e em Trás-os-Montes. Como as plantas acima expostas moravam na serra do Açor, perto do Piódão, elas deveriam filiar-se na subespécie lusitanicus. Os espinhos salientes das folhas sugerem, contudo, que elas pertencem à subespécie broteroi. Alguém nos ajuda a deslindar a confusão?

Bibliografia
J. A. Devesa & S. Talavera - Revisión del género Carduus (Compositae) en la Península Ibérica e Islas Baleares - Universidad de Sevilla, 1981

22.11.12

Tremoços de Espanha



Lupinus hispanicus Boiss. & Reut.

A julgar pela Flora Ibérica, que indica Trás-os-Montes como a única região do país onde ocorre este tremoceiro, esta espécie de Lupinus seria de facto não rara mas essencialmente espanhola. O engano, resultado talvez da insuficiente consulta de fontes portuguesas, pode comprovar-se por artigos científicos recentes sobre este endemismo ibérico (do centro e oeste da Península) que registam populações de outras províncias do nosso país. Ressalvemos, contudo, que as mudanças na prática agrícola e o alargamento das estradas têm feito rarear muitas plantas arvenses ou ruderais como esta. Sendo optimistas, estaremos atentos entre Abril e Junho para o reencontrarmos nas regiões assinaladas por Amaral Franco na Nova Flora de Portugal.

Os tremoceiros ibéricos são plantas anuais (com a possível excepção do L. polyphyllus Lindl. cuja origem não está ainda deslindada) que se reconhecem pelas folhas em estrela com folíolos estreitos de margens mucronadas ou peludinhas, pelos cachos de flores com quilha (a que os ingleses chamam bonnets) agrupados em verticilos perfeitos, e pelos feijões empinados com um espinho curvo no topo. Este Lupinus, que é perfumado ou não (há divergências quanto a isso), tem flores de um tom rosa azulado. As fotos mostram exemplares num talude da margem do rio Sabor, em Macedo de Cavaleiros, a cerca de 200 m de altitude.

O feijão-de-lobo prefere lugares soalheiros de solo quase arenoso e ácido, em campos de cereais, vinhas, olivais, bermas de estrada ou taludes. A genética confirma que é parente próximo do L. luteus; e os programas de hibridação para produção de melhores forragens têm beneficiado das inúmeras qualidades das duas espécies.

Algumas referências aludem a duas subespécies deste Lupinus, o L. hispanicus subsp. bicolor (Merino) Gladst. e o L. hispanicus Boiss. & Reut. subsp. hispanicus. A primeira é a espécie Lupinus gredensis Gand.; a segunda é o tremoceiro das fotos.

20.11.12

Lagoa dos fetos



Dryopteris azorica (Christ) Alston

É perfeitamente possível, e é mesmo a experiência mais comum do forasteiro, visitar os Açores sem nunca pôr os olhos em plantas açorianas. A paisagem dominante das ilhas, aquela que é reproduzida em cartazes e publicações turísticas, compõe-se de um mosaico de pastagens delimitadas por sebes de hortênsias (Hydrangea macrophylla) e por matas de criptomérias. Tanto o arbusto como a árvore, ambos tão marcantes na iconografia açoriana, foram importados do Japão. E da Austrália veio a soberba araucária erguida como um mastro em jardins de vilas e cidades. O verde dos Açores parece natural, e é certamente repousante, mas quase todo ele é postiço, por ter sido moldado por mão humana. O verde original das ilhas, banhado em nevoeiro, acantonou-se em montes e ravinas inacessíveis e sem préstimo agrícola.

Desvalorizar por completo a vegetação introduzida é, contudo, uma atitude maniqueísta que convém rejeitar. O exótico e o autóctone interpenetram-se, e numa mata de criptomérias podem surgir boas amostras de plantas nativas ou mesmo endémicas. Há anos, escrevendo sobre a lagoa das Patas, na Terceira, disse que a única coisa que lá havia eram criptómerias, e que da vegetação própria da ilha só sobravam fetos. Regressando, anos depois, com um olhar mais educado, encontrei, nas margens do ribeiro, pequenas populações da Tolpis azorica, Sanicula azorica e Myrsine retusa. E os fetos, que me envergonho de ter desdenhado e não são menos valiosos que as demais plantas, faziam-se representar pelo feto-pente (Blechnum spicant), pelo feto-do-botão (Woodwardia radicans), pelo feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa) e pelo feto endémico que é hoje cabeça de cartaz, Dryopteris azorica. Este último era mesmo o mais abundante, vicejando à sombra das criptomérias e formando um bonito sub-bosque numa inesperada plantação de bétulas.


Dryopteris azorica (Christ) Alston

Se o tufo de grandes folhas arqueadas e o formato das pínulas não deixam dúvidas sobre a inclusão deste feto no género Dryopteris, já apontar-lhe a espécie requer alguns cuidados. Ajuda saber que o único outro feto existente na Terceira que se pode confundir com o D. azorica é o D. aemula, que é mais pequeno (frondes até 60 cm, contra 1,5 m ou mais do D. azorica) e exibe, no pecíolo das folhas, escamas de um castanho claro uniforme, quando as da D. azorica costumam ter o centro escurecido. Com a escolha assim reduzida a dois candidatos, a identificação é segura. Mas ver-nos-íamos atrapalhados, mesmo com o manual à mão e a lupa encaixada no olho, se tivéssemos, por exemplo, de distinguir o D. azorica do D. dilatata.

A principal razão para a complexidade do género Dryopteris, com miríades de espécies que são pequenas variações de outras, é a facilidade com que elas se combinam para produzir novas espécies por poliploidia. O Dryopteris azorica, que ocorre em todas as ilhas do arquipélago, também interveio nesse jogo, cruzando-se com o D. aemula para dar origem a um outro endemismo açoriano, D. crispifolia.

17.11.12

Flora desprotegida do litoral de Vila do Conde



Sábado, 24 de Novembro, às 16h00
Salão Nobre da Junta de Freguesia de Santo Ildefonso, Porto
(Rua Gonçalo Cristóvão, 187-2.º, junto ao edifício do JN)

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Herdeira da histórica Reserva Ornitológica de Mindelo, a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde foi criada em Outubro de 2009 pela Assembleia Metropolitana do Porto. Desde então nada foi feito para contrariar o estado de abandono e de efectiva desprotecção dessa valiosa área natural. Para tentar sacudir a letargia oficial, faremos uma apresentação fotográfica comentada da preciosa flora do litoral de Vila do Conde, que inclui várias plantas ameaçadas e outras endémicas de distribuição restrita.

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Esta apresentação insere-se na já tradicional Quermesse de Natal da Campo Aberto, que decorre no mesmo espaço entre as 15h00 e as 19h00, e para a qual estão convidados todos os nossos leitores.



Matthiola sinuata (L.) R. Br. / Spiranthes aestivalis (Poir.) Rich.

13.11.12

Vida ao sol



Hispidella hispanica Lam.

O Souto do Concelho, em Manteigas, não parece ser o habitat ideal para plantas que gostem muito de luz. Os castanheiros, aqui e ali reforçados por outras folhosas e por sombrios contigentes de coníferas exóticas, sobem em formação cerrada pelas encostas da serra, estendendo um toldo imenso que filtra o sol com eficácia ímpar. Mas só é assim durante metade do ano: pelo menos até finais de Abril, enquanto os castanheiros não ganham folhagem nova - e eles são dos mais preguiçosos a cumprir essa obrigação primaveril -, há luz mais que bastante para que certas herbáceas de aparição efémera floresçam no sub-bosque. E, durante o ano inteiro, há clareiras pedregosas onde vive outro tipo de vegetação, tolerante a solos esqueléticos mas exigindo sol com fartura. São clareiras que se assemelham a grandes feridas, e que se diriam provocadas por desbastes insensatos do arvoredo. Essa ideia é abandonada quando constatamos que tais clareiras, preenchidas de alto a baixo com blocos de pedra solta, nunca tiveram árvores, pois nenhuma árvore poderia medrar e equilibrar-se em terreno tão pobre e tão instável. Ou talvez pudesse, mas com grandes cautelas e demoras. De facto, o mesmo tipo de cascalheira prolonga-se algumas dezenas de metros pelo arvoredo dentro, convertendo-se gradualmente em solo espesso. A expansão dos castanheiros vai criando solo à medida que faz diminuir as clareiras.

Ainda há-de levar mais umas dezenas ou centenas de anos até que as feridas-que-o-não-são desapareçam da paisagem do souto. Uma das plantas que entretanto por lá vai vivendo é esta pequena composta anual cujo aspecto peludo e eriçado lhe valeu o nome genérico de Hispidella. Por alturas de Junho já ela floriu; quando a secura do Verão fizer escaldar as pedras já a sementeira para o próximo ano estará feita.

Com cerca de 30 cm de altura máxima, a Hispidella hispanica, que costuma abundar em habitats propícios na serra da Estrela, tem a dupla distinção de ser um endemismo ibérico e talvez a única espécie do seu género. Em Portugal ocorre apenas no interior norte e centro, de preferência em altitudes elevadas. É, no entanto, fácil de confundir com a leituga (Tolpis barbata), planta muito mais vulgar em todo o país. Ambas têm, em regra mas não sempre, os centros dos discos florais pintados de castanho. Contudo, a leituga, além das brácteas involucrais muito proeminentes (ver aqui), tem as folhas com margens dentadas e sem os longos pêlos que distinguem a Hispidella.

11.11.12

A graça do delfim



Delphinium gracile DC.

Os marcos geodésicos são pilares cónicos ou piramidais de alvenaria que, no tempo anterior à medição electrónica das distâncias e aos satélites, ajudaram a medir o país (e a fixar em 2000 metros briosos a altura da serra da Estrela). Numa primeira aproximação, a cartografia plana de um mundo mais ou menos esférico exige engenho mas não tecnologia sofisticada. De um lugar elevado, com uma mira apontada a marcos de referência (cuja localização é conhecida com precisão), uma fita métrica e um transferidor, os geógrafos triangularam o país, determinando distâncias entre lugares pouco acessíveis do mesmo modo como, muitos séculos antes, astrónomos gregos haviam calculado a distância da Terra à Lua. Com o advento do GPS, os marcos tornaram-se obsoletos e foram reformados deste seu serviço público, embora a maioria continue de pé. Hoje têm outro encanto: a manutenção desvelada que continua a fazer-se da sua envolvente tem permitido que ali prospere uma flora notável.

Foi junto a um deste marcos, em Trancoso, que encontrámos, entre muitas outras plantas interessantes, dúzias de pés deste «golfinho» airoso e delicado, uma herbácea anual a que os ingleses chamam larkspur. Não parece abundante, a julgar pela distribuição até agora registada na Flora-On, embora não seja de ecologia exigente: vimo-la em terreno seco que parecia uma pastagem em pousio e noutra ocasião à beira de uma estrada em Minde. É nativa da Península Ibérica e do norte de África, mas naturalizada noutras paragens. O género tem cerca de 300 espécies, seis das quais ocorrem em Portugal, além dos híbridos de jardim com flores dobradas, inflorescências densas e cores mais variadas.

As folhas muito divididas e as flores com duas «saias» são característica dos Delphinium. Das cinco sépalas (parecem pétalas) que formam a camada exterior, a mais elevada termina num esporão onde duas das quatro pétalas internas se encaixam para aí esconderem chamativas gotas de néctar. Os polinizadores são em geral abelhões com língua comprida que baste para aceder a esta guloseima.

6.11.12

Caldeira de nuvens



Euphorbia stygiana H. C. Watson

Quando cheguei à Terceira, no início de Outubro, toda a ilha se preparava com alvoroço para receber a «tempestade tropical». Iam ser dias bem preenchidos com acontecimentos emocionantes ou solenes: dia 4 de Outubro, furacão à solta, com escolas encerradas e a população aconselhada a não sair de casa; dia 5 de Outubro, derradeiras comemorações da República; dia 6 de Outubro, rali da Terceira com relato circunstanciado na estação de rádio local que, como passageiro da EVT, fui obrigado a ouvir.

Correu quase tudo conforme previsto, com excepção da pífia «tempestade tropical». Ter-se-á ela, qual navio sem comandante, enganado na rota? É que as ilhas, rochedos minúsculos no oceano, não se deixam encontrar por acaso. Ou, sabendo que o que aí vinha era tempestade do mais fruste quilate, terão os serviços públicos, num assomo de desobediência cívica, conspirado para juntar um feriado extra ao último 5 de Outubro?

Mas ainda bem que os prognósticos catastróficos foram desmentidos. Os ilhéus foram poupados a transtornos e prejuízos; e eu, em vez de me fechar temerosamente no hotel, lancei-me nos passeios que tinha planeado. O verde fresco das matas, o caudal farto dos ribeiros e os caminhos encharcados davam testemunho das chuvas recentes, num alegre contraste com o estado de secura da ilha em outubros de anos anteriores. As galochas revelaram-se indispensáveis, mas foi imprudente usar calçado tão desconfortável em caminhadas longas. Uma bolha dolorosa num pé, nos meus dois últimos dias de estadia, acabou por ter um efeito sedentário bem maior que o da falhada tempestade.

Chuva e névoa houve todos os dias, mas são esses os ingredientes que dão o característico toque de fantasmagoria ao interior da ilha. Quando, guiado por Fernando Pereira (um grande bem-haja pela gentileza!), subi o Pico Gaspar ao encontro do trovisco-macho, as fotos teriam ganho em nitidez, mas perdido em valor documental, se a caldeira não parecesse uma fumegante panela de pressão. O nevoeiro é açoriano e é especial por isso - tanto como o arbusto que justificou a escalada, ele é endémico das ilhas.

O trovisco-macho, que na verdade se chama Euphorbia stygiana, é uma eufórbia gigante que por vezes assume proporções arbóreas; dotada de uma copa muito ampla, pode ultrapassar os 5 metros de altura. As folhas, com 10 a 15 cm de comprimento, são lustrosas e decorativas; as flores, que não pude ver, surgem entre Maio e Agosto. Por nunca se despir da folhagem, a sua beleza nunca fica aquém daquilo que as fotos mostram.

A vocação ornamental desta eufórbia é tão evidente que custa entender a sua ausência dos jardins. Se fosse muito abundante na natureza, compreender-se-ia que as açorianos, fartos de a ver por todo o lado, não tivessem interesse em domesticá-la. Mas sucede justamente o contrário: a Euphorbia stygiana é rara, e está mesmo ameaçada na maioria das ilhas. Será que as exigências ecológicas peculiares tornam o seu cultivo impossível? Não parece que assim seja, pois - informa o Google - a planta é comercializada por hortos estrangeiros.

Muito semelhante à E. stygiana, e ainda mais popular fora do país como ornamental, é a madeirense Euphorbia mellifera. Mesmo que geneticamente próximas, as duas nunca poderiam produzir um híbrido na natureza, por falta de oportunidades de contacto mútuo. Mas foram plantadas lado a lado no jardim botânico de Oxford, e da sua interacção não premeditada nasceu um híbrido baptizado Euphorbia x pasteurii, ao que consta de grande mérito hortícola.

1.11.12

Entre marés

Quem pretende morar na fronteira entre terra e mar, onde o sal fino é uma segunda pele e o chão foge a cada recuo das ondas, ou é inerte como um seixo ou tem que ser versátil como um pirata. Essa parece ser uma das qualidades das plantas do género Suaeda, cujo habitat, sapais e marismas, raramente está calmo e enxuto. As folhas, sésseis e com aspecto farinhento, são suculentas, o que é comum nas plantas que vicejam à beira-mar; as raízes são longas, permitindo que a planta se segure num solo arenoso e sugue água doce num meio misto onde abunda a água salgada. E as espécies deste género revelam algum polimorfismo, sinal de oportunas adaptações ao ambiente.

A S. albescens (amiúde confundida com a Suaeda maritima (L.) Dumort.) é uma herbácea anual de hábito prostrado, esporádica em areais marinhos do Algarve ao Minho. As folhas são metades de cilindro com cerca de 3 centímetros de comprimento e ponta aguçada, que começam por dispor-se em roseta e depois se eriçam num arbusto descabelado. As flores, de Verão, são verdes, hermafroditas ou femininas, e agrupam-se em glomérulos lassos nas axilas das folhas.



Suaeda albescens Lázaro Ibiza

A S. vera, a que o povo chama valverde-dos-sapais, é perene e lenhosa, e cresce muito mais que a espécie anterior. As suas flores, igualmente minúsculas (cerca de 1 milímetro de diâmetro), agrupam-se às dúzias, protegidas por uma bráctea grande e várias bractéolas; os frutos são utrículos com uma semente. Diz-se que, em tempos idos, era queimada para se retirar das cinzas um carbonato de sódio usado no fabrico de vidro. É nativa da região mediterrânica e da costa atlântica norte até Inglaterra e, por cá, segundo a Flora Ibérica, ocorre no Algarve, Baixo Alentejo e Estremadura. Contudo, o exemplar das fotos mora no estuário do Lima, em Darque, Viana do Castelo. Com sorte, é um recém-chegado da Galiza e trouxe consigo a sua fantástica parasita, a Cistanche phelypaea.


Suaeda vera Forssk. ex J. F. Gmel

Das cerca de cem espécies do género Suaeda, a Flora-On dá conta de quatro em Portugal (além das anteriores, também a S. spicata (Willd.) Moq. e a S. splendens (Pourr) Gren & Godr.). Porém, a designação da primeira não é consensual entre os taxonomistas, e a Flora Ibérica não a regista em Portugal. Por isso também neste âmbito poderão estar para breve novos cortes.