15.3.13

Lírio de Brotero



Iris subbiflora Brot.

Se vingar a opção da Flora Ibérica de agrupar no género Iris apenas as plantas de flores com uma franja nas tépalas e rizomas com numerosas raízes, das cerca de 110 espécies, europeias ou asiáticas, que comporão o minguado género só a I. subbiflora será espontânea em Portugal. Ainda assim, terá de mudar de nome, para Iris lutescens Lam., e com isso deixará de ser um endemismo ibérico. A proposta de mudança taxonómica é sustentada por estudos genéticos recentes, mas tem mais um efeito indesejável: a autoria do nome aceite passa do português Brotero para o francês Lamarck. O primeiro escolheu I. subbiflora em 1804, aludindo, crê-se, ao facto de as flores serem em geral solitárias, raramente duas em cada haste, e a planta parecer preguiçosa no florescer. Lamarck antecipou-se, e propôs em 1789 a designação I. lutescens, abrigando desse modo também plantas de fisionomia semelhante (ainda que menos altas e com flores que podem ser amarelas ou azuis mas sempre de barbicha amarela) que são nativas da região mediterrânica oeste e muito raras na Península Ibérica. São todos primos esses Iris, é certo, mas não se perdoa a desfeita.

Os caules desta herbácea são de um verde pálido que parece seco e rondam os 20 a 40 cm de altura. As folhas, ensiformes ou falciformes e de nervuras longas, juntam-se na base a formar um leque que é um suporte firme para a haste da flor. Esta é perfumada e azul-violeta, de tom mais ou menos intenso (por vezes com umas pinceladas de cor púrpura ou, excepcionalmente, brancas), penugem amarela, branca ou azulada nas tépalas externas (que não as cristas), e duas brácteas membranáceas.

Encontrámos umas centenas de exemplares desta planta na serra de Sicó, embora apenas uma vintena em flor. Estava em lugar soalheiro com solo calcário seco, e também em fissuras de rocha, aproveitando as pequenas clareiras do mato que por ali é rasteiro. Apesar de este tipo de habitat ser frequente na Beira Litoral, Estremadura e Ribatejo, os registos recentes de ocorrência deste lírio-roxo em Portugal situam-se todos em Sicó ou no Parque Natural de Sintra-Cascais.

4 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Olá Maria

Fico a saber (o que já venho sabendo à medida que vos leio e que vou lendo nomes) que isto da taxonomia é como as médias estatísticas: essa média quase nunca é um valor que exista ou possa existir,mas é um saco onde tudo entra e tudo oculta.
Uma pergunta de leigo:
Suponho que no passado que já passou!! o que os jardineiros das antigas (e agora abandonadas Est. Cam. Ferro da CP)plantavam muitas das vezes era o Irís germanica; certo? e que deste se diferencia?
Apenas pergunto isso por que sendo usual as pessoas terem esse Iris germanica, supus que o que encontrei já em Abr/2009 ao largo da E.C.F. de Urrós(abandonada) perto de Sendim(Douro) era esse I. germanica e não outra,como este!

Abraço
Carlos M. Silva

bea disse...

mesmo com o verde do caule e das folhas a desmaiar compensa-nos a alacridade do azul violeta.
tenho um lembrança de lírios campestes de haste fina, delicadeza de flor na cor etérea das glicínias, a chamada a flor da ternura. Extraordinário nome:).
BFS

Manuel Ramos disse...

No Algarve, nas charnecas do barrocal (Silves) é muito habitual.

Paulo Araújo disse...

Segundo todas as referências (incluindo uma muito completa Flora e Vegetação do Barrocal Algarvio [PDF]), o Iris subbiflora não ocorre no Algarve. Por outro lado, é bastante abundante por lá um lírio que, pelo menos em fotos, se pode confundir com este. Ao vivo a confusão é improvável, pois em geral é bastante mais pequeno. Trata-se do Gynandriris sisyrinchium. Não será esta a planta a que o Manuel Ramos se refere?