8.4.13

Barlia Douro


Barlia robertiana (Loisel.) Greuter [sinónimo: Himantoglossum robertianum (Loisel.) P. Delforge]

Antes de se decidirem instalar nalgum local, as orquídeas apresentam um caderno de encargos detalhado: a natureza do solo, o maior ou menor grau de exposição solar e a competição de outras espécies são outras tantas exigências que têm de ter a resposta certa sob pena de elas recusarem a localização proposta. Some-se a isto que o grau de perturbação deve ser mínimo: o uso de herbicidas e as mobilizações frequentes do solo são incompatíveis com a sua permanência. Assim, a presença de orquídeas, além de motivo de regozijo estético, é testemunho de um habitat bem conservado.

Graças às suas minúsculas sementes, facilmente transportadas pelo vento a grandes distâncias, as orquídeas estão continuamente a tentar expandir o seu território. Se não é fácil reunir as condições para uma colonização bem sucedida, as probabilidades aumentam se o âmbito de experimentação for muito vasto. Pode não haver orquídeas em todo o lado, mas não é por falta de tentativas.

Dito isto, não é excessiva surpresa reencontrar na margem sul do Douro, perto de Barca d'Alva, uma boa população da salepeira-grande, orquídea perfumada e robusta, capaz de ultrapassar os 90 cm de altura, que só conhecíamos dos maciços calcários entre Coimbra e Setúbal. É um facto que, nesta migração de 150 Km, ela terá trocado o solo alcalino onde tradicionalmente se acolhe por um substrato ácido; mas, embora os calcários sejam propícios a uma maior variedade e abundância de orquídeas, eles não constituem um requisito essencial para boa parte das nossas orquídeas silvestres.

Foi André Carapeto, um dos mais activos colaboradores do Flora-On, quem em 2009 descobriu a Barlia robertiana nesse retalho do Alto Douro. As plantas que encontrámos no início de Março, talvez umas quarenta, moravam a 5 Km daquelas que Carapeto avistou. E não é essa a única espécie de orquídea que lá ocorre, pois observámos outras, ainda na forma de rosetas, que não pudemos identificar.


rio Tua em Caldas de S. Lourenço / rio Douro em Almendra

A mais recente divisão do país em provincías nunca teve, ao que consta, qualquer relevância administrativa. Contudo, as floras de referência (e, em particular, a Flora Ibérica) usam-na para descrever a distribuição das diversas espécies em Portugal. Só por isso tem algum interesse constatar que as estações de Castelo Melhor e de Almendra, na linha do Douro, calham na província de Trás-os-Montes e não da Beira Alta. O que é de todo objectivo, porém, é que ainda nos faltava ver a Barlia robertiana a norte do Douro, bem no coração de Trás-os-Montes. Um rio, mesmo um rio tão respeitável como o Douro, aqui e ali pachorrentamente engordado pelas muitas barragens, é obstáculo de somenos à propagação de orquídeas. Verdade essa que confirmámos no vale do rio Tua, ao encontrarmos, junto à estação de S. Lourenço, uma população numerosíssima da salepeira-grande, que só não nos encheu de alegria porque sabemos que ela, assim como o caminho de ferro, está condenada ao afogamento a breve prazo.

5 comentários :

Xermán García Romai disse...

São um galego seguidor habitual da vossa página, faz quase não dois anos que encontrei a Barlia robertiana (um só exemplar) na Galiza, sendo a primeira cita da espécie para o território (descontando a do Padre Merino em 1909), um pouco mais ao norte do Douro. Maravilhoso o vosso blog, uma aperta. Xermán García Romai.
http://www.naturezadixital.com/?p=213

bea disse...

Obrigada. Desconhecia esta espécie de orquídea. Elas podem ser bonitas, mas a paisagem não destoa

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelo comentário, Xermán. Excelente descoberta, a da Barlia robertiana na Galiza. Agora é só esperar que ela se multiplique.

jw disse...

o humor, a tristeza, o humor. agradeço, mesmo sem nada para oferecer em troca

Paulo Dias disse...

Boas

Sou um "nabo" em botânica mas interessado em tudo relacionado com natureza. Apesar de não poder garantir tenho quase a certeza de ter observado esta espécie no concelho de Torre de Moncorvo ao longo da linha do Sabor (abandonada) entre o Pocinho e a Rib. da Grincha (antes de chegar a Torre de Moncorvo)em 16Mar2014. Parabéns pelo blog.