23.5.13

Orquídeas pálidas



Ophrys apifera Huds. var. chlorantha

Talvez mais do que outros grupos de plantas, as orquídeas são susceptíveis a mutações genéticas que lhes provocam assinaláveis variações morfológicas ou de coloração. Os indivíduos afectados são conhecidos, pouco carinhosamente, como aberrações; e, embora haja quem os valorize como peças de colecção, um verdadeiro orquidófilo prefere apreciar as plantas bem formadas. Nenhum pastor ficaria feliz se no seu rebanho nascessem regularmente ovelhas com cinco patas e duas cabeças; um só desses fenómenos, garantindo-lhe fama efémera e espaço nos telejornais, seria mais do que suficiente para uma vida inteira.

Embora tecnicamente certas variações de cor também sejam aberrações, elas não são vistas, de um modo geral, como defeitos. Uma orquídea pálida é tão bonita como a sua irmã colorida, e a surpresa de a encontrarmos ainda mais lhe realça a beleza. Nos dois exemplos aqui ilustrados a palidez deve-se à falta de antocianos, que são os pigmentos responsáveis pelos tons vermelhos, violeta e azuis tanto da flor como de outras partes da planta. Não se deve à falta de clorofila: as plantas sem clorofila, a que com justeza poderíamos chamar albinas, são incapazes de fotossíntese e só podem sobreviver se parasitarem outras. Tanto a Ophrys como a Serapias, apesar de anómalas, são mais verdes do que brancas e não têm défice de clorofila.

Uma anomalia genética não deve, em princípio, ter reconhecimento taxonómico, pois os indivíduos mutantes continuam a ser sexualmente compatíveis com os indivíduos normais e a mutação pode não ser herdada pela descendência. No entanto, com a Ophrys apifera as coisas passam-se de modo algo diferente. Como todas as espécies do género Ophrys, o formato das suas flores evoluiu para se assemelhar a algum insecto (uma abelha ou besouro, digamos) e atraí-lo com promessas lúbricas para a (involuntária) tarefa da polinização. Mas o polinizador específico da O. apifera parece ter-se perdido numa curva da estrada evolutiva, obrigando a planta a socorrer-se da auto-polinização. Poucas horas depois de a flor abrir, os sacos de pólen (polínias) caem sobre o labelo e a auto-fecundação está consumada. Os descendentes têm forte tendência a ser cópia exacta do seu único progenitor, e as mutações genéticas adquirem carácter estável. Não admira, pois, que a versão pálida da O. apifera possa, nos poucos lugares onde ocorre, igualar ou suplantar em número a versão normal. Assim sucedeu no lugar onde a vimos, embora a quantidade de orquídeas presentes (umas dez, oito das quais pálidas) não permita conclusões estatisticamente robustas. É portanto desculpável que a esta variante hipocromática da erva-abelha tenha sido dado um nome: Ophrys apifera var. chlorantha. Um botânico purista alegará com razão que tal nome não segue os mandamentos actuais da taxonomia; mas não deixa de designar uma planta claramente reconhecível e capaz de se reproduzir, mesmo que o faça apenas por autogamia.

Muito do que acima se escreveu poderia ser verdade para a Serapias parviflora, já que esta espécie também pratica a auto-fecundação. De facto, as flores abrem-se-lhe apenas por desfastio, pois quando o fazem já foram fecundadas. No entanto, não parece que o fenómeno da palidez seja tão frequente na espécie ou que ela passe de pais para filhos. A única Serapias parviflora hipocromática que alguma vez vimos (a das fotos) estava desacompanhada por outras semelhantes, e foi-nos mostrada por Luísa Borges há uns anos, algures num carvalhal mágico em Sicó.


Serapias parviflora Parl.

1 comentário :

bea disse...

Ora aqui estão uns seres sexualmente autosuficientes. Mas não o serão em outros aspectos. Que em tudo que é vivo se depende de algo que nos é exterior. A primeira orquídea é nitidamente mais bonita. É uma flor muito curiosa esta: bonita, de formas delicadas e meio sensuais e, no entanto, pode ser parasita de outras formas de vida vegetal. Quando vive por si, alimenta-se de tão pouco que me deixa abstacta na beleza que consegue a partir desse mínimo.Vive de um quase nada. E abre uns cachos espantoso de cor e forma.
Um prodígio, as orquídeas. Selvagens ou não.