6.5.13

Rebolar na areia



Cerastium diffusum Pers.

As plantas que vivem nas dunas nunca estão seguras: foge-lhes o chão debaixo dos pés deixando a raiz a descoberto, ou um golpe de vento as faz soterrar num monte de areia. Às vicissitudes naturais juntam-se os estragos do pisoteio, em especial no Verão; e, mais grave ainda, a destruição irreversível causada por construções ao arrepio de todo o bom senso. Sabe-se que as dunas bem formadas são a nossa primeira linha de defesa contra o avanço do mar; e que são as plantas no seu habitat dançarino que, enquanto rebolam de cá para lá e de lá para cá, ajudam a dar um mínimo de estabilidade e permanência ao cordão dunar. Nos lugares onde as dunas foram obliteradas por vivendas, prédios e hotéis, tenta-se deter o estrago das marés com barreiras caríssimas que afinal se revelam frágeis e efémeras. Muito mais barato e eficaz é respeitar as dunas e as plantas que nelas se acolhem: não escolheram uma vida fácil e ainda assim trabalham para a nossa protecção.

Há plantas exclusivamente dunares e outras, mais versáteis, que tanto aparecem à beira-mar como em lugares secos no interior. Esta orelha-de-rato (nome que pode ser aplicado com propriedade a todas as espécies do género Cerastium) integra o segundo grupo, embora seja bem mais frequente em areais costeiros do que noutros habitats. Distingue-se de congéneres muito comuns como o C. fontanum e o C. glomeratum por ser uma planta mais esguia, com pedúnculos florais bem mais compridos, e pelo número de estames em cada flor, que são 10 nas duas últimas espécies e 4 ou 5 no C. diffusum. O C. diffusum tem um carácter marcado pela indecisão, pois cada planta tanto dá flores com 4 pétalas (e 4 sépalas e 4 estames) como outras com 5 (pétalas, sépalas e estames). No quadrante superior esquerdo da 1.ª foto, pode ver-se, com alguma dificuldade, uma flor do tipo quatro.

O Cerastium diffusum é uma planta anual, coberta por pêlos glandulosos, com flores de cerca de 5 mm de diâmetro, exibindo pétalas brancas fendidas nas pontas, em geral mais curtas do que as sépalas. Floresce de Março a Julho e é nativa de grande parte da Europa e ainda da Turquia e do norte de África. A acreditar na Flora Ibérica, de toda a linha costeira do Minho ao Algarve ela só está ausente do litoral alentejano.


3 comentários :

Eduardo disse...

E essas barreiras caríssimas ainda por cima provocam problemas noutros locais a sotamar.

bea disse...

Devíamos, até em nosso benefício, respeitar a flora natural. Se é natural, é também necessária. Um facto que se verifica na natureza é que nada do que nos aparece casual esmola o préstimo. Assim a flora das dunas. Fascinante. Pergunto-me como sobrevivem no meio da areia tais plantas. Mas não só o fazem como seguram o solo e florescem. Enfeitam. Quase fico com vontade de as abraçar. Páram-me.Olho-as com o carinho que dedicamos a quem vive de esforço. E sou basbaque no seio de tão ténue beleza. Há uma praia onde vi há pouco tempo uma variedade razoável. Terei de verificar se a espécie das fotos existe por ali.
Boa Semana.
E obrigada por.

Simone Felic disse...

Muito bom seu texto , na verdade o que se dá muito valor é ao progresso e o amor ao dinheiro. e a natureza paga a conta.

http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/