12.7.13

Amarelos


Barreiro da Faneca, Santa Maria, Açores

Vista do céu, a ilha açoriana de Santa Maria parece ter duas metades: a da direita verdinha e nublosa como a vizinha São Miguel, com prados a perder de vista junto ao mar; e a da esquerda, plana, árida, quase desértica, cor de trigo seco - e é esta que, como um aviso, recebe o visitante que ali chega de avião. A beira-mar é um amontoado de calhaus cinzentos na base de escarpas muito altas e, com raras excepções como a praia Formosa a sul, quase sem areal. Uma vez dentro da ilha, os contrastes acentuam-se. Num lugar onde a maior distância em linha recta ronda os 17 quilómetros, há montanhas cobertas de vinhas, florestas muito húmidas de criptomérias onde moram fetos raros e orquídeas, pastos verdinhos salpicados de vacas brancas que, rodeadas de filhotes, nos olham com hostilidade, um pico escondido pelas nuvens, falésias com uma vegetação notável que parece sobreviver apenas de espuma e pedra, e, no norte, uma paisagem marciana com sedimentos cor-de-cobre de origem vulcânica, mais recentes do que o resto da ilha, onde nenhuma planta quis ainda entrar e nos sentimos fora da Terra.


Maia, Santa Maria, Açores

Passada esta impressão bizarra, começamos a dar atenção aos taludes. Junto a uma cachoeira de dimensões bíblicas, notámos uns pontinhos dourados e, mais longe, sob os salpicos da água, umas manchas amarelas que pareciam de planta suculenta. Dias depois, já a reconhecíamos em muitos muros musgosos e fendas de rochas noutros locais da ilha. É uma erva anual que atinge os 15 cm de altura, de folhas moles, pecioladas, penugentas e flores em cimeira frouxa com pétalas amarelas brilhantes. Só ocorre na Madeira e em Santa Maria.



Aichryson villosum (Aiton) Webb & Berthel. Aichryson santamariensis M. Moura, Carine & M. Seq.

Nota. No final de 2015, esta espécie mudou de nome graças ao artigo Aichryson santamariensis (Crassulaceae): a new species endemic to Santa Maria in the Azores (Phytotaxa 234(1), Novembro de 2015)

As plantas do género Aichrysum são habitantes naturais da floresta laurissilva, apreciando o solo que ela nutre. Na ilha da Madeira há mais duas espécies, endemismos madeirenses pouco frequentes: o A. divaricatum (Ait.) Praeger, com cerca de 60 cm, folhas e caules avermelhados mas flores igualmente amarelas, que se pode encontrar em escarpas rochosas e em troncos de árvores; e o A. dumosum (Lowe) Praeger, extremamente raro, que só existe no sul da Madeira, de flores amarelas com nervura média avermelhada. Em bosques e locais rochosos sombrios da serra de Sintra e de Colares, e, tanto quanto se sabe, só ali, naturalizou-se uma outra espécie, o A. laxum, endemismo das Canárias com pétalas de cor amarelo-pálido.

4 comentários :

Manuel Antonio Aragón Medina disse...

Vuestro blog es todo un lujo para los amantes de la Botánica.
Mi más sincera enhorabuena por todo.
Saludos desde Chiclana.

bea disse...

Desconheço a origem do meu gosto pelos Açores. É estranho ohaver gosto sem ter tido a experiência da paisagem, do chão, dos pássaros e dos passos.Gostar de fotos e filmes - que também são fotos - também existe.

São lindas as vossas fotos. E tenho em casa algumas que não desmerecem. Obrigada, não conhecia nada dessa ilha que não é das mais visitadas.
BFS

Maria Carvalho disse...

Obrigada, Manuel, pelas boas palavras.

bea: Há quem receie experimentar os Açores, como quem teme a sedução sem retorno.

bettips disse...

E quando juntam as pequenas coisas que recolhem em imagens, ao habitat maravilhoso em que acontecem... é um luxo para nós a vossa partilha!
Pouco conheço (só S. Miguel) mas conservo desde pequena o fascínio por um velho continente que deixou as suas jóias à superfície.
Obg
Abçs