9.11.13

Crista de espinhos



Picnomon acarna (L.) Cass.

Não raro temos a impressão de que não fomos tão favorecidos pela natureza como, digamos, os pássaros ou os gatos. Contudo, em vez de asas ou sete vidas, recebemos um dote que, não sendo de uso tão simples, é igualmente poderoso: a imaginação. É o nosso trunfo, que nos permite antever desfechos do que ainda não aconteceu, e a raiz do talento de quem inventa. Enquanto a sua utilização não está devidamente apurada, os progenitores impedem, num gesto rápido, que o rebento se abeire perigosamente de uma escada, atravesse a estrada sem atenção, mergulhe num riacho sem pé ou toque num espinho de cardo. Chega-se a estranhar este desvelo porque a natureza, a que de algum modo também atribuimos uma faceta maternal, não nos ensina a agir assim. Ela, que não é meiga connosco, deixa-nos entregues ao acaso e ao medo, ou a uma aprendizagem por nossa conta e risco, punindo-nos tanto a ousadia, e inevitáveis enganos, como a hesitação em demasia.

Neste cenário sem certezas, uma planta espinhosa como a das fotos desperta um retraimento espontâneo e um recuo imediato, precisamente os mesmos que protegem a planta de predadores. Por isso, primeiro desviámos o olhar; segundos depois reparámos que não tinha só picos: havia também um leve algodão a cobrir as folhas, que têm consistência coriácea, e, no topo, umas inflorescências corimbosas, de cor rosa-púrpura, defendidas por inúmeras brácteas; de seguida, vimos que o caule tinha asas. Rendidos, libertos desse grilhão que é a cautela instintiva, emendámos a mão e imaginámos que seria uma herbácea rara e especial.

E é. A Flora Ibérica indica, em rascunho, que esta planta (a que Lineu chamou Carduus acarna e os espanhóis tratam por cardo-branco, chicote-de-cristos, crista-de-galo ou espinho-de-caçar-pássaros) é anual e ocorre no Alto Alentejo e no Algarve. Este exemplar é, porém, de Trás-os-Montes, de um torrão junto ao afloramento calcário de Castro Vicente, perto do rio Sabor. E, de facto, a Terra Quente e o nordeste ultrabásico são locais referenciados por Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, para este género monoespecífico. A floração dá-se entre Junho e Agosto; foi sorte nossa tê-la visto no final de Setembro ainda em flor e já com frutos. O tal acaso que também é servo da natureza.


Castro Vicente: cabeço de Santo Cristo e amendoal

3 comentários :

bea disse...

Há lugares que conheço onde os cardos são uma praga. Não os cardos em flor, que até têm a sua beleza. Mas os secos. São muito susceptíveis, confundem-se com os pastos rasos do chão e qualquer das suas folhas caídas tem espinhos mais finos que agulhas de acunpuntura e espetam em tudo que ouse tocar-lhes.

Achei o texto espectacular. Parabéns.

Paulo disse...

Vi-o exactamente no mesmo local!

Paulo Araújo disse...

Também aparece (e até em maior quantidade) nas minas de Santo Adrião, que é igualmente uma zona calcária.