25.11.13

Verdes cabelos de água




Groenlandia densa (L.) Fourr.

A serra de São Mamede é um enclave nortenho às portas do Alentejo. Em vez das infinitas estradas rectilíneas, onde os condutores adormecem de tédio, temos curvas e contra-curvas e um sobe-e-desce emocionante à moda do Marão ou das boas estradas minhotas (boas para o enjoo, dirão aqueles que nunca estão contentes). Os grandes espaços abertos cedem lugar a um arvoredo cerrado, e só a predominância dos sobreiros e carvalhos-negrais denuncia a latitude meridional. Os rios quase nada têm a mudar para serem gémeos daqueles que correm nas serras nortenhas: acompanham-nos as mesmas galerias de salgueiros, freixos e amieiros, é a mesma vegetação herbácea que reveste as margens. Saudamos o rio Sever, que nunca tínhamos visto, como quem reencontra um velho conhecido, lamentando que na Portagem o tenham convertido, por uma centena de metros, numa piscina de betão. Mas o rio sobreviveu à afronta: antes e depois da placa de cimento flutuam cabelos verdes que contrastam com o azul transparente das águas.

As plantas anfíbias ou de águas pouco profundas formam um simbólico elo de transição entre os meios aquático e terrestre, recordando-nos o organismo primevo que emergiu do mar para povoar os continentes. Com os estragos que os habitats aquáticos ou paludosos têm sofrido, elas constituem, no seu conjunto, a parte mais ameaçada da nossa flora. Plantas que há 20 ou 30 anos eram comuns, como algumas do género Potamogeton, são hoje de ocorrência esporádica. Qualquer verdura aquática merece por isso a nossa melhor atenção: se não se tratar de uma infestante indesejável (também as há), ela funciona ao mesmo tempo como atractivo botânico e como certificado de limpidez das águas. Que, no caso do rio Sever, é inteiramente merecido.

A serralha-de-água, embora seja muito semelhante a alguns Potamogeton (em especial ao P. perfoliatus), e esteja incluída na mesma família botânica, pertence ao género mono-específico Groenlandia, um nome com ressonâncias nórdicas e friorentas que na verdade homenageia o botânico alemão Johannes Groenland (1824-1891). É uma planta vivaz rizomatosa, habitante de rios e lagoas, de que só as espigas florais assomam ocasionalmente fora da água. As folhas, de um verde claro e translúcido, medem até 4 cm de comprimento; são estreitas, sésseis e opostas, separadas por entrenós de não mais que 2,5 cm.

Em Portugal há registos históricos da Groenlandia densa em quase todas as províncias do continente: a Flora Ibérica só deixa de fora o Algarve, a Beira Alta e o Douro Litoral. No entanto, a sua distribuição real no nosso país deve ficar muito aquém desse retrato optimista. Globalmente, a sobrevivência da espécie não parece suscitar preocupações, pois ela é conhecida originalmente de três continentes (Europa, Ásia e África) e teve artes de migrar para mais dois (América do Norte e Austrália).


Portagem, Marvão. ponte sobre o rio Sever

2 comentários :

bea disse...

O que os desentendidos conseguem não ver! Estive em Marvão e não dei pela ponte, pelo rio... ainda assim, gostei bastante.
A foto da ponte está um espectáculo. Parabéns.

Anónimo disse...

Só estes lugares
nos afastam da feiura das gentes que cá mandam.
Abç da bettips