14.12.13

Lótus açucarado



Glinus lotoides L.

Quando, dominados pela preguiça, demoramos a largar o sono ou a cama, é raro que não nos censuremos por cedermos à tentação, correndo depois esbaforidos para recuperar do atraso ou aliviar o remorso, eliminando desse modo o efeito prazeroso, que nos culpabiliza, de um benéfico descanso adicional. Dessas angústias não sofre esta planta que, no seu ano de vida, se entrega a uma existência refastelada numa margem arenosa de rio, onde se deita confortavelmente sem necessidade de justificar a mandriice, formando rosetas ou esticando-se até uns 60 centímetros de caule. As folhas, elípticas, peludinhas (tanto que parecem cobertas por um veludo cinza), de margem inteira e base estreita, lembram colheres de sopa de um faqueiro mono-específico. Os fascículos de cerca de uma dezena de flores (como nos livros, isto significa que se agrupam num arranjo firme e muito justo) são axilares, mas as flores, sem pétalas, são tão pequeninas e de cor tão modesta que mal se percebem, ainda que, como numa delicada miniatura, lá caibam 12 estames e 5 estigmas. As cápsulas têm cinco gomos cobertos de sementes reniformes com poucos milímetros de diâmetro, estriadas, de cor castanho-avermelhado, que exibem um estranho anel, talvez sobra de outro orgão da flor (tão minúscula e cheia), cuja função na semente desconhecemos.

O título, na falta de um nome vernáculo em português, tem origem na tradução literal da designação comum usada em língua inglesa, lotus sweetjuice. Infelizmente não trincámos uma folha (ou uma flor) para provar o nome. A planta é nativa no sul da Europa, parte da região mediterrânica e dos trópicos, ocorrendo na metade sul da Península Ibérica. Em Portugal, há registo da sua presença nas bacias do Tejo e do Guadiana.


Baldio do rio Caia, Arronches

Vimos estes exemplares, em Outubro, numa porção magrinha do rio do Guadiana, perto de uma magnífica população de Narcissus serotinus e de outra discreta mas também abundante de Ophioglossum lusitanicum. Em Novembro, revimo-la nas margens do rio Caia, um afluente do Guadiana que delimita uma secção da fronteira com Espanha (nunca reconhecida deste lado por causa da questão de Olivença).

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