31.1.13

Garça da montanha


Geranium pyrenaicum Burm. f. subsp. lusitanicum (Samp.) S. Ortiz

Nome comum: Não tem, mas pode ser bico-de-garça, inspirado pelo nome inglês Hedgerow crane's-bill
Ecologia: Prados e bosques de altitude
Distribuição global: Endemismo ibérico
Distribuição em Portugal: Os registos parecem indicar que é planta rara no sul, estando confirmada a sua presença no noroeste e nas serras da Freita, Estrela e São Mamede
Data e local das fotos: Junho de 2010, Aveção do Cabo (Campeã, Vila Real)
Informações adicionais: Trata-se de uma herbácea perene com talos erectos penugentos de 20 a 70 cm de altura. As folhas são recortadas mas o contorno das basais é arredondado. As flores têm dez estames; as pétalas, de cor lilás, têm cerca de 1 cm de comprimento, uma incisão até metade e um penacho de cada lado da base. [Quando, na Primavera, voltarmos ao Marão, teremos fotos destes detalhes para vos mostrar.] Segundo a Flora Ibérica, a espécie G. pyrenaicum abriga duas subespécies, a G. pyrenaicum Burm. f. subsp. pyrenaicum, comum em Espanha e com uma vasta área de distribuição mas ausente por cá, e a G. pyrenaicum Burm. f. subsp. lusitanicum (Samp.) S. Ortiz, a que encontramos em Portugal.

28.1.13

De pólen azul



Geranium columbinum L.

Nome comum: Bico-de-pomba-maior
Ecologia: Erva ruderal, surge em prados, bermas de caminhos, baldios, campos cultivados e bosques
Distribuição global: Europa, excepto o extremo norte, região mediterrânica e Médio Oriente, sudoeste da Ásia e noroeste de África.
Distribuição em Portugal: Segundo a Flora Ibérica, há registo da sua presença no Alto Alentejo e Algarve, Beiras Alta, Baixa e Litoral, Estremadura, Douro Litoral e Minho. Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, considera-o raro a norte.
Época de floração: Abril a Setembro
Data e local das fotos: Maio de 2012, Macedo de Cavaleiros
Informações adicionais: Esta é uma herbácea anual peludinha com caules frágeis que podem atingir os 60 cm de altura. As folhas palmadas, de contorno orbicular, são recortadas quase até à base em segmentos que, por sua vez, parecem trifurcados. Cada pedúnculo, bastante maior do que o pé das folhas que saem do mesmo nó, é encimado por duas flores com pétalas roxas, anteras azuladas e estigmas cor de rosa. Tem parecença acentuada com o G. dissectum, mas neste último, que é densamente pubescente, as hastes florais são notoriamente mais curtas e as sépalas têm uma pragana [= filamento aguçado na ponta da sépala como os que se vêem na última foto] menor.

25.1.13

Reviver em Cádiz





Christella dentata (Forssk.) Brownsey & Jermy [sinónimo: Cyclosorus dentatus (Forssk.) Ching]

Qual a importância de preservar populações naturais de plantas amplamente cultivadas ou que subsistem livres de ameaças noutras paragens? A primeira resposta é de ordem quase emocional. Gostamos de acreditar que aqui e ali, mesmo no mais civilizado dos continentes, existem retalhos de natureza mais ou menos intocados, em que plantas e animais se mantiveram por milénios, indiferentes ao cerco que lhes foi montado pela espécie humana. A erradicação local de espécies é um rombo nessa visão ingénua, dir-se-ia desesperadamente idílica, da imutabilidade da natureza. Alguma da mais valorizada biodiversidade europeia está ligada a práticas humanas ancestrais de agricultura, pastoreio e silvicultura. Um lameiro, que é um habitat artificial, pode ser mais rico em espécies vegetais do que um bosque de velhos carvalhos. Não será então para preservar a "natureza no seu estado puro", como dizem os maus textos de promoção turística, que insistimos na sobrevivência das populações silvestres ameaçadas. Mais correcto será falar da preservação da diversidade genética. As plantas cultivadas representam, em geral, apenas uma fracção ínfima do património genético de cada espécie. Há casos em que todas essas plantas são clones umas das outras, tornando-se altamente susceptíveis a pragas e doenças; para descobrir novas variedades mais resistentes, é imprescindível recorrer às populações espontâneas. Outro aspecto da diversidade genética é o de, por exemplo, um carvalho-roble (Quercus robur) em Portugal não ser idêntico às árvores da mesma espécie que crescem noutros países da Europa, ou até noutros pontos do país. Para evitar a poluição genética, as campanhas de reflorestação de espaços naturais devem sempre usar árvores obtidas a partir das que já existem no local.

A Christella dentata, que hoje ocupa o escaparate, foi fotografada no Jardim Botânico do Porto, onde vegeta, plena de vigor, em lugar umbroso continuamente atroado pelo trânsito da VCI. Também há notícia do seu cultivo na Estufa Fria, em Lisboa. É um bonito feto que só tangencialmente faz parte da flora europeia: existe ou existia apenas em Creta, na Galiza e na Andaluzia. Na Galiza já se extinguiu; e na Andaluzia (ou mais precisamente no Parque Natural dos Sobreirais [= Alcornales], em Cádiz) quase tinha o mesmo destino, mas houve gente perspicaz e dedicada que o fez regressar à vida (história completa aqui). No resto do planeta a sua sorte é bem diferente, pois encontra-se espalhado por regiões tropicais ou sub-tropicais de mais quatro continentes: África (incluindo Madagáscar), Ásia (Índia, China e Japão), Oceânia (Austrália e Nova Zelândia) e América (onde está naturalizado na faixa que vai do sudoeste dos EUA ao norte da Argentina). Em vários pontos do globo a desmatação das florestas indígenas criou condições para que a Christella dentata seja hoje mais abundante que nunca. Na Madeira e nos Açores, onde também ocorre, há dúvidas sobre se a sua presença é espontânea ou se se deve ao cultivo em jardins. Rui Teles Palhinha, em artigo de 1943 sobre os Pteridófitos do arquipélago dos Açores, assinala que a presença deste feto (a que o autor chama Dryopteris dentata) em quase todas as ilhas do arquipélago (a excepção é o Corvo) o leva a admitir que ele não seja introduzido. Desde então não parece ter sido feito nenhum estudo que esclarecesse o assunto. Hanno Schäfer, no seu Flora of the Azores - A Field Guide (2.ª edição, 2005), opina que nos Açores o feto é exótico; mas, na Checklist da Flora de Portugal, ele é considerado nativo tanto da Madeira como dos Açores.

Como se adivinha pelo facto de os dois já terem integrado o mesmo género, a Christella dentata, que tem frondes que podem chegar a um metro de comprimento, apresenta algumas semelhanças com o feto-macho (Dryopteris filix-mas ou D. affinis). A diferença mais evidente é que, ao contrário do que sucede nesse feto (conferir aqui), na C. dentata duas pínulas contíguas estão separadas apenas até cerca de metade da profundidade; além disso, a venação tem um desenho peculiar, ligando-se sem quebras de uma pínula à seguinte (ver foto 6). E a C. dentata tem um aspecto felpudo que o feto-macho não compartilha.

Em jeito de conclusão, diga-se que o resgate in extremis da Christella dentata andaluza foi um feito conservacionista da maior importância, uma daquelas coisas que nos alimentam a esperança. Em contrapartida, o cultivo da espécie em jardins botânicos ou em jardins particulares não tem qualquer significado ou impacto na conservação de uma espécie que, globalmente, atravessa um período próspero. Se não tivesse sido possível recuperar a população de Cádiz, ninguém se lembraria de lá introduzir plantas cultivadas de outra origem. De modo semelhante, ter um azevinho ou um teixo no jardim não resolve nem alivia o problema (grave no caso do teixo) da conservação dessas espécies na natureza. Apenas satisfaz o nosso legítimo desejo de nos rodearmos de coisas belas.

21.1.13

Tempo de víboras



Echium rosulatum Lange

Dos dois nomes comuns registados para esta planta, marcavala-preta e cardo-das-víboras, é difícil dizer qual o mais enigmático. A busca por uma marcavala-branca ou por uma marcavala-sem-cor-especial revelou-se infrutífera. E por que se há-de baptizar como cardo uma planta sem espinhos e sem qualquer semelhança com os cardos genuínos? Já para não falar do susto que é associá-la à víbora, o único réptil realmente perigoso da nossa fauna. (Há, porém, quem não tenha medo dela, e até lhe peça, quando a encontra, que se enrole mais languidamente para a fotografia. Dá outra segurança, aos medrosos como nós, passear na companhia de gente destemida.)

Há uma dificuldade adicional que nos impede de acreditar no carácter genuinamente popular destes nomes vernáculos. Só atendendo a certas miudezas morfológicas é possível distinguir o Echium rosulatum do muito comum E. plantagineum. Sendo no nosso país o conhecimento popular das plantas superficial, seria de esperar que duas quase iguais fossem chamadas pelo mesmo nome. Como aceitar que o povo chame marcavala ao E. rosulatum e soagem ao E. plantagineum, sem nunca hesitar na distinção?

A menos, como é óbvio, que um tal representante do povo seja nosso leitor e assimile a lição deste texto. Tal como nos idos do PREC, também estamos em campanha pela educação popular; mas, em vez de alfabetizarmos, ensinamos botânica. O E. plantagineum, que pinta de roxo os campos primaveris, tem flores maiores, de corola mais aberta que as do seu congénere, que em regra floresce mais tarde. Além do mais, a superfície externa da corola no E. plantagineum é quase glabra, sendo claramente híspida no E. rosulatum (confira na 2.ª foto). Há ainda o número de estames salientes quando se observa a flor de perfil: três ou quatro no E. rosulatum, não mais que dois no E. plantagineum. Finalmente, as folhas do E. rosulatum são mais largas e - pelo menos as caulinares - parecem truncadas na base.

Enquanto que o E. plantagineum se distribui pelo Europa, Ásia e norte de África, o E. rosulatum tem a virtude de só existir na metade oeste da Península Ibérica; e, estando referenciado em quase todas as províncias portuguesas (o Ribatejo é a excepção), é mais frequente no norte. Além da subespécie típica, os botânicos distinguem ainda a subespécie davaei, endemismo português exclusivo das ilhas Berlengas.

18.1.13

Alerta azul





Iris planifolia (Mill.) Fiori & Paol. [sinónimo: Juno planifolia (Mill.) Asch.]

O dia prometia chuva com rajadas de vento, da que encharca montanheiros e pode prejudicar as fotos, mas como a floração desta planta atinge o auge no início do Inverno tivemos de desrespeitar o alerta amarelo. Na verdade, esteve uma tarde amena com poucas pingas, e afortunadamente o solo calcário ou argiloso, até pedregoso, que este lírio prefere é poroso e não forma os charcos lamacentos que noutros lugares nos costumam dificultar a passagem.

A flor lembra o lírio-do-Gerês, com certas diferenças: o lírio-azul-de-Inverno é maior, tem uma haste floral mais baixinha e as tépalas internas estão viradas para baixo; as folhas são largas e achatadas, com face superior de cor verde brilhante, margens onduladas e um arranjo que faz lembrar a planta do milho; e é muito mais fácil de encontrar.

A primeira população que avistámos estava no talude à beira de uma estrada de trânsito rápido a caminho de Penela. Pelo canto do olho apercebemo-nos de umas manchas roxas e, apesar do amuo dos condutores que nos seguiam, houve que parar na berma, fotografar calmamente e confirmar que as flores são perfumadas. O segundo local (primeira e segunda fotos) onde havia registo desta planta, num vale com prados entre os montes gémeos Jerumelo e Germanelo, superou largamente as expectativas (talvez porque o Verão foi relativamente seco e o Inverno continua chuvoso).

O lírio-de-amor-perfeito é planta vivaz, com um bolbo tunicado e raízes tuberosas, que hiberna no Verão. Parece que cada flor tem nove pétalas, mas não é bem assim. Há três tépalas externas azuis (por vezes brancas), que exibem uma protuberância central amarela e um zebrado roxo; e mais três internas, de um azul pálido, menos enfeitadas e muito mais pequenas, que estão patentes na base da flor. Finalmente o estilete termina com três cristas bífidas que parecem mais três pétalas, arqueadas sobre os segmentos externos e quase do tamanho destes, na base dos quais se situam os estigmas. Será que o leitor consegue localizar nas fotos todos estes detalhes? Não havia ainda plantas com frutos, mas pode conhecê-los aqui. Como vê, as sementes, rugosas como limões velhos, nascem em cápsulas esbranquiçadas de textura papirácea que se adivinha nas brácteas da haste floral.

A Iris planifolia mudou recentemente de género: não estranhando um Juno que floresce em Janeiro, os taxonomistas chamam-lhe agora Juno planifolia. É a única espécie, entre as cerca de sessenta do género, que é nativa da Europa (ocorrendo também na região mediterrânica, incluindo o norte de África). Em Portugal continental distribui-se pelo Alto e Baixo Alentejo, Algarve e Beira Litoral.

14.1.13

Vénus ao toucador



Scandix pecten-veneris L.

Confesso que não fiz busca aturada, e nem sequer tive o cuidado de consultar dicionários botânicos. É sempre desagradável quando a realidade desmente algumas das nossas construções mentais favoritas. Além de sermos despojados de possíveis tópicos de conversa (pois um resquício de honestidade nos impede de propagar aquilo que sabemos ser falso), neste caso particular ficava o texto sem aquela assertividade que compensa o pouco saber pelo muito atrevimento.

Esta planta põe o selo de indiscutível na teoria que a avenca já insinuava: Vénus, a deusa romana do amor, é a única representante autorizada da feminilidade em taxonomia botânica. Ou da feminilidade do pescoço para cima. Ou pelo menos da que diz respeito às artes do toucador. Lineu, não satisfeito em enfeitar Vénus com uma peruca de negros fios de avenca, ainda lhe ofertou um pente tirado do mesmo grande armazém da natureza. É pouco comparado com o arsenal de tratamentos hoje disponível nos salões de beleza, mas os tempos eram outros e Vénus, como todos os deuses e deusas, usaria os seus poderes sobrenaturais para ultrapassar as limitações dos artefactos rústicos.

Impõe-se um interlúdio taxonómico-linguístico. A avenca que é espontânea em Portugal e na Europa (há espécies tropicais à venda em floristas) tem o nome científico, dado por Lineu, de Adiantum capillus-veneris, onde o capillus-veneris significa (quem diria?) "cabelos de Vénus". Na pequena umbelífera que hoje nos ocupa, e que fora do Olimpo é conhecida como agulha-de-pastor ou erva-agulheira, viu Lineu o "pente de Vénus" (pecten-veneris). São os frutos muito compridos e rígidos, filtrados pela imaginação, que explicam tanto o pente como as agulhas. Claro que esse "muito comprido" (uns 6 a 8 cm) deve atender às dimensões gerais de uma planta de porte modesto, em geral aquém dos 40 cm de altura.

A agulha-de-pastor, que é nativa da Europa, Ásia e norte de África, e que em Portugal só parece estar ausente do quadrante noroeste, é uma planta anual de campos agrícolas e baldios, em declínio como tantas outras por causa do uso generalizado de pesticidas.

11.1.13

Verónica das alturas



Veronica nevadensis (Pau) Pau

Nome (que poderia ser) vulgar: verónica-das-neves
Ecologia: solos húmidos mas ácidos, em frestas de rocha, turfeiras, lameiros de altitude e margens de riachos
Distribuição global: algumas serras da Península Ibérica, entre os 1300 e os 3100 metros
Distribuição em Portugal: Beira Alta
Época de floração: Verão
Data e local das fotos: Junho de 2012, serra da Estrela
Informações adicionais: endemismo ibérico; planta perene que exibe alguma variação no tamanho, hábito e tonalidade azul das flores; o nome científico foi atribuído, em 1906 (quando a designou Veronica repens DC. var. nevadensis) e em 1926, por Carlos Pau (1857-1937), botânico espanhol com uma vasta obra sobre a flora ibérica e mediterrânica; também já foi Veronica serpyllifolia subsp. humifusa

8.1.13

Daqui houve nome

apresentação do livro
Lusitanica
de Victor Amador
Um livro curioso, graficamente cuidado, que inventaria centenas de espécies ou subespécies, sobretudo da flora, cujo nome científico contém alguma das palavras lusitanica, lusitanicum, lusitanicus, lusitaniae, lusitanicae, lusitana, lusitanops, lusitanopsis, lusitanus, lusitaniensis ou lusitanosaurus
sábado, 19 de Janeiro de 2013, às 15h00
sede da Campo Aberto
(rua de Sta Catarina, 730-2.º, Porto)

7.1.13

Feto fino



Cystopteris dickieana R. Sim

Embora também seja nosso hábito determo-nos junto a fontes e regatos para matar a sede com água sem desinfectante, o mais das vezes só queremos observar as plantas que vicejam sob tão copiosa rega. Uma velha pia de granito com um fio de água a escorrer é um viveiro de especialidades que só naquele nicho poderiam surgir, e não uns metros ao lado. Que artes mágicas foram as delas para que as sementes pioneiras caíssem e germinassem no sítio exacto? Aqui é preciso pôr travão na retórica, porque nem tudo quanto é verde nasce de semente. Os fetos, como é sabido, reproduzem-se por esporos. E mesmo certas plantas com flor têm recursos para se propagarem vegetativamente quando falha a sementeira: o trevo-azedo (Oxalis pes-caprae), sul-africano de origem, é dos piores invasores vegetais em Portugal apesar de não produzir sementes no nosso clima.

Falávamos porém de fontes e de fetos. Muitos fetos (nem todos) têm uma afinidade especial com a água, e por isso o ditado «não há fonte sem feto» teria plena justificação para existir. Entre os que se encontram ocasionalmente nestes locais contam-se os do género Cystopteris, com folhas bipinadas de cerca de 30 cm de comprimento, por vezes bastante menores, dispostas em tufos. A um olhar menos treinado o recorte das frondes pode levar à confusão com algum Asplenium. No entanto, as folhas do Cystopteris são finas e frágeis, de um verde pálido, em contraste com as folhas escuras e semi-coriáceas do A. billotii e do A. onopteris. E há outra diferença importante: no Cystopteris os esporângios estão protegidos por indúsios lanceolados, enquanto que no Asplenium os indúsios são lineares (sem o auxílio de lupa, ou em fotos de fraca nitidez, notar-se-á a diferença entre um ponto e um travessão).

Seria pedante propormos ao leitor que apontasse quais as diferenças entre as duas espécies de Cystopteris que hoje mostramos. O género é reconhecidamente problemático, tanto pela grande variação dentro de cada espécie enquanto tal, como pela difícil distinção entre elas. Há quem defenda que sob o nome de Cystopteris dickieana se agrupam na verdade várias espécies, divergindo tanto na morfologia como no número cromossomático; e o mesmo sucederia, embora não na Europa, com o Cystopteris viridula. Na ala oposta do espectro de opiniões, outros sustentam que C. dickieana e C. viridula são sinónimos de C. fragilis, o que diminuiria de três para um o número de espécies do género presentes em Portugal.

Aceitando a doutrina das três espécies, a mais comum no nosso país é C. viridula, presente em toda a metade norte do território continental e também nos Açores e Madeira. O C. dickieana, com preferência por lugares mais elevados, ocorre pontualmente no interior norte e centro. Uma inspecção do verso das frondes (fotos 3 e 5) revela uma das diferenças entre os dois: no C. dickieana a venação termina nos bicos das pínulas, enquanto que no C. viridula termina nas reentrâncias. Mas a distinção mais óbvia é geográfica: o C. dickieana foi fotografado na serra da Estrela, perto do Covão d'Ametade, a uma altitude inacessível ao seu congénere.


Cystopteris viridula (Desv.) Desv. [sinónimo: Cystopteris diaphana (Bory) Blasdell]

4.1.13

Erva salsicheira



Dorycnium rectum (L.) Ser.

O título faz referência às vagens desta leguminosa perene que, quando maduras, exibem a cor e o formato típicos das salsichas, mas cujo interior, com não mais de dez pequenas sementes, é essencialmente oco. Porém, a tradição, a despeito da reputação daninha das salsichas, atribui a esta planta virtudes medicinais contra males do estômago.

É quase um arbusto (pode chegar aos 2 metros de altura), com ramos ascendentes, hábito erecto (o que justifica o epíteto específico rectum) e folhas com cinco folíolos, dois dos quais disfarçados de estípulas. As flores nascem em capítulos umbeliformes, com 20 a 40 flores, e têm um cálice campanulado de cor púrpura e uma corola rosada em forma de estandarte com duas asas, traços de família. É hirsuta, até nas margens das folhas, e ripícola. Os exemplares das fotos (de fins de Julho) são das margens de uma lagoa em Mira que é também um juncal.

É nativa da região mediterrânica, Península Ibérica e ilhas Baleares. A Flora Ibérica dá nota da sua presença em Portugal em algumas, poucas, províncias do centro e sul, mas há registo da sua ocorrência também no Minho. Das cinco espécies do género Dorycnium que se conhecem na Penísnula Ibérica, por cá só se avistaram até ao momento mais duas, essas com preferência por sítios secos: a D. hirsutum (L.) Ser., com flores maiores, e a D. pentaphyllum Scop., com flores brancas.