28.2.13

Chícharo peludo


Lathyrus hirsutus L.

Nome comum: Cizirão-de-pêlo-eriçado
Ecologia:Terrenos incultos, margens de ribeiros, relvados húmidos
Distribuição global: Europa (excepto o norte), parte da Ásia, norte de África; ocorre também nos Açores, mas não há consenso sobre o seu carácter autóctone nas ilhas
Distribuição em Portugal: No continente, sul e litoral centro; nos Açores, Terceira e Faial
Época de floração: Maio a Setembro
Data e local das fotos: Junho de 2012, Golegã
Informações adicionais: Erva anual ou bienal. Cada folha é um par de folíolos oblongos frequentemente rematados por uma gavinha e com umas manchinhas amarelas (vêem-se na terceira foto) que na verdade são glândulas. As estípulas são pequeninas mas mais evidentes do que as asas nos pecíolos. As inflorescências, axilares, têm pé alto (mais elevado do que a folha correspondente) e, em geral, uma a quatro flores de corolas azuis ou arroxeadas. Toda a planta se cobre de penugem quando nova, tornando-se mais calva com a idade, detalhe talvez apreciado pelo gado que a consome como forragem. As vagens são castanhas, contendo uma meia dúzia de sementes esféricas escuras.

25.2.13

Flora e fauna dos baldios urbanos




Hirschfeldia incana (L.) Lagr.-Foss.

Quem visita andares-modelo em novas urbanizações começa por dirigir-se a uma barraca onde, além do vendedor sentado à secretária, encontra uma maquete do projecto sobre uma mesa forrada a verde. No lugar do estaleiro esburacado e poeirento, semeado de entulhos, promete a maquete que há-de nascer um jardim; no qual, a julgar pelas figurinhas humanas que a povoam, hão-de passear famílias elegantes e louras. O possível comprador, que não é louro mas é casado com uma mulher que por vezes o é, que ainda não tem filhos mas prevê que, quando os tiver, eles não serão louros enquanto não frequentarem cabeleireiros, sabe que a realidade nunca estará à altura da maquete. E não hão-de ser apenas a cor do cabelo, o tom da pele ou a indumentária dos futuros moradores a desmentirem a profecia. O mais provável é que nunca venha a existir jardim, mas apenas um relvado que em pouco tempo cairá no desmazelo; ou nem isso, e os montes de entulho eternizar-se-ão na paisagem quotidiana. O promotor não terá desistido de fazer o jardim, mas a urbanização previa mais quatro ou cinco prédios além dos dois que já começam a ser habitados, e a crise obriga a adiar indefinidamente a sua construção. O jardim, toque final de requinte que daria coerência a todo o projecto, não pode ser executado aos pedacinhos.

Ainda assim, os ocupantes da urbanização não deixarão de ter flores à porta de casa. Elas serão até em maior quantidade e variedade do que seriam se, em vez do entulho, a janela da sala abrisse para um relvado minimalista. Há um sem-número de plantas, ditas ruderais, que se especializaram em habitats degradados e provisórios. Algumas, como a Hirschfeldia incana, são desgrenhadas e não têm pinta para concursos de beleza; outras, como os gerânios e as papoilas, só não se igualam às mais delicadas flores de jardim porque um preconceito de classe as impede de serem apreciadas como merecem. E, como aquilo não é natureza mas uma caricatura que o desleixo ajudou a criar, o efeito geral do entulho em flor não é de uma simetria colorida e repousante; é de uma luta sem quartel pela sobrevivência.

À semelhança dos gatos que fazem dos baldios urbanos a sua casa, as plantas sem eira nem beira que lá moram não têm nome. Na verdade, certos gatos menos esquivos acabam por ter muitos nomes, cada um deles atribuído por alguma pessoa das suas relações que ignora todos os demais. E a Hirschfeldia incana, além de ter um nome popular e verdadeiro, ineixa, tem também um inacreditável, hirsféldia-de-pêlo-branco. É improvável, porém, que quem veja esta planta nas traseiras do seu prédio conheça estes nomes ou se dê ao trabalho de inventar algum para seu uso.

Da família dos rabanetes e das couves, como aliás recorda o nome castelhano rabaniza amarilla, não consta que a hirsféldia-de-pêlo-branco [risos abafados] seja vulgarmente usada para alimentação humana, embora tenha folhas comestíveis. É uma planta bienal com floração primaveril ou estival, e com hastes que ultrapassam um metro de altura. Distingue-se, na fase da frutificação, pela ramificação profusa e desordenada e pelas numerosas vagens comprimidas sobre os eixos das inflorescências (foto 5). Ocorre por toda a Península Ibérica e região mediterrânica, em terrenos incultos ou como infestante de cultivos.

21.2.13

Desfolhada


Lathyrus aphaca L.

Nomes comuns: Ervilhaca-silvestre, ervilhaca-olho-de-boneca
Ecologia: Planta ruderal que aprecia clareiras de matos, prados húmidos e orlas de terrenos cultivados ou em pousio (onde se encontraram as das fotos)
Distribuição global: Europa, mas não no norte, parte da Ásia, norte de África e Macaronésia
Distribuição em Portugal: Ainda que pareça pouco exigente quanto à constituição do solo, os registos indicam que é mais abundante no centro e sul, e que aparece amiúde em zonas calcárias
Época de floração: Primavera e Verão
Data e local das fotos: Maio de 2012, aldeia do Vale, Pombal
Informações adicionais: Erva anual baixinha (~ 60cm) cujas folhas não têm folíolos, são meros filódios ou gavinhas. O que, nas fotos, diríamos serem folhas, as manchas verdes ovadas ou sagitadas, são descritas, nas Floras, como estípulas grandes, maiores quanto mais acima no caule de secção quadrangular. As flores, em geral solitárias, têm corolas amarelas com veios violeta no estandarte e um pé alto. As sementes redondas e pardas lembram lentilhas secas.

18.2.13

Ora bem



Lathyrus niger (L.) Bernh.

Nome comum: não tem; o termo espanhol orobo (que designa certo tipo de ervilhas) parece ter sugerido ou ter sido inspirado pelo nome que Lineu lhe deu (Orobus niger)
Ecologia: Clareiras de matas, em especial soutos, carvalhais, azinhais e pinhais
Distribuição global: Quase toda a Europa, Cáucaso, oeste da Ásia e noroeste de África; na Península Ibérica, parece preferir o norte e centro
Distribuição em Portugal: Sem ser abundante, há, segundo a Flora Ibérica, registo da sua presença nas Beiras Alta e Baixa, no Minho e em Trás-os-Montes
Época de floração: Fim da Primavera até ao Outono
Data e local das fotos: Junho de 2012, serra da Estrela
Informações adicionais: As plantas que vimos tinham cerca de 90 cm de altura e a população de muitos exemplares distribuía-se por uma clareira de um souto, junto a uma estrada com bastante sombra. É uma herbácea perene com folhas alternadas compostas por 6 ou mais folíolos elípticos, cada um com um biquinho no ápice, que, curiosamente, podem ser opostos ou alternados. Há ainda uma folhinha suplementar (estípula) inserta na axila das folhas, um apêndice frágil mas que tem a função importante de proteger os rebentos. Os cachos de flores, purpúreas mas tornando-se arroxeadas e escurecendo quando se forma o fruto (daí o epíteto niger), têm um pedúnculo longo, o que os faz sobressair acima da folhagem. As flores têm um cálice penugento e os típicos estandarte e quilha das leguminosas. A vagem é achatada e por vezes conserva algum do rubor violeta das flores.

15.2.13

O verdadeiro indúsio




Adiantum hispidulum Sw.

Certos fetos, como os dos género Adiantum (avencas) e Cheilanthes, têm a delicadeza de dobrar as margens das pínulas para proporcionar abrigo aos esporângios. A membrana que noutros fetos cumpre essa função recebe o nome de indúsio. A dobra da pínula, às vezes muito estreita, não chega a ser um verdadeiro indúsio, e por isso é costume chamar-lhe pseudo-indúsio. Mas há casos, como o da avenca de hoje, em que a dobra do lençol é suficientemente ampla, com uns arrebiques a lembrar um bordado, para que o sufixo pseudo seja dispensável. Embora sejam um prolongamento da margem das pínulas, os indúsios do Adiantum hispidulum individualizam-se pelo tamanho, pela cor clara e pelo formato reniforme.

São cerca de duzentas as espécies de Adiantum, um género presente em todos os continentes habitados. Além do método escolhido para resguardar os esporângios, outras características comuns à maioria das espécies são as hastes (ou ráquis) finas, escuras e brilhantes, e as frondes divididas numas tantas pinas mais ou menos arqueadas. As avencas são de fácil cultivo e muito valorizadas como ornamentais. Disso se aproveitou a avenca-áspera (Adiantum hispidulum) para alargar uma distribuição mundial já ampla, que inclui África, Ásia e Oceânia, aos arquipélagos da Madeira e dos Açores, onde talvez só na Terceira não se tenha instalado. No jardim António Borges, o mais bonito de Ponta Delgada, há muito que ela se emancipou da tutela dos jardineiros, vegetando exuberantemente nos locais mais frescos e sombrios.

11.2.13

Amarelo em Agosto



Inula conyza (Griess.) DC.

Talvez com as plantas suceda o mesmo que com as pessoas: ter nome ilustre ou ser aparentado com alguém famoso torna irrelevante a falta de mérito individual. No Portugal dos clãs, o nome é o único passaporte garantido para a notoriedade. Que tem isto a ver com a Inula conyza? A beleza que podemos conceder-lhe é modesta e, embora a planta seja pouco comum no nosso país, ela não faz parte da lista das raridades cobiçadas pelos botânicos. É tudo uma questão de parentesco, pois duas das suas congéneres em território luso são de facto especiais. A Inula crithmoides, que merecia ser chamada de vara-dourada-dos-sapais, pinta de um amarelo intenso, nos meses de Verão, as margens lodosas da ria de Aveiro. E a Inula montana tem a sua indiscutível fotogenia sublimada pelo selo da raridade: Franco, no vol. II da Nova Flora de Portugal (de 1984), chamou-lhe raríssima e interrogou-se se ela não estaria já extinta. Em Trás-os-Montes parece que sim, mas persistem boas populações na serra dos Candeeiros, onde a planta tem feito recuperação assinalável.

O epíteto conyza não é elogioso, já que sugere a afinidade desta planta com a avoadinha (Conyza bonariensis), uma das exóticas mais disseminadas como invasoras em cultivos e baldios. Mas, se a semelhança nos capítulos florais e no modo como eles se dispõem é indiscutível, já no aspecto geral as duas plantas dificilmente se confundem. A Conyza bonariensis é uma vara desgrenhada, com as folhas em atropelo, enquanto que a Inula conyza tem uma silhueta elegante, com folhas largas e esparsas. Ambas, porém, são plantas avantajadas, que podem ultrapassar 1 metro de altura.

A Inula conyza, que se distribui por grande parte da Europa mas em Portugal se fica pelo norte e centro, é uma planta perene, algo tomentosa, que vegeta em sítios mais ou menos pedregosos e floresce de Junho a Agosto.

8.2.13

O amargo da cerveja


Humulus lupulus L.

No reino vegetal também há modos distintos de se guindar a um lugar melhor ao sol. Os ingleses usam a palavra vine para se referirem a trepadeiras que usam apêndices, como as gavinhas, para se agarrarem enquanto ascendem, e bine para as que enroscam os caules, muitas vezes lenhosos ou com espinhos, e assim progridem. É este o caso da engatadeira (ou lúpulo), a planta das fotos, que pode chegar aos cinco (ou mais) metros de altura e lança ramos horizontais para formar uma teia densa que a suporta. Nativa das regiões temperadas e frias do hemisfério norte, onde aprecia bosques frescos, silvados e margens de cursos de água, é a única planta da família Cannabaceae espontânea na Península Ibérica (a Cannabis sativa L. é, como sabem, imigrante clandestina).

Trata-se de uma herbácea perene de folhas ásperas com margens serradas e flores esverdeadas, viçosa na Primavera, florida no Verão, recolhida ao rizoma nos invernos frios. É espécie dióica: as flores masculinas têm cinco pétalas (com cerca de 3 mm) e cinco estames com anteras proeminentes, e nascem em inflorescências ramificadas; as flores femininas, sem pétalas, agrupam-se em pinhas protegidas por brácteas de textura papirácea e reduzem-se a um estilete e dois longos estigmas. Com tanto resguardo e abreviamento, a polinização parece estar entregue ao vento. Os frutos são como feijões vermelhos redondos.

É das glândulas amarelas das brácteas das flores femininas que se extrai a substância que dá sabor e aroma à cerveja, embora as inúmeras variedades industriais sejam cultivares, obtidos por propagação vegetativa (sem a intervenção de plantas masculinas porque, dizem, as sementes estragam o sabor da cerveja). É, naturalmente, uma das plantas eleitas pelo portal Plants for a future.

4.2.13

Umbigo dos Açores


Umbilicus horizontalis (Guss.) DC.

Com as nove ilhas dos Açores espalhadas meio ao acaso no Atlântico, não é fácil decidir em qual delas se situaria o umbigo. O paralelo entre a morfologia do arquipélago e a anatomia humana - que em todo o caso deveria, como é tradicional, iniciar-se pelas extremidades do corpo - soçobra ainda na fase do esboço. Ao contrário do que o título possa sugerir, porém, nunca planeámos tal empreitada. Pretendemos apenas explicar como os umbigos açorianos (ou certos umbigos em certas ilhas açorianos) são diferentes dos do continente.

Falamos, como é próprio deste espaço, dos umbigos vegetais, que são as plantas mais ou menos carnudas pertencentes ao género Umbilicus. A inspiração para o nome vem da covinha no centro de cada folha, que corresponde no avesso ao ponto onde ela se une ao pecíolo. Traduzido para o vernáculo, o nome da espécie do género mais comum em Portugal, Umbilicus rupestris, ficou a ser umbigo-de-Vénus. Tinha que ser Vénus, pois em toda a galeria da história ou da mitologia foi ela a personagem feminina que mais vezes se mostrou em público com o ventre a descoberto. (E os homens - sussura alguém - os homens não têm umbigo?)

Nos Açores, além do U. rupestris, ocorre como espontâneo o U. horizontalis, que não existe nem na Madeira nem em Portugal continental, embora tenha uma distribuição ampla nos dois lados do Mediterrâneo. Os dois umbigos coexistem nas nove ilhas com vantagem geral para o primeiro, mas nas Flores as posições invertem-se: o U. horizontalis é muito comum e o U. rupestris muito raro. Nas restantes ilhas convém saber distingui-los, o que se consegue facilmente observando a postura das flores: no U. rupestris elas apresentam-se pendentes, enquanto que no U. horizontalis elas dispõem-se horizontalmente graças ao pedúnculo quase nulo (o epíteto da espécie não poderia ser mais certeiro).

Há outras diferenças entre as duas espécies que a planta acima exibida não ilustra cabalmente. Em geral, as flores do U. horizontalis são avermelhadas, e as suas hastes florais, ao contrário do que sucede com o U. rupestris, apresentam numerosas folhas. O facto de só ter fotografado uma planta, ainda por cima pouco desenvolvida, estando a ilha cheia delas, explica-se pela tentação, a que os botânicos amadores são especialmente susceptíveis, de apenas valorizar o que é raro. Afinal, pensei eu, não vim a uma ilha tão remota para registar plantas iguais às que se instalam sem cerimónia nas minhas floreiras. Mas o que parecia igual não o era, e o único remédio é prometer que as fotos serão substituídas por outras melhores logo que as tenha.


Umbilicus horizontalis na ilha de Santa Maria - Junho de 2013