29.4.13

Erva mamilar



Lapsana communis L. subsp. communis

Terá sido alguma Liga para a Prevenção da Brejeirice, nos bons tempos em que vigoravam o Respeito e o Pudor, que impôs para esta planta nomes vernáculos tão anódinos como lâmpsana e labresto, quando noutras línguas lhe chamam nipplewort, hierba de las mamas e coisas afins. Explica-se tal fixação nessa parte da anatomia feminina pelo formato dos botões florais, que lembrariam mamilos. O leitor pode julgar da pertinência da comparação observando a quarta foto aí em cima. Estabelecida a analogia morfológica, logo a medicina popular deduziu que a erva se usaria com proveito no tratamento de úlceras mamárias e de outras lesões provocadas pela amamentação. A ideia parece ser a de que o criador, como boticário atento às nossas conveniências, teve o cuidado de dar a cada planta uma forma ou embalagem que anunciassem claramente a sua utilidade. Assim, certas orquídeas, como a Orchis mascula, devem à forma sugestiva dos tubérculos o seu uso tradicional no tratamento da disfunção eréctil. Para um exemplo mais inocente, é algo inexplicável que o feto-pente (Blechnum spicant) nunca tenha sido receitado contra a caspa, queda de cabelo e demais anomalias do couro cabeludo.

A Lapsana communis, única espécie do seu género, nativa de quase toda a Europa, de parte da Ásia e do norte de África, é uma planta anual que prefere solos nitrificados, aparecendo em terras cultivados e baldios, bermas de caminhos e jardins, e por vezes junto a cursos de água. Ao contrário do que sucedeu a outras plantas mais delicadas, a ocupação humana do território só parece tê-la beneficiado, embora em Portugal ela não seja demasiado comum. Atinge mais de um metro de altura quando em pleno desenvolvimento, e a época oficial de floração, nem sempre respeitada, vai de Maio a Outubro. Como é regra na subfamília Cichorioideae das asteráceas (que inclui também os dentes-de-leão e a chicória), os capítulos florais, que têm 1 a 2 cm de diâmetro, são constituídos apenas por flores liguladas. As folhas na base do caule têm pecíolo longo e são pinatífidas, com o segmento terminal muito maior que os restantes; as folhas superiores são lanceoladas e vão tendo pecíolo progressivamente mais curto.

27.4.13

Assobio à beira Douro



Silene colorata Poir.

Nome comum: a Flora Digital de Portugal atribui-lhe a designação silene-rosada, o que parece ser uma mera tradução do nome científico; assobio-rosado soaria mais convincente
Ecologia: herbácea anual de campos cultivados ou incultos, prados e bermas de caminhos
Distribuição global: região mediterrânica, Irão, Arábia e Canárias
Distribuição em Portugal: bacia do Douro, centro e sul do país
Época de floração: Janeiro a Julho
Data e local das fotos: Março de 2013, na margem portuguesa do Douro internacional, junto a uma vinha
Informações adicionais: planta sedosa com caules que podem altear-se a uns 50 cm e flores vistosas raramente solitárias, em geral dispostas na haste viradas para um mesmo lado. Os cálices, cilindros com umas 10 riscas-de-pijama, têm cerca de 2 cm de comprimento; as pétalas, de limbo fendido, são esguias na base como pás de ventoinha. Embora as flores possam ser brancas, o nome colorata sublinha que é frequente exibirem um matiz de rosa próximo do carmim

22.4.13

O veneno de Sócrates



Conium maculatum L.

Em breve todas as escolas do país terão que pedir ao ministro das finanças autorização para comprar giz, papel, artigos de higiene e víveres para as cantinas; e o ministro, se os pedidos lhe chegarem com todas as vénias e protestos de humilde consideração, talvez vá libertando às pinguinhas, como quem sofre de retenção urinária, as míseras verbas necessárias. Quem sabe se o giz não é a gota de água que faria transbordar de vez o equilíbrio orçamental? Atrevemo-nos, porém, a sugerir outros cortes, não em alternativa, mas como complemento. Cortes esses que poderiam assumir carácter permanente, sem com isso querermos insinuar (longe de nós tal ideia) que o corte no giz deva ser temporário.

Há muito que em Portugal, pelo menos nas maiores cidades, deixou de haver jardinagem em espaços públicos. Os recintos universitários não são alheios a esse mal: os (impropriamente denominados) jardins que rodeiam os edifícios são na verdade extensos relvados, com meia dúzia de árvores proibidas de crescer plantadas aqui e ali com manifesta relutância. Em vez de jardineiros, há empresas de manutenção de espaços verdes que vêm aparar a relva duas vezes por mês e, uma vez por ano, podar as árvores para as fazer regressar às dimensões que tinham um ano atrás. É uma "jardinagem" toda subtractiva: poda, arranca, limpa, apara; nunca acrescenta uma flor, um arbusto, um canteiro. Para quê pagar um serviço tão triste, tão destrutivo e tão desqualificado? Se não há jardins nem gosto em mantê-los, então o orçamento em jardinagem deveria ser próximo de zero. Para evitar que o relvado se transformasse num mato eriçado, bastaria cortá-lo quatro ou cinco vezes por ano. Além da poupança orçamental, ganhar-se-ia um jardim com flores silvestres; e as árvores, livres do ritual da poda, poderiam finalmente fazer-se adultas.

Numa das entradas menos usadas da Faculdade de Letras do Porto, à rua da Pena, vicejavam há dias umas exuberantes umbelíferas com cerca de dois metros de altura. Distracção do "jardineiro", entretanto já corrigida, que se terá esquecido durante algumas semanas de submeter esse recanto do relvado à carecada regulamentar. Nem ele que removeu a anomalia, nem talvez os professores e alunos da instituição chegaram alguma vez a perceber que tinham ali uma lição viva, rica em interdisciplinaridade, que convocava em simultâneo a história, a literatura, a filosofia, a botânica e a medicina. Pois a planta não era outra senão a cicuta, de onde se extrai o famoso veneno com que, como relatou Platão, as autoridades de Atenas obrigaram Sócrates a matar-se. Ao contrário de outras umbelíferas peçonhentas, a cicuta não provoca uma morte convulsiva e dolorosa, mas sim uma paralisia gradual, sem perda de lucidez, que começa nas extremidades dos membros e termina fatalmente nos músculos respiratórios.

A cicuta (Conium maculatum) é adaptável e prolífera. Frequentadora de entulhos e baldios, de preferência sombrios e algo húmidos, tem a retaguarda protegida, e se desaparece de um local reaparece logo ao lado. Não vamos dizer onde para não suscitar mais perseguições, mas no mesmo perímetro universitário ainda sobram umas quantas cicutas altaneiras que acederam de bom grado, sob garantia de anonimato, a ser fotografadas. Planta anual ou bienal nativa da Europa, Ásia e norte de África, a cicuta floresce de Abril a Agosto. Se na cor branca das flores e na sua disposição ela se confunde com muitas outras umbelíferas, já o caule oco com manchas vermelhas (3.ª foto) é distintivo e permite uma identificação segura. Como sucede com certos cogumelos, as manchas funcionam como um sinal de alerta para a toxicidade da planta.

20.4.13

Goivo grisalho



Cynoglossum cheirifolium L.

Nome comum: língua maldizente, língua-de-cachorro
Ecologia: é planta ruderal, de lugares descampados com solos secos ou pedregosos
Distribuição global: oeste da região mediterrânica. De acordo com os registos da Anthos, ocorre em quase toda a Península Ibérica mas é rara a noroeste.
Distribuição em Portugal: Amaral Franco e a Flora Ibérica indicam que ocorre no Algarve, Alentejo, Beira Alta e Trás-os-Montes, mas o portal Flora-On tem poucos registos da sua presença
Época de floração: Fevereiro a Julho
Data e local das fotos: Março de 2013, em clareiras de matos e bermas de estrada no Alto Douro, entre Freixo de Espada à Cinta e Almendra
Informações adicionais: herbácea bienal aveludada, com caules de até 40 cm de altura e folhas esbranquiçadas em ambas as faces. As flores têm corolas de cerca de 8 mm de diâmetro e são cor-de-vinho. O género está presente em Portugal continental com mais duas espécies, C. clandestinum Desf. e C. creticum Mill., esta naturalizada em algumas ilhas dos Açores.

15.4.13

Candeeiros das ribeiras



Narcissus jonquilla L.

As corolas deste narciso lembram, ainda que sejam mais curtas, as do N. calcicola, do N. scaberelus, do N. rupicola e de mais alguns (raros, de ecologia distinta e que nunca vimos) que se abrigam na secção Jonquillae. O junquilho tem folhas longas, flores grandes e é dos mais altos: os exemplares que encontrámos na margem do Douro junto a Freixo-de-Espada-à-Cinta tinham escapos que ultrapassavam os 50 cm de altura. Justificam-se tais medidas. Enquanto os três primos são apreciadores de habitats rochosos e secos, o N. jonquilha vive em prados húmidos de zonas ribeirinhas e em leitos das cheias de rios. Nos anos em que o Inverno é chuvoso, este narciso, de floração primaveril, pode ficar parcialmente mergulhado. Porém, sendo alta, a haste com as flores consegue ficar à tona e assegurar que o perfume delas não se agúe. É, contudo, um estratagema arriscado: para que o pedúnculo, que é uma coluna fininha, seja suficientemente robusto e não vergue com o peso dele e das flores, tem de respeitar certa proporção entre o diâmetro e a altura, ou desabaria sem elegância, condenando a inflorescência.

Esta população, cuja localização nos foi gentilmente revelada por Carlos Aguiar, não consta da distribuição listada na Flora Ibérica (ainda em rascunho), mas não cremos que haja controvérsia quanto à sua identificação nem que ela esteja em risco, embora não seja numerosa. Trata-se de um endemismo ibérico, do centro e sudoeste da Península. Em Portugal ocorre também no Alentejo e Algarve e está naturalizado na ilha Graciosa.

12.4.13

Vida ultrabásica



Notholaena marantae (L.) Desv. [sinónimo: Cheilanthes marantae (L.) Domin]

Daqui de cima avista-se o rio Sabor. Gostaríamos de dizer que a paisagem permanece intocada, mutável apenas em obediência às estações: o caudal do rio, que já vimos diminuído, é agora farto, os salgueiros com um pé na água ainda não deram folhas novas. Mas muitos quilómetros a sul cresce a barragem que vai domesticar o ímpeto das águas, e logo aqui abaixo, na margem esquerda, abre-se um aterro como uma grande ferida cor de terra. É possível enquadrar a foto mentirosa para mostrar que nada mudou. Sabemos porém que não é verdade, e desistimos do gesto fútil.

O remédio está em adoptar a atitude de defesa que é necessária noutros pontos do país, mas aqui julgaríamos dispensável. Viemos para ver plantas, coisas pequenas, rentes ao chão, que exigem apenas um olhar de curto alcance; não para olharmos em volta com a voracidade de quem chega a território estrangeiro. E o feto com que marcámos encontro encabeça há longo tempo a nossa lista de plantas-a-ver. No ano passado, confiantes na nossa estrelinha, vagueámos pela margem direita do Sabor em busca dos afloramentos ultrabásicos que o fiel Alyssum serpyllifolium não deixaria de assinalar, mas da Notholaena marantae nem sinais. Este ano, para não repetirmos a excursão mal sucedida, pedimos ajuda a quem sabe, que nos indicou uma localização na margem oposta. Parece óbvio, não é? Se não é de um lado do rio, é do outro. Mas, na impossibilidade de atravessar o rio a salto, uma distância de poucas centenas de metros converte-se num desvio de dezena e meia de quilómetros, boa parte deles por trepidantes estradas de terra batida. Sem a certeza do prémio no final, é pouco provável que alguma vez aqui viéssemos, por muito que nos seduzissem as encostas revestidas de sobreiros.

À hora e no local previstos, deparámos com a Notholaena marantae, feto que em Portugal continental é exclusivo dos ultrabásicos transmontanos, embora noutros pontos da sua distribuição (que inclui a região mediterrânica, a Macaronésia e os Himalaias) possa ocupar rochas vulcânicas e substratos mais ácidos. A excitação do encontro foi algo atenuada por serem poucas as folhas em bom estado: quase todas se apresentavam encarquilhadas, e só uma ou outra folha nova começava a desenrolar-se [foto 4]; um mês depois o panorama seria bem mais alegre. Em comum com outros fetos xerófilos, as folhas da Notholaena marantae ficam engelhadas em períodos de seca prolongada, mas basta um regresso da chuva para reverdecerem. Não duram, contudo, mais que um ano, e as plantas que vimos aprontavam-se ainda para a renovação anual do vestuário.

Meia dúzia de frondes hirtas, com pínulas lisas e de contorno arredondado, pintadas de um verde glauco, davam, aqui e ali, bom testemunho da beleza elegante deste feto. No auge da Primavera elas deverão mostrar-se em formação cerrada, quase militar. Têm de 20 a 30 cm de altura, e exibem um pecíolo longo, pontuado por escamas brancas; na face inferior, iguais escamas deixam entrever os esporângios [foto 5]. É esse revestimento escamoso fazendo as vezes do indúsio que explica o nome do género, derivado das palavras gregas nothos (= falsa) e chlaina (= manta); em floras antigas era usada a forma Nothochlaena. O epíteto marantae atribuído por Lineu vem de Bartolomeo Maranta, médico e botânico veneziano do século XVI que primeiro descreveu a espécie.

8.4.13

Barlia Douro


Barlia robertiana (Loisel.) Greuter [sinónimo: Himantoglossum robertianum (Loisel.) P. Delforge]

Antes de se decidirem instalar nalgum local, as orquídeas apresentam um caderno de encargos detalhado: a natureza do solo, o maior ou menor grau de exposição solar e a competição de outras espécies são outras tantas exigências que têm de ter a resposta certa sob pena de elas recusarem a localização proposta. Some-se a isto que o grau de perturbação deve ser mínimo: o uso de herbicidas e as mobilizações frequentes do solo são incompatíveis com a sua permanência. Assim, a presença de orquídeas, além de motivo de regozijo estético, é testemunho de um habitat bem conservado.

Graças às suas minúsculas sementes, facilmente transportadas pelo vento a grandes distâncias, as orquídeas estão continuamente a tentar expandir o seu território. Se não é fácil reunir as condições para uma colonização bem sucedida, as probabilidades aumentam se o âmbito de experimentação for muito vasto. Pode não haver orquídeas em todo o lado, mas não é por falta de tentativas.

Dito isto, não é excessiva surpresa reencontrar na margem sul do Douro, perto de Barca d'Alva, uma boa população da salepeira-grande, orquídea perfumada e robusta, capaz de ultrapassar os 90 cm de altura, que só conhecíamos dos maciços calcários entre Coimbra e Setúbal. É um facto que, nesta migração de 150 Km, ela terá trocado o solo alcalino onde tradicionalmente se acolhe por um substrato ácido; mas, embora os calcários sejam propícios a uma maior variedade e abundância de orquídeas, eles não constituem um requisito essencial para boa parte das nossas orquídeas silvestres.

Foi André Carapeto, um dos mais activos colaboradores do Flora-On, quem em 2009 descobriu a Barlia robertiana nesse retalho do Alto Douro. As plantas que encontrámos no início de Março, talvez umas quarenta, moravam a 5 Km daquelas que Carapeto avistou. E não é essa a única espécie de orquídea que lá ocorre, pois observámos outras, ainda na forma de rosetas, que não pudemos identificar.


rio Tua em Caldas de S. Lourenço / rio Douro em Almendra

A mais recente divisão do país em provincías nunca teve, ao que consta, qualquer relevância administrativa. Contudo, as floras de referência (e, em particular, a Flora Ibérica) usam-na para descrever a distribuição das diversas espécies em Portugal. Só por isso tem algum interesse constatar que as estações de Castelo Melhor e de Almendra, na linha do Douro, calham na província de Trás-os-Montes e não da Beira Alta. O que é de todo objectivo, porém, é que ainda nos faltava ver a Barlia robertiana a norte do Douro, bem no coração de Trás-os-Montes. Um rio, mesmo um rio tão respeitável como o Douro, aqui e ali pachorrentamente engordado pelas muitas barragens, é obstáculo de somenos à propagação de orquídeas. Verdade essa que confirmámos no vale do rio Tua, ao encontrarmos, junto à estação de S. Lourenço, uma população numerosíssima da salepeira-grande, que só não nos encheu de alegria porque sabemos que ela, assim como o caminho de ferro, está condenada ao afogamento a breve prazo.

6.4.13

Violeta-do-Douro




Malcolmia triloba (L.) Spreng.

Esta é uma planta pequena de muitos nomes. Lineu hesitou entre Malcolmia lacera ou Cheiranthus lacerus, dando ênfase ao epíteto laceratus, que alude às folhas recortadas em franja. Indeciso, propôs também Cheiranthus trilobus, referindo-se talvez à morfologia do fruto, uma silíqua que, quando seca, se abre em três valvas (detalhe que é, porém, comum a todas as espéces do género Malcolmia). Por certo, o nome hoje aceite não lhe desagradaria. O povo, que a encontra nas dunas, em aluviões fluviais, bacias de rios e até em terrenos cultivados, trata-a carinhosamente por goivinho-da-praia (desse modo confundindo-a com a M. littorea e ignorando a M. ramosissima) ou, numa perspectiva mais utilitária que a nossa jardinagem pública desconhece, chama-lhe goiveiro-do-reino.

Amaral Franco distingue nesta espécie três subespécies, M. lacera subsp. lacera, M. lacera subsp. gracilima (Samp) Franco e M. lacera subsp. patula (Lag. ex DC.) Rivas Mart. & C. Navarro, essencialmente pelo tamanho das folhas, a cor das pétalas, a altura do pé da flor e a distribuição em Portugal. A Flora Ibérica não adopta esta divisão. Por essa descrição de Franco, a erva das fotos é da subespécie patula (o atributo patulus indica que tem uma ramagem pouco densa, que tende a espalhar-se) e ocorre nas bacias do alto Douro, Douro superior e Tejo.

Encontrámos estes exemplares na margem portuguesa do Douro internacional em Freixo de Espada à Cinta, vizinhos de uma população de Narcissus jonquilla e de outra de Silene colorata. É uma herbácea de cor verde-acinzentada, tomentosa de pêlos estrelados, com folhas caducas e espatuladas na base, e caulinares verticiladas e lineares. As pétalas, com 8 a 16 mm de diâmetro, frágeis e aveludadas como as dos goivos, são de um tom roxo rosado, com uma zona mais clara que, acentuando o centro da flor, guia os polinizadores, à semelhança dos sinais que ajudam a aterragem dos helicópteros nos heliportos.

1.4.13

Flor da serpentina



Saxifraga dichotoma Willd.

Há quem lhe chame uvas-de-gato, em alusão talvez aos bolbilhos acobreados nas axilas das folhas basais, que seriam subterrâneos se esta planta não optasse por fendas de rocha. Apesar de, em Espanha, ela se distribuir amplamente em pastos de solo arenoso acima dos 600 metros, em Portugal só há registo da sua ocorrência no nordeste, em afloramentos de rochas ultrabásicas. Sendo assim rara, foi uma sorte vê-la nos primeiros dias de Março já em flor, até porque a floração oficial decorre de Março a Maio. É parecida com a Saxifraga granulata, mas as flores são menores, têm pétalas brancas tingidas de rosa com página superior glandulosa, e as folhas (as basais com pecíolo longo, as caulinares sésseis), além do contorno reniforme, exibem seis ou mais lóbulos muito recortados, como dedinhos todos iguais, cada um deles depois novamente dividido.

Esta saxífraga é perene e nativa da região mediterrânica ocidental (Espanha, norte de Portugal, norte de Marrocos e Argélia) e de zonas montanhosas no interior da Península Ibérica. O género Saxifraga abriga ainda um endemismo português de que vos falaremos em breve.