28.6.13

Arroz tetrâmero



Sedum andegavense (DC.) Desv.

A juntar àquele que há dias aqui trouxemos, este é o condimento que faltava para completarmos a salada de arrozes com travo nordestino. É também uma planta suculenta, anual, baixinha (de 4 a 6 cm de altura) e discreta, moradora de sítios áridos e rochosos e de bermas de caminhos, e que floresce na Primavera. Destaca-se entre as suas congéneres, quase todos elas adeptas indefectíveis do número cinco, por ser uma defensora incondicional do quatro: cada uma das suas flores tem quatro sépalas, quatro pétalas e quatro estames. Em linguagem semi-erudita, polvilhada de grego, dizemos que as flores do S. andegavense são tetrâmeras, enquanto que as dos outros arrozes são, em geral, pentâmeras; ou que o nosso Sedum pratica o tetramerismo, por dissidência com a seita maioritária dos seguidores do pentamerismo.

Distribuído quase de norte a sul do território continental português, o S. andegavense parece contudo evitar regiões costeiras (com excepção das Berlengas), preferindo refugiar-se no interior do país. Adaptado a climas quentes e secos, é nativo da Península Ibérica e da metade oeste da bacia mediterrânica, incluindo Itália, França, Córsega, Sardenha, Marrocos e Argélia. Embora Lineu e outros patriarcas da taxonomia botânica se tenham por vezes equivocado na origem geográfica das plantas ao atribuir-lhes epítetos que evocam locais, desta vez a palavra andegavense informa correctamente que a primeira descrição publicada da planta (como Crassula andegavense, em 1815, por Augustin Pyrame de Candolle) foi baseada em exemplares colhidos perto da cidade francesa de Angers.

25.6.13

Goivo pardo



Matthiola fruticulosa (Loefl. ex L.) Maire

As plantas do género Matthiola são fáceis de identificar. As folhas e os caules são penugentos, e as flores, entre o rosa e o roxo, têm quatro pétalas, como é regra na família Cruciferae, de margens muito enrugadas e por vezes reflexas. A das fotos, com flores de cor púrpura quando frescas, de matiz misturado entre o violeta e o amarelo pouco depois, esconde-se bem nos matos rasteiros de solo arenoso em cujas orlas ela gosta de vegetar. Não fosse ser abundante, talvez não déssemos por ela; é moderamente alta (cerca de 40 cm; fruticulosa significa precisamente que é um arbusto pequeno), de hastes ramificadas providas de glândulas amarelas.

Mas há uma diferença relevante entre as várias espécies do género: algumas são anuais, outras perenes (como a M. fruticulosa) e outras ainda bienais. Admitindo como certo que uma etiqueta genérica une plantas com um ancestral comum, por que razão há espécies próximas com ciclos de vida tão distintos? Não pode ser só da ecologia: a M. tricuspidata e a M. sinuata ocorrem ambas em solos arenosos do litoral, e a primeira é anual enquanto a segunda é tendencialmente perene. Talvez as espécies saibam jogar com a sua capacidade de migrar de um registo anual para um perene, ou vice-versa, correspondendo o bienal a um período de transição. Imaginamos uma planta de beira-mar a colonizar com sucesso um habitat igualmente seco e pedregoso mas mais estável, o que lhe permite ganhar porte e aspirar a uma vida mais longa. E admitimos que uma mudança no clima possa ser culpada pelo abalo provocado numa espécie amiga do gelo de outrora e que nos dias de hoje, mais quentes, não resiste a mais do que uma floração. Sobram contudo dúvidas neste devaneio. Se nos parece que uma planta perene está mais bem adaptada e tem mais chances de se disseminar, também se pode legitimamente discutir esta hipotética vantagem, afirmando que ser capaz de programar uma data fixa para o fim é um avanço, ou uma rebeldia, a que poucas espécies se conseguiram alçar.

A Flora Iberica distingue duas subspécies de M. fruticulosa: a M. fruticulosa subsp. fruticulosa, das fotos, que já se chamou M. tristis e é nativa do sul da Europa, norte de África e oeste da Ásia (Chipre e noroeste da Turquia), onde parece mostrar alguma preferência por calcários; e a M. fruticulosa subsp. valesiaca, dos Alpes e Pirenéus, que não consta existir em Portugal.

21.6.13

Amarela de Bemposta



Ononis natrix L.

É verdade que as palavras explicam, mas também ajudam a confundir aquilo que os olhos não confundiriam. Descrições de coisas diferentes usam quase as mesmas palavras, ou distinguem-nas usando outras que não entendemos; na falta de uma ilustração, dificilmente ficamos aptos a reconhecê-las. Como explicar a diferença entre um burro e um cavalo a quem nunca viu nenhum deles? Pela razão entre o diâmetro da testa e o comprimento das orelhas? É bom que depois no campo os bichos se deixem estar quietos para as necessárias medições, e que não apareça nenhuma mula para nos baralhar a sapiência livresca. Os biólogos gostam, para sua recreação, de elaborar chaves dicotómicas que levariam sem hesitações à identificação segura das espécies analisadas. Essa redução do contínuo da realidade a uns quantos caracteres claramente distinguíveis tem quase tanto de idealização como aqueles exercícios de física elementar em que todos os corpos são esferas perfeitas formadas por material homogéneo. E, além das variações com que a natureza recusa conformar-se às leis humanas, até os profissionais se podem enganar quando decifram tais chaves, lendo numa certa descrição aquilo que o autor não quis lá pôr.

Quem consultar a Nova Flora de Portugal (vol. 1, 1971), de João do Amaral Franco, fica a saber que no nosso país a Ononis natrix estaria representada pelas subespécies ramosissima e hispanica. Há porém, de tempos a tempos, oscilações de opinião que fazem com que uma subespécie seja autonomizada como espécie ou, inversamente, uma espécie seja despromovida a subespécie ou variedade. E nem todos os especialistas se sentem obrigados a acatar as mudanças, de modo que os leigos ficam com todo um cardápio de nomes para usar a seu gosto. No que toca à planta de hoje, a Flora Ibérica reconhece as duas espécies Ononis natrix e Ononis ramosissima, não considerando quaisquer subespécies. Estranhamente, a O. natrix subsp. hispanica de Franco corresponde à O. ramosissima da Flora Ibérica, e a O. natrix subsp. ramosissima à O. natrix. Parece seguro concluir que as descrições originais dessas espécies (devidas a Lineu e a Desfontaines, e ambas da segunda metade do século XVIII) não foram lidas do mesmo modo por Franco e por Juan Antonio Devesa, autor da revisão do género Ononis na Flora Ibérica.

Pondo de parte as tricas nomenclaturais, a jóina-dos-matos (Ononis natrix) tem um aspecto bem diferente da sua prima jóina-das-areias (Ononis ramosissima): é mais avantajada, tem os cachos de flores mais erectos, as corolas são maiores, com o verso do estandarte marcado por traços vermelhos mais carregados, e as folhas têm folíolos mais compridos e estreitos. Divergência há também nas opções ecológicas, com a Ononis ramosissima, em obediência ao seu nome vernáculo, a preferir as areias litorais, e a O. natrix a penetrar no interior do país pelos vales do Douro e do Tejo. Some-se a isto que a O. ramosissima forma em geral populações abundantes, muito olorosas, cobrindo grandes extensões de areal, e que da O. natrix só encontrámos, até hoje, uns poucos indivíduos dispersos, incapazes de perfumar o ar à sua volta.

17.6.13

O padre e o lobo



Antirrhinum lopesianum Rothm.

Esta planta é um endemismo ibérico de que só se conhecem registos em Trás-os-Montes e no Douro internacional. Pertenceu em exclusivo à flora portuguesa entre 1877-79, altura em que o colector Manuel Ferreira, da equipa do Jardim Botânico de Coimbra liderada por Júlio Henriques, a descobriu, e 1989, ano em que Amich e colaboradores encontraram populações no lado espanhol. Contudo, a descrição da planta em publicação científica foi primeiro feita em 1956 por Werner Rothmaler, um botânico alemão refugiado em Portugal. A falta de iniciativa dos botânicos portugueses talvez se devesse ao facto de julgarem tratar-se do A. molle e não de uma espécie até então desconhecida. Em jeito de recaída, Pinto da Silva chega mesmo a designá-la, em 1973, como Antirrhinum molle L. subsp. lopesianum, mas análises recentes da morfologia e considerações sobre a ecologia de ambas confirmam que se trata de espécies distintas. A designação escolhida por Rothmaler homenageia o Padre Miranda Lopes (1872-1942), que encontrou, em 1926, esta planta em Argoselo e Teixo. Sobre a contribuição para o estudo da flora de Trás-os-Montes deste colaborador de J. Henriques, A. X. Pereira Coutinho e G. Sampaio, aos quais durante anos enviou amostras de plantas que foi descobrindo em Vimioso e arredores, num tempo em que o nordeste português ficava a muitos dias de viagem, sugerimos a leitura da obra de João Paulo Cabral sobre Gonçalo Sampaio.

O que se nota de imediato ao ver este «dragão das arribas» é a penugem branca muito densa nas folhas e caules. Dá logo vontade de passar a mão por essa lã; notamos então como é planta débil e ficamos com um ligeiro visco nos dedos, substância que talvez a proteja de predadores ou, pelo contrário, atraia polinizadores. As flores são bocas-de-lobo idênticas às de outras espécies do género Antirrhinum, mas brancas com veios roxos no topo.

Dir-se-ia que é planta de xisto, o tipo de rocha e solo ácido comuns em Trás-os-Montes. Na verdade, ela coloniza fendas de rochas onde escorre água rica em calcário. Foi nesse ambiente que vimos duas plantinhas à beira da estrada, junto ao rio Maçãs, depois algumas dezenas abrigadas por grandes rochas bastante mais acima no monte, e ainda exemplares dispersos por vários recantos à sombra. Não se julgue, contudo, que é planta abundante. Não só está restrita a poucos locais como as populações são diminutas e ocorrem em habitats raros. É razão de peso para que exista um livro vermelho da flora portuguesa, onde esta planta surgiria na lista das que estão em risco de desaparecer. Não sendo a sua presença nesse livro protecção suficiente, pelo menos os responsáveis pela sua extinção estariam previamente avisados e, portanto, sem álibi.

15.6.13

Arroz nordestino



Sedum rubens L.

As plantas do género Sedum, a que colectivamente gostamos de chamar arrozes por causa da folhagem miúda, especializaram-se, de um modo geral (há excepções), em colonizar lugares secos e quentes, funcionando as folhas carnudas como reserva vital de água. Dir-se-ia que a sua morfologia peculiar as preparou para resistirem anos a fio às condições mais adversas, sem receio da estiagem ou das variações extremas de temperatura. Com alguma estranheza, aprendemos que há espécies de Sedum que são anuais, contrariando a corajosa opção de vida da maioria das suas congéneres. Para quê tal aparato defensivo contra as inclemências do tempo se a intenção é desistir logo ao fim da primeira temporada?

Entre as espécies anuais duas há que nos recordam que o norte se divide em noroeste e nordeste, pois não é só na paisagem que o Minho verdejante e superpovoado difere das ermas lonjuras transmontanas. Da segunda espécie daremos notícia proximamente; a primeira é o S. rubens, que ocorre esporadicamente nuns poucos cumes nordestinos, com Espanha quase à vista. Se bem que, de acordo com a Flora Ibérica, a espécie exista em todas as províncias portuguesas tirando o Minho e a Estremadura, os escassos registos no portal Flora-On sugerem que ela é pouco vulgar.

O S. rubens é uma planta glandulosa, avermelhada, com hastes simples ou pouco ramificadas que se costumam ficar pelos 7 cm de altura; as flores, que são sésseis e se apresentam agrupadas em cimeiras terminais, têm uns 6 a 8 mm de diâmetro, com cinco pétalas brancas tingidas de rosa no ápice; o fruto (foto 3) tem a forma de uma estrela de cinco pontas, e vem recheado com inúmeras sementes mínusculas.

Adenda. Obrigado ao Miguel Porto por ter corrigido a identificação da planta.

10.6.13

A marca do ouro


Lamarckia aurea (L.) Moench.

Em taxonomia botânica não é raro haver uma evidente discrepância entre o homenageado e a planta cujo nome lhe prestaria homenagem. Lineu, sensível à carga simbólica de um nome e à necessidade de procurar a proporção justa, costumava baptizar as plantas mais insignificantes ou inúteis com o nome daqueles que tinha em fraca conta. No extremo oposto da escala, o botânico inglês John Lindley (1799-1865) não teve dúvidas em dar o nome do Duque de Wellington, vencedor de Napoleão, à mais portentosa árvore à face da Terra, a californiana sequóia-gigante. (Para desgosto dos ingleses e júbilo dos americanos, o nome genérico Wellingtonia era porém inválido, por ter sido anteriormente usado para designar uma pequena árvore asiática.) O caso desta gramínea deixa-nos algo confundidos. É uma planta anual, de uns 30 cm de altura, com uma inflorescência em panícula unilateral que começa por ser verde e depois adquire um atraente tom dourado. É uma boa escolha para jardins xerófilos mediterrânicos, onde até pode aparecer sem ser convidada. Em Portugal distribui-se sobretudo pelo centro e sul do continente, com entrepostos na bacia do Douro superior e no arquipélago da Madeira. Será esta planta homenagem adequada a Jean-Baptiste Lamarck (1744–1829), um dos maiores naturalistas de sempre, botânico de mérito, zoólogo eminente, precursor de Darwin? Contudo, ela não está sozinha na tarefa de perpetuar o nome ilustre, pois além de meia dúzia de plantas com o epíteto lamarckii (entre elas uma vistosa rosácea, Amelanchier lamarckii, e um mangue híbrido, Rhizophora × lamarckii), muitas criaturas marinhas, sobretudo moluscos e celenterados, foram agraciadas com algum dos nomes Lamarckina, Lamarckdromia, lamarckii or lamarckiana.


vale da ribeira do Mosteiro, Poiares, Freixo de Espada à Cinta

7.6.13

Coroa de favas




Coronilla minima L.

Quem por altura da Páscoa visita os maciços calcários do centro-oeste não pode deixar de notar a profusão amarela de um arbusto (Coronilla glauca) muito apropriadamente chamado pascoinhas. O amarelo, por ser a cor das flores da maioria das plantas espontâneas no nosso país, sejam elas herbáceas ou arbustivas, muitas delas leguminosas como esta, não é talvez a escolha mais apropriada para uma planta que quer chamar a atenção. Mas ao engodo visual as pascoinhas juntam a atracção do perfume. E são plantas mansas e compostinhas, sem a agressividade espinhenta dos tojos nem a cabeleira desgrenhada das giestas.

Um traço comum a muitas plantas do género, e que explica o nome científico Coronilla, é que as flores surgem agrupadas em coroas perfeitamente circulares na extremidade das hastes. Nesse aspecto, a C. minima, que encontrámos nas margens do Douro junto à barragem da Bemposta, pouco ou nada se diferencia da sua congénere mais meridional. Que seja de mais pequeno porte, atingindo apenas os 60 cm quando a C. glauca pode chegar a 1,5 m, não permite uma distinção inequívoca, pois tudo o que é grande começa por ser pequeno. Mais seguro é observar que o pedúnculo da inflorescência é, na C. minima, muito mais comprido (fotos 2 e 4); e que as suas folhas, desprovidas de pecíolo, exibem um par de folíolos basais encostados ao caule (foto 2).

Não tendo à mão uma cábula com estes detalhes, o leitor pode socorrer-se da diferenciação geográfica. Se, ao percorrer as margens do Douro internacional, encontrar uma planta parecida com esta, é certo que é dela que se trata, uma vez que a C. glauca, apesar de assinalada para o Douro Litoral, nunca foi vista por paragens transmontanas. Reciprocamente, das Beiras para sul também não há confusão possível, por falta de comparência da C. minima. (Ocorrem outras espécies de Coronilla em Portugal, mas de aspecto geral bastante diferente.) A única província onde ambas se misturam é, segundo a Flora Ibérica, o Douro Litoral mas nenhuma delas parece lá ter sido observada em anos recentes. De facto, a julgar pelo mapa de distribuição da espécie no portal Flora-On, a C. minima é entre nós uma raridade. Felizmente não está confinada ao lado de cá da fronteira, surgindo na bacia mediterrânica (Europa e norte de África) de Itália para oeste.

3.6.13

Licopódio para totós


Carum verticillatum (L.) W. D. J. Koch

Nos últimos anos visitámos assiduamente a serra de Arga em busca do licopódio-dos-brejos (Lycopodiella inundata), raridade botânica que alguns relatórios oficiais asseveram existir nas muitas turfeiras e prados higrófilos que preenchem as cumeadas da serra. Nunca o encontrámos, mas o afã da busca revelou-nos algumas plantas inesperadas e desvendou-nos, visto do alto, o litoral minhoto de Viana até Caminha. Como numa sopa de pedra, o ingrediente que motivou os passeios acabou por ficar esquecido, não no fundo da panela, mas algures num charco que não chegámos a inspeccionar. Mas não nos queixamos do insucesso, pois tudo o resto nos soube bem.

Sabendo da nossa demanda, houve uma planta, a alcaravia (Carum verticillatum) que muitas vezes se disfarçou da outra para poder rir à nossa custa. Pode parecer estranho que uma umbelífera, planta com flor, se assemelhe a uma espécie primitiva, aparentada com os fetos, que se reproduz por esporos, mas o Carum verticillatum, fora do período de floração que vai de Maio a Julho, fica reduzido a tufos de folhas rastejantes que lembram irresistivelmente as frondes do licopódio-dos-brejos. Essas folhas, que aparecem nas mesmas turfeiras onde deveria existir o licopódio, são compridas e estreitas, formadas por segmentos lineares dispostos em verticilos ao longo da ráquis. Uma observação atenta desfaz de imediato a confusão, pois tais segmentos são ramificados, ao contrário do que sucede no licopódio; e, neste último, os segmentos de última ordem (que aí na verdade são folhas) não são lineares nem estão exactamente agrupados em verticilos.

A haste floral do C. verticillatum, apesar do aspecto frágil, pode ultrapassar um metro de altura. Cada umbela é formada por 10 ou mais raios de 3 a 5 cm de comprimento; cada um desses raios, por sua vez, sustenta umbelas secundárias (chamadas umbélulas) com um número muito variável de flores, em geral entre 10 e 15.

Não fique a ideia de que, para nos fazer pirraça, a alcaravia se fez especialmente abundante na serra de Arga, pois a planta, embora mais frequente na metade norte do país, aparece com regularidade em prados húmidos ou encharcados do Minho ao Algarve. Globalmente, a sua área de distribuição abrange a Europa ocidental e o norte de África. Além do Carum verticillatum, ou alcaravia silvestre, há uma outra alcaravia por vezes cultivada para fins culinários ou medicinais, que leva o nome científico de Carum carvi e tem folhas de perfil triangular, muito diferentes das do C. verticillatum.

1.6.13

Erva de obedecer



Hypecoum imberbe Sm.

Quando a vimos, num terreno cultivado junto à barragem da Bemposta, pareceu-nos uma flor mal formada, com duas pétalas de tamanho anormal. A cor e a textura dela lembraram-nos da papoila-das-praias; uma consulta da informação sobre a família Papaveraceae no portal Flora-On permitiu-nos identificá-la e aprender depois que é uma herbácea anual da Europa mediterrânica, cuja distribuição em Portugal se restringe ao Alto Alentejo, centro-este, e nordeste.

Sendo parente das papoilas e de berço agrícola, não surpreende que tenha também propriedades narcóticas e que lhe chamem, em espanhol, dormideira-das-malvas (a par de outras designações espirituosas, como pamplina, pico de pajarito, zapatilla de la reina). Erva-de-obedecer é a tradução à letra do nome do género.

A fotografia de uma planta pequenina (não mais de 40 cm de altura) que gosta de companhia e da lavoura não é tarefa fácil, mais ainda se quase só tem folhas basilares e finamente subdivididas. Por sorte, as flores, com cerca de 1,5 cm de diâmetro e simetria bilateral, de quatro pétalas amarelas douradas, dois pares de estames de formatos distintos e pólen alaranjado, são vistosas e agrupam-se em inflorescências erectas a que nenhum fotógrafo resiste. As pétalas interiores exibem umas manchinhas negras (veja a última foto) de um pigmento que é solúvel em água; parecendo uma nódoa, trata-se de facto de um enfeite cuja utilidade desconhecemos. O fruto é um vagem estreita, articulada e arqueada como um C, contendo, para dar sequência ao alfabeto, sementes pardas em forma de D (pode ver imagens de ambas as coisas aqui).

No continente ocorrem mais duas espécies do género Hypecoum, o H. littorale e o H. procumbens, de que só há registos em zonas costeiras e de solo arenoso do Algarve.