30.8.13

Samacalo arouquense




Anarrhinum longipedicellatum R. Fern.

Uma consulta rápida ao segundo volume da Nova Flora de Portugal, de João do Amaral Franco, indica que o género Anarrhinum é, por cá, fácil de arrumar; e, para tarefas simples, cá estamos nós. Há apenas três espécies em Portugal:

1. Uma de distribuição europeia (A. bellidifolium (L.) Willd.), amplamente disseminada e com populações em geral numerosas - que, por esquecimento ou tendência indesculpável para dar prioridade às raridades, nunca aqui mostrámos.

2. Um endemismo do noroeste da Península Ibérica (A. duriminium (Brot.) Pers.), peludinho e de flores brancas, que, como refere o epíteto específico, habita terras inter Durium et Minium.

3. E, finalmente, um endemismo português (Anarrhinum longipedicellatum R.Fern.), descrito em 1959 pela botânica portuguesa Rosette Batarda Fernandes. Ao contrário das duas espécies anteriores, esta é uma raridade, com presença confirmada apenas em dois núcleos no centro do país, nas bacias dos rios Paiva e Vouga.

Com a desmatação e intensa reflorestação com eucaliptos, o inferno dos incêndios, o uso de agro-químicos e a limpeza excessiva, ou com herbicidas, das bermas de estrada, esta é mais uma planta cuja ecologia a pode condenar. Aprecia zonas rochosas e taludes, de solo xistoso e seco, com boa exposição solar, partilhando o habitat com o A. bellidifolium, e por vezes hibridando com ele. As populações que vimos, em Arouca e Castelo de Paiva, pareceram-nos, porém, em franca expansão, com centenas ou milhares de plantas altaneiras em escarpas consolidadas à beira de estradas que, afortunadamente, a crise não permitirá alargar nos próximos anos.

Precisamente por causa da convivência entre as duas espécies de Anarrhinum, foi essencial procurar a planta das fotos no fim da Primavera, quando floresce. É que são ambas glabras, com flores azuis, uma roseta basal de folhas lanceoladas de margens serradas, além de folhas caulinares menores, palmadas mas profundamente divididas em segmentos lineares com ápice agudo. É pelas flores que o A. bellidifolium se distingue do A. longipedicellatum: neste último, as flores são algo maiores e têm um pedicelo longo, de tal modo que a haste floral (de cor púrpura) parece um fio onde as flores se penduraram ao sol.

26.8.13

Folhado nas nuvens



Viburnum treleasei Gand.

Se a névoa se tivesse arredado por uns momentos, exibir-se-ia na primeira foto, tirada no interior da ilha Terceira, uma montra perfeita da floresta endémica dos Açores. Mas chamam-lhe floresta das nuvens; e, se tudo o mais pode faltar ou ser adulterado, já as nuvens não abdicam do seu direito de comparecer, fazendo as fotos perder em nitidez o que ganham em realismo. Com maior ou menor dificuldade, nessa foto distinguem-se (clique para aumentar) o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), a urze (Erica azorica), o loureiro (Laurus azorica) e o folhado (Viburnum treleasei). Apesar de os nomes comuns poderem amalgamar espécies diferentes e por vezes sem qualquer parentesco, nas ilhas açorianas estas quatro designações são inequívocas e têm a vantagem de, ao contrário dos nomes científicos, não estarem sujeitas a mudanças abruptas ou a variações de gosto. O folhado, que nos Açores é um pequeno arbusto de não mais que 4 metros de altura, dá-nos um exemplo dessa instabilidade: há quem o subordine como subespécie ao folhado europeu, chamando-lhe Viburnum tinus subsp. subcordatum, ou quem prefira autonomizá-lo como espécie, e o trate por Viburnum treleasei.

Que o folhado açoriano tem, tanto no porte geral como no aspecto das inflorescências, uma grande afinidade com o V. tinus europeu é indubitável, e leva a suspeitar que os dois partilhem um antepassado próximo, ou que o primeiro seja descendente do segundo. As diferenças entre eles não são porém menos evidentes: as folhas do V. treleasei são arredondadas, brilhantes, com as margens ligeiramente reviradas para baixo; as do V. tinus são mais estreitas, de um verde mais baço, apresentando margens não recurvadas e um ápice bem definido. Quer seja considerado espécie ou subespécie, o V. treleasei tem bem seguro o seu estatuto como endemismo açoriano.

Enquanto não descemos do patamar das nuvens, algures entre os 400 e os 800 m de altitude, aproveitamos para reflectir sobre a ditadura que o latim exerceu durante séculos sobre a taxonomia botânica, e que só em 1 de Janeiro de 2012, por decisão do XVIII Congresso Internacional de Botânica, foi oficialmente abolida. Não se trata, como alguns jornalistas então disparatadamente escreveram, de fazer com que os nomes em latim (ou em algum arremedo dessa língua) deixem de ser obrigatórios, mas sim de permitir que a descrição acompanhando uma espécie acabada de baptizar (e sem a qual o nome proposto não é aceite pela comunidade científica) venha noutra língua que não o latim. Essa outra língua por enquanto é o inglês, mas talvez em menos de um século ela seja substituída pelo espanhol ou pelo chinês.

O padre e botânico francês Michel Gandoger (1850-1926) foi o primeiro a publicar o latinório de lei sobre o folhado açoriano, no artigo Plantes nouvelles pour les îles Açores (Bull. Soc. Bot. France, vol. 46, 1899). Eis uma amostra do que ele escreveu: «(...) foliis obtuse ovato-suborbiculatis, cordatis, margine revolutis, crassi, minoribus, prominule et ad angulos lanatos nervosis (...)». Não é fornecida qualquer tradução em vernáculo, por ela ser desnecessária aos leitores habituais da revista. Mas a dificuldade, para um leitor actual, leigo no assunto, que tenha o português ou qualquer outra língua românica como idioma materno, e que nunca tenha estudado latim, não é tanto o de decifrar o texto (a tradução fonética funciona sem grande dificuldade) mas o de saber o que significam os termos técnicos. A dificuldade pode não desaparecer, ou talvez até se agrave, quando o latim é vertido para inglês. Acabar com o latim é vantajoso sobretudo para os taxonomistas actuais, sem formação em línguas clássicas. Quantas vezes alguém que só deu uma ajuda no latim não terá, por essa via, conseguido fazer-se co-autor de uma nova espécie botânica?

Já em 1897 William Trelease (1857-1945) dera à estampa, no seu Botanical Observations on the Azores, uma descrição daquilo a que chamou Viburnum tinus var. subcordatum: «Characterized by its round-ovate obtuse subcordate leaves, often densely hairy in the axils beneath.» Pôr a coisa em vernáculo foi-lhe fatal: Gandoger, que escreveu a mesma coisa, mas em latim, dois anos mais tarde, ganhou-lhe prioridade - embora tenha tido a cortesia de dar à planta o nome do seu colega americano. Pois era essa a força de uma língua morta.

19.8.13

Serpentina rosa

Este ano, não é só a sul que o Verão vai quente, à medida do desejado bronze da pele. Até as praias fluviais estão inusitadamente cheias com a algazarra dos banhistas em férias. Mantém-se, contudo, o modo peculiar de mergulhar na água gelada dos nossos rios a norte, aquela em que se dá basto uso aos gerúndios. Vai-se entrando devagarinho na água, esfregando vigorosamente os braços e saltitando para aquecer; vencido o frio à altura dos joelhos, arrisca-se um mergulho rápido e, arfando ou praguejando, dão-se corridinhas retemperadoras de volta à areia. Em meia hora de andanças anfíbias e muito riso, a conquista do riacho consuma-se.

É então que, por entre braçadas prazerosas, se pode reparar no remanso das margens e apreciar as plantas que ali parecem indiferentes a estas gradações de temperatura. No meio delas, destacam-se muitas espigas de flores cor-de-rosa com estames proeminentes, em hastes apoiadas em folhas longas que flutuam: são exemplares de Polygonum amphibium, uma herbácea perene de lagos e solo temporariamente inundado, a que os ingleses chamam amphibious bistort. Os pés em terra podem atingir os 40 cm de altura e têm folhas macias, arredondadas na base e quase sésseis; os que estão na água têm folhas mais estreitas, glabras e com longos pecíolos.



Polygonum amphibium L. - rio Tâmega, Mondim de Basto

Há cerca de um mês, uma outra espécie de Polygonum, o common bistort, também perene mas mais alta, e menos ansiosa por mergulhar na água, estava em flor num lameiro de Montalegre a cerca de 930 metros de altitude. Ouvimos falar desse lugar aqui e, este ano, tivemos o privilégio de o visitar com o João Lourenço. As folhas desta planta têm o formato lanceolado que é usual no género Polygonum, com ápice acuminado, nervura central vincada e um ligeiro enrugamento nas faces. Mas as desta espécie são quase triangulares e exibem um estreitamento repentino na base, como se tivesse acabado o material com que se faz o limbo da folha. Exceptuando as caulinares em posição mais elevada, as folhas são grandes, de página superior verde-escuro e inferior esbranquiçada; as basais têm pecíolo, que é longo e alado. Detecta-se facilmente por causa dos cachos densos de flores, em tom de rosa suave, quase branco. O epíteto bistorta alude ao rizoma torcido da planta (que não vimos, precisaríamos de desenterrar um exemplar).



Polygonum bistorta L. subsp. bistorta - Montalegre

Algumas referências inglesas a esta planta usam a designação que Sampaio lhe atribuiu em 1913, Persicaria bistorta. O que indica que talvez o seu círculo familiar, taxonomicamente falando, não esteja ainda consolidado. Os botânicos, entretanto, distinguem várias subespéces de P. bistorta, sendo a ibérica a subespécie típica, a bistorta. Nativa da Europa e parte da Ásia, comum na Europa central e frequente no norte de Espanha, o P. bistorta tem uma distribuição muito restrita em Portugal: em todo o país só se conhece a população que visitámos, embora não faltem em Montalegre muitos outros prados húmidos que parecem reproduzir o habitat que lhe é imprescindível. Estranha-se por isso que não se dissemine ou não haja registos dela noutros pontos do nosso território.

12.8.13

Pomba em pé




Ammi seubertianum (H. C. Watson) Trel.

Embora possam ser plantas vistosas e de grande tamanho, as umbelíferas padecem de uma uniformidade que as torna indistinguíveis aos olhos da maioria dos leigos. Mesmo os naturalistas e botânicos profissionais tardam por vezes em dar-lhes a merecida atenção. A história da Angelica lignescens, uma gigantesca umbelífera açoriana confundida durante mais de um século com o Melanoselinum decipiens, um endemismo madeirense que com ela pouco se parece, é ilustrativa dos equívocos a que a taxonomia das umbelíferas está sujeita.

O género Ammi, que inclui seis espécies de plantas anuais ou bienais nativas da região mediterrânica, Macaronésia e Médio Oriente, tem boa parte do seu contingente concentrado no arquipélago açoriano. Nada menos que três espécies endémicas dos Açores foram registadas, todas elas conhecidas como pé-de-pomba: A. trifoliatum, A. hunti e A. seubertianum. As três são listadas tanto no Portal da Biodiversidade dos Açores como na Checklist da Flora de Portugal. Sucede que as duas últimas, apesar de descritas originalmente pelo mesmo H. C. Watson, são consideradas por várias fontes como uma e a mesma espécie, tendo prioridade a designação A. hunti. Hanno Schäfer, na sua tese de 2003, defende igualmente que só existem duas espécies endémicas de Ammi nos Açores, mas que elas são A. trifoliatum e A. seubertianum. A mesma opinião é seguida numa listagem de endemismos açorianos publicada em 2006 por Carlos Aguiar, J. A. Fernández Prieto e Eduardo Dias. Finalmente, J. do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, reconhece uma única espécie açoriana, a que chama A. hunti.

A opinião mais recente dos estudiosos da flora açoriana inclina-se pois para a inexistência no arquipélago de um terceiro endemismo dentro do género Ammi. De facto, mesmo que o nome A. hunti persista, talvez por equívoco, em algumas listagens, não há fotos de plantas dessa espécie e ninguém parece saber onde encontrá-la. Por contraste, e apesar da opinião em contrário de Franco, há boas fotos e descrições inequívocas do A. trifoliatum e do A. seubertianum, e as duas espécies têm distribuição bem conhecida.

O Ammi seubertianum - dedicado ao botânico alemão Moritz August Seubert (1818–1878), que nunca visitou os Açores mas foi o autor, em 1844, da pioneira Flora Azorica - é bienal, atinge de 50 cm a 1 m de altura, floresce na Primavera e início do Verão, e apresenta folíolos grossos, quase suculentos; o A. trifoliatum, também bienal, é mais alto (pode chegar aos 2 m) e tem folhas basais mais divididas, com folíolos finos. O primeiro, com uma distribuição sobretudo costeira, é comum na metade oriental de Santa Maria; tirando essa ilha, só parece existir no Pico. O segundo, mais disseminado, ocorre no interior de sete ilhas (Flores, Corvo, Faial, Pico, Terceira, São Jorge e São Miguel) a altitudes entre os 400 e os 700 metros, mas só é comum nas Flores, e no Faial está no limiar da extinção.

6.8.13

Ilha prometida




Tolpis succulenta (Dryand.) Lowe

Talvez a ilha de Santa Maria quisesse fazer parte de outro arquipélago, ou pelo menos, pelo seu carácter híbrido, servir de transição entre os Açores e a Madeira. A fronteira entre os dois arquipélagos cortaria a ilha de norte a sul. A metade ocidental, árida e plana, irmã gémea da ilha de Porto Santo, ficaria a pertencer à Madeira; o verde impenitente da outra metade permaneceria sob administração açoriana. É verdade que a geografia resultaria algo confusa, com a metade açoriana mais perto da Madeira do que a metade madeirense, mas a tradição europeia dos enclaves e das fronteiras em ziguezague permitiria ultrapassar todas as dificuldades. E é bom assinalar que a distância entre Santa Maria e a ilha açoriana mais distante, o Corvo, é de 600 Km, não muito inferior aos 850 que medeiam entre Santa Maria e a Madeira.

Essa transferência parcial de soberania justifica-se também por razões botânicas. O Aichryson villosum é exemplo de uma planta que só é açoriana por ter posto o pé em Santa Maria, caso contrário seria um endemismo madeirense. E Santa Maria é a única ilha do arquipélago onde o Lotus azoricus é fácil de encontrar: sendo certo que se trata de um endemismo açoriano, não é menos verdade que é na Madeira e no Porto Santo que vivem os seus primos mais chegados. Até na vegetação invasora das arribas litorais, dominada pela piteira (Agave americana), Santa Maria se assemelha mais à Madeira do que às restantes ilhas açorianas.

A asterácea de hoje, de seu nome Tolpis succulenta, um endemismo açórico-madeirense, fornece mais uma achega a esta discussão. Habitante de falésias costeiras, referenciada em todas as ilhas dos Açores, sobrevive com dificuldade em todas elas, incapaz de competir com plantas mais exuberantes que ocupam o mesmo habitat. Dá-se mal em todas as ilhas, com uma excepção importante: em Santa Maria, a ilha prometida, ela vê-se por todo o lado, não já limitada à linha de costa mas penetrando pelo interior da ilha até cerca dos 500 metros de altitude. Também na Madeira, onde é conhecida como visco, é uma planta comum em escarpas rochosas, muros e taludes, desde o litoral até às montanhas do interior. A conclusão é que, tanto na Madeira como em Santa Maria, a Tolpis succulenta encontra o tipo de clima mediterrânico a que melhor se adapta, e que a sua presença em oito das nove ilhas açorianas se deve a um equívoco da natureza. A somar a tudo isto, existe a leituga (Tolpis macrorhiza), endemismo madeirense que, a menos de poucos detalhes, é uma cópia da T. succulenta.

A T. succulenta é uma planta perene, quase glabra, lenhosa na base, com caules muito ramificados e mais ou menos prostrados, dotados de látex. As folhas, que podem medir uns 10 cm de comprimento, são carnudas, elípticas ou lanceoladas, com margens inteiras ou dentadas; os capítulos florais são em geral solitários e nascem entre Junho e Setembro.

Não sendo tão vistosa como a agigantada T. azorica, a T. succulenta é ainda mais peculiar. Foi com emoção que a vimos, em Santa Maria, pintalgando de alto a baixo com um amarelo vivo as negras falésias junto ao porto.


4.8.13

Fitogeografia





Spergularia azorica (Kindb.) Lebel

Nos verões de 1894 e de 1896, o botânico norte-americano William Trelease (1857-1945), então director do Jardim Botânico do Missouri, visitou as ilhas açorianas numa expedição que também previa a colecta de sementes ou plantas para este jardim. A localização das ilhas era suficientemente remota para que as expectativas quanto a novidades botânicas fossem elevadas. Ali encontraria um habitat isolado, pensou, como a Madeira ou os Galápagos, com um clima favorável à coexistência de vegetação de montanha (nos picos, quase sempre escondidos por nevoeiro e chuva) e de beira-mar (com plantas adaptadas às falésias, ao farelo de pedra vulcânica e às praias de calhau rolado), com alguma flora tropical à mistura.

Trelease publica em 1897 as notas desta viagem, a que junta uma listagem pormenorizada da flora que encontrou nas nove ilhas (e da que, não tendo encontrado, foi descrita pelos seus antecessores). O tom geral é de desapontamento. As ilhas eram afinal frequentemente visitadas por navios da Europa e da América do Norte, e mesmo entre as ilhas mais a ocidente (Flores e Corvo) e as mais orientais (São Miguel e Santa Maria) circulavam demasiadas embarcações para haver diferenças nas respectivas floras. Além disso, a agricultura intensiva (com as vinhas destruídas por doenças, plantava-se milho, batata e batata doce, e cultivavam-se frutos como a banana e o já famoso ananás), os pastos com forragem europeia (por a julgarem melhor do que a nativa) e a invasão da flora exótica (já então o Hedichium gardnerianum liderava as hostes invasoras) pouco espaço deixavam para a flora endémica. Segundo Trelease, esta estaria refugiada em locais de difícil acesso, a salvo de coelhos e cabras mas desse modo também inacessível aos botânicos. Havia os líquenes, é certo, e muitas novas espécies de fungos para nomear, mas não eram esses os objectos do seu estudo. Seguindo a tendência de então, Trelease parecia empenhado em confirmar a teoria de Darwin e queria estudar a adaptação das plantas europeias ou americanas ao habitat açoriano, muito ventoso, extremamente húmido e de influência marítima. Todavia, em Botanical Observations of the Azores, Trelease informa que as ilhas eram demasiado jovens para se notarem indícios da selecção natural: só em Santa Maria eram conhecidos fósseis e só lá não havia vulcões com actividade recente.

A Spergularia azorica foi uma das plantas que Trelease viu floridas, e em todas as ilhas. Começou por se chamar Lepigonum azoricum, nome que o botânico sueco Nils Conrad Kindberg (1832-1910) lhe deu em 1863. Em 1868, o francês Jacques Eugène Lebel (1801-1878) colocou-a no género Spergularia e confirmou-lhe o estatuto de endemismo açoriano. Trelease prefere designá-la Spergularia macrorhiza, seguindo o botânico inglês H. C. Watson (1804-1881), que visitou os Açores em 1840 e a nomeara oficialmente em 1868 (depois de uma outra ida às ilhas em 1865 com o entomologista Frederick du Cane Godman (1834-1919)). Trelease nota como esta planta, exposta a derrocadas e vendavais, parece em harmonia com o ambiente: talos robustos, com que se agarra às arribas; hábito prostrado e aninhado nas reentrâncias rochosas de falésias ou escoadas de lava; uma penugem densa a agasalhá-la; flores grandes (muito maiores do que nas outras plantas do mesmo género) e bem abertas, com o néctar acessível aos polinizadores; e sementes, com uma asa rudimentar, que se disseminam pelo vento.

Santa Maria, onde vimos populações abundantes desta planta, pertence hoje à lista das Zonas Especiais de Conservação (ZEC), e a Spergularia azorica é uma das espécies da flora açoriana listadas no anexo II da Directiva Habitats, na companhia da Azorina vidalii e do Lotus azoricus.