4.3.14

Fuscata




Silene fuscata Link ex Brot.

Quando os serviços de meteorologia conspiram com a protecção civil e os telejornais para manter os portugueses fechados em casa, merecem generosa recompensa todos aqueles que, à revelia dos alertas amarelos, vermelhos ou laranja, cometem a temeridade de um passeio ao ar livre. Assim foi com a saída de campo da AOSP ao Horst de Cantanhede, num sábado de Fevereiro em que os profetas das intempéries & borrascas asseveravam com voz tremebunda que o céu cairia sobre as nossas cabeças. Manteve-se porém o dito quase sempre de um azul límpido, e só no final do tarde umas nuvens preguiçosas responderam à convocatória fazendo cair um aguaceiro displicente. À farta colheita (visual e fotográfica) de orquídeas que é de esperar nestas ocasiões, com destaque para a mini-fusca, única que estava em flor, veio adicionar-se a surpresa de uma abundantíssima população de lírios-roxos, uns poucos deles, por cortesia, já adiantados na floração. Na orla deste afloramento calcícola, onde os bosques de pinheiro-manso e mato mediterrânico dão lugar a vinhas e campos de cultivo, algumas ervitas precoces levavam à cena uma ante-estreia da Primavera. Entre elas, tão modesta que quase a confundíamos com congéneres suas bem mais comuns, uma Silene que nunca tínhamos visto, fuscata de seu nome e muito apropriada para servir de contraponto à mini-fusca.

A Silene fuscata é uma pequena planta anual, de não mais que 50 cm de altura (em regra bastante menos), com caules pubescentes e viscosos, quase sempre simples, e flores agrupadas em cimeiras corimbiformes. Frequenta campos e pastagens, preferindo substratos calcários ou margosos. Embora tenha uma distribuição ampla de ambos os lados do Mediterrâneo, e em Portugal e até na Península Ibérica seja de ocorrência muito esporádica, a espécie foi baptizada pelo botânico alemão Johann Heinrich Friedrich Link a partir de exemplares colhidos durante a visita de estudo que, na companhia de Hoffmannsegg, fez ao nosso país entre 1797 e 1799. A sua primeira descrição, publicada por Félix Brotero, apareceu em 1804 no segundo volume da Flora Lusitanica.

Por uma feliz coincidência, esta planta tão pouco vista e de existência tão efémera foi igualmente observada, com poucos dias de intervalo mas uns 160 Km a sul, pelo nosso colega de lides botânicas Francisco Clamote.

6 comentários :

Francisco Clamote disse...

É uma honra ser tratado por "colega" por alguém que muito admiro. Obrigado, Paulo, Abraço.

Paulo Araújo disse...

Obrigado, Francisco, pelo comentário e pela generosidade.

bea disse...

A fuscata lembra-nos mesmo uma primavera incipiente:)

E foi de bom resultado que se aventurasse o grupo das orquídeas selvagens a contrariar a meteorologia



Carlos M. Silva disse...

Olá Paulo

Essa é uma das que já encontrei/fotografei, já em 2011, mas foi apenas por que o Miguel Porto e os outros membros da SPBotânica me indicaram ser essa, aquando de uma das suas saídas de campo, na Serra da - na altura não era 'famosa' como é agora nem pelos mesmos motivos - na Serra da Carregueira.
Abraço e que as flores e plantas vos não faltem!

Carlos M. Silva

Paulo Araújo disse...

Pois é, Carlos, tu já viste quase tudo e nós também. Está na altura de mudarmos de país (como o governo insiste que façamos) para recomeçar do zero.

Mas a serra da Carregueira está na lista dos lugares que ainda desconhecemos. Ao que parece, temos que nos despachar a visitá-la antes que seja urbanizada.

Abraço,
Paulo

Carlos M. Silva disse...

Olá

Não, nada disso e aplicando-se a mim; pouco vi e o que vi ..foi ao correr do tempo e dos passos, sem propósito antecipado nenhum; o v/ caso, a v/ busca é totalmente diferente, científica! Quanto à Carregueira, não acompanho o mercado imobiliário, mas será que algum(!) dos seus 'ilustres hóspedes' já pode fazer contractos de compra-e-venda, para qualquer outra utilização pública, desenhada nos tampos dos gabinetes governamentais?? Espero ser capaz de este ano acompanhar uma ou outra vez a temporada da S.P.Botânica, se não for muito ao sul!! Abraço.
Carlos