12.4.14

Brancura breve




Bellis annua L.

Quando a moda dos herbicidas o consente, não há imagem mais clássica da Primavera do que um campo de malmequeres floridos. Mas devemos, nesse caso, interpretar o termo "Primavera" como um estado de espírito e não tanto como um período de três meses rigorosamente estabelecido pelo calendário. Há malmequeres que se mostram em abundância logo em Fevereiro ou Março, quase desaparecendo quando chega oficialmente a Primavera. Cumpriram a função de arautos. Não ficam os campos despidos (a menos que venha o herbidicida assassino), pois outros malmequeres amarelos ou brancos se ocupam agora da tarefa de florir, reforçados por uma confusão multicolorida de soagens, tremoceiros, gerânios, ranúnculos e o que mais queira aparecer.

A Bellis annua exemplifica na perfeição como os malmequeres na paisagem mudam não só com o correr dos meses mas também com a alteração da latitude. Mesmo num país curtinho como o nosso, onde a latitude não tem âmbito para grandes variações, o norte e o sul são mundos distintos, e este malmequer anual é definitivamente do sul: não quer nada com os territórios a norte de Lisboa e passeia-se alegremente pela Arrábida, Algarve e Costa Vicentina. Da sua vocação decididamente mediterrânica dá testemunho uma distribuição global repartida entre o sul da Europa, Anatólia e norte de África. Essa preferência ecológica também condiciona a fenologia de uma planta que, por apreciar um certo grau de humidade, tem de germinar, florir e e frutificar antes de virem os meses quentes e secos. Daí que a 8 de Março, quando a encontrámos na Arrábida, já levasse o serviço bem adiantado.

Há outras três representantes do género Bellis na flora portuguesa, todas elas plantas perene com folhas simples, de margens não recortadas. A mais conhecida dos citadinos, por frequentar assiduamente os relvados urbanos, sobretudo os que são aparados com insistência, é a B. perenis, vulgarmente conhecida como bonina. Em espaços naturais de norte a sul do país aparece uma versão da bonina com escapos e capítulos maiores e folhas mais estreitas: trata-se da B. sylvestris. A B. annua distingue-se bem dessas duas boninas por ter uma envergadura consideravelmente menor e por exibir folhas caulinares (3.ª foto). A mais preciosa e também a menos vistosa do género é a B. azorica, um ameaçado endemismo açoriano de que já aqui falámos.

1 comentário :

bea disse...

Malmequeres são bonitos em qualquer versão: citadinos ou silvestres, nas espécies mais raras, como a dos Açores; ou nas mais vulgares, como a da costa vicentina. Tudo que seja malmequer ou parente, nem que pobre, se a corola veste tal disposição de pétalas...vale.
A simplicidade e ausência de sofisticação assentam e aniquilam-nos a má vontade :). São flores terapêuticas.