3.6.14

Palha azul



Galium glaucum L. subsp. australe Franco

No tempo em que os rios não tinham o seu percurso seccionado por muralhas de betão, usava-se a expressão «leito de cheia» para designar aquelas zonas que só ficavam submersas quando o caudal engrossava. Essas oscilações de nível acompanhavam o correr das estações, fazendo com que a mesma paisagem assumisse ao longo dos meses roupagens muito variadas. Agora, junto às grandes barragens, há uma única mudança, brutal e estática, no nível das águas: a montante, estende-se um imenso lago eutrofizado; a jusante, escoa-se um fio de água que mantém a custo um rio moribundo. E é assim de Janeiro a Dezembro.

A vegetação de leito de cheio, que tão ameaçada está em Portugal com a artificialização dos rios, é muito especializada, e em geral nem gosta de molhar os pés, preferindo em cada ano esperar que as águas desçam para cumprir o seu ciclo vital. É justo questionar tão dúbia preferência: para quê estar tão perto de um rio se, para a sobrevivência da planta, é necessário que ele recue? A resposta é de índole quase filosófica: por muito precário e improvável que seja um nicho ecológico, a natureza não o pode desperdiçar, e há sempre uma planta adaptada a viver nele.

A jusante da barragem de Bagaúste, na Régua, a redução do caudal do Douro é quase permanente, apenas contrariada nas épocas de muita chuva, quando o rio, alimentado por descargas sucessivas, revive glórias antigas e ameaça inundar a baixa da cidade. Mas esses episódios são esporádicos e de curta duração. A vegetação ribeirinha mudou definitivamente, dominada agora por um salgueiral exuberante que ocupa até as ilhotas surgidas com o emagrecimento do rio. Debruçamo-nos no paredão e, como botânicos amadores incorrigíveis, invade-nos a vontade de observar de perto essas manchas verdes. Como podemos descer até elas? Alugamos um barco na Régua? Saltamos um portão com avisos de perigo e de proibição de passagem a pessoas estranhas ao serviço? Dois pescadores à linha que não parecem estar ao serviço da EDP respondem-nos quando de longe os interrogamos aos gritos. Sim, há uma passagem debaixo da estrada por um ribeiro entubado que agora está seco. O acesso, escondido entre silvas, mal se vê, e o túnel, baixo e com 20 a 30 metros de comprimento, é de uma escuridão absoluta. No final, para rematar, há um lanço de escadas estreito e íngreme. Completamos a travessia não sem alguma palpitação e suores frios, à mistura com os suores quentes próprios do dia escaldante. Estamos nas rochas na margem esquerda do Douro, a uma centena de metros da barragem. Das surpresas botânicas que nos aguardam merecem realce a rara Petrohagia saxifraga e este azul Galium glaucum, não assim tão raro mas aqui talvez no limite oeste da sua distribuição em Portugal e, a uma altitude de 60 m, bem fora do intervalo de 345-730 m prescrito pela Flora Ibérica.

O género Galium, a que os ingleses chamam bedstraw por algumas espécies terem servido para enchimento de colchões, é dos mais diversificados da flora portuguesa. As 21 espécies listadas para o nosso país incluem plantas anuais, outras perenes, umas rastejantes e minúsculas, outras erectas que podem ultrapassar 1 metro de altura. Caracterizam-se pelas folhas verticiladas, em grupos de quatro ou mais, e pelas pequenas flores brancas (às vezes amarelas), de quatro pétalas, dispostas em cachos terminais ou axilares. Com os seus quase 80 cm de altura,o G. glaucum está no grupo dos mais taludos do género, e pela floração profusa, visível de Maio a Julho, é certamente dos mais atraentes. É uma planta perene que frequenta lugares pedregosos e ácidos, não necessariamente perto de algum rio. A subespécie australe, que já foi espécie autónoma sob o nome de Galium teres, é endémica do quadrante noroeste da Península Ibérica.

4 comentários :

Francisco Clamote disse...

Poesia e ciência juntas.
Parabéns, Paulo!

Paulo Araújo disse...

Obrigado, Francisco.

bea disse...

Estes botânicos amadores incorrigíveis são na verdade muito intrépidos e persistentes.
Se o não fossem, talvez este blogue já tivesse morrido. Sossobrado. Batido a bota.
Mas está de boa saúde. Parabéns

ZG disse...

Bela "palha" e + um óptimo post!!