5.8.14

Quaresmas em Trás-os-Montes



Saxifraga carpetana Boiss. & Reut.

O nordeste transmontano está cada vez mais perto do litoral. Não é (ainda) porque o mar esteja a galgar a costa desenfreadamente, reduzindo a largura do país, nem é (por enquanto) resultado das ligações aéreas de baixo custo entre Porto e Bragança. Descontando o atropelo das obras do túnel do Marão, o famigerado IP4 e a meia dúzia de pontos na autoestrada A4 onde decorrem eternos melhoramentos, já é possível ir do Porto a Mogadouro em pouco mais de duas horas. Um despacho, sem dúvida, mas caro em portagens, o que dificulta para muitos o usufruto desta comodidade. Por sempre terem sido meândricas e esburacadas as vias até ao interior, só a valiosa correspondência epistolar entre naturalistas amadores e botânicos nas universidades impediu que a flora transmontana fosse ignorada por mais meio século.

A 14 de Maio de 1929, o padre J. M. Miranda Lopes, em Vimioso (hoje em dia, por estrada, a cerca de 35 Km de Mogadouro), escrevia mais uma vez ao botânico Gonçalo Sampaio, no Porto, enviando-lhe amostras de plantas que tinha observado: «debaixo d’um calor extraordinario, em direcção a Vimioso, e percorrendo montes e vales, ora a pé, ora a cavalo, cheguei por fim, às 2 da tarde, ao local onde pela 1ª. vez encontrei a Saxifraga Blanca, no dia 18 de Abril. Depois de verificar que à beira do caminho numa extensão de 200 metros aproximadamente não havia nada, entrei num lameiro proximo, e, logo ao primeiro golpe de vista dei com uma pequena colónia desta linda planta, colhendo os exemplares que por este correio lhe envio em três papeis separados.» Tratava-se da Saxifraga carpetana Boiss. & Reut. subsp. carpetana, desconhecida até então no nosso país. Os descritores desta espécie, Boissier (1810-1885) e Reuter (1805-1872), haviam publicado em 1842 a descoberta, informando em latim que a observaram na serra de Guadarrama, no sistema montanhoso central da Península Ibérica; Willkomm, porém, havia-a designado, em 1881, como Saxifraga blanca numa obra sobre a flora da Península Ibérica e as Ilhas Baleares decerto mais divulgada entre nós.

E foi num lameiro extenso em Mogadouro, colorido de azul por centenas de exemplares de Scilla ramburei, que vimos esta Saxifraga. Tem parecenças com a Saxifraga dichotoma, mas esta só aparece em afloramentos de rochas ultrabásicas. Inicialmente julgámos tratar-se de S. granulata, mas há diferenças nítidas na indentação das margens das folhas (só levemente crenadas na S. granulata), no formato da inflorescência (paniculada no caso da S. granulata) e na coroa de glândulas na base das pétalas (as pétalas da S. granulata são glabras). Tal como a S. dichotoma, em Portugal só se conhecem populações de S. carpetana em Trás-os-Montes. Mas esta planta perene é também espontânea em Espanha, Marrocos, Argélia e na parte mais ocidental da região mediterrânica.

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