11.10.14

Quatro irmãs portuguesas



Cleonia lusitanica (L.) L.

Segundo a Flora Ibérica, o nome vernáculo desta herbácea anual de floração efémera é o supreendente «cuatro hermanas portuguesas». A referência a quatro irmãs entende-se: a inflorescência tem um arranjo em pelourinho com quatro flores em redor, numa posição simétrica que lembra, por exemplo, a configuração da estátua que homenageia as quatro irmãs Guedes à entrada do Quinta da Aveleda. Memórias de outros tempos, em que as famílias eram numerosas. Mas o rigor do «portuguesas» deixa-nos perplexos. Tudo indica que se trata de um acrescento de cientistas influenciados pelo epíteto lusitanica que Lineu escolheu, tanto na primeira edição do Species Plantarum, em 1753 (em que a designou Prunella lusitanica), como na segunda, de 1763, em que corrigiu a mão, optando por Cleonia lusitanica (por isso o nome científico termina com a dupla menção a Lineu, (L.) L.). Pior só se alguém afirmasse que o povo a trata por cliónia. Mas não, não há qualquer menção de um nome vernáculo em português, e, de facto, em castelhano ela tem outra designação mais plausível: cañamillo, algo como cana-de-painço ou cana-de-milho-miúdo, decerto aludindo à postura erecta dos talos, ao formato da haste floral e às brácteas das inflorescências.

As flores não deixam dúvidas: esta planta, que em geral se fica pelos 20 a 30 cm de altura, pertence à família Lamiaceae e ao seu ramo mais vistoso, aquele que no início do Verão exibe corolas violáceas, com um matiz mais claro, ou mesmo branco, no interior. (Informa a Flora Ibérica que, em Málaga, há uma população onde ocorrem espécimes de flores amarelas.) Gosta de prados em clareiras de matos abertos, matagais ou azinhais, sobre solo calcário. Vimos os exemplares das fotos em Pombal, na companhia de algumas centenas mais que formavam um extensa manta lilás numa ladeira de terra argilosa, avermelhada e seca, entremeada com rochas e calhaus. Dias depois, reencontrámos a planta nas margas do Horst de Cantanhede.

De acordo com a Plant List, o género Cleonia inclui esta única espécie C. lusitanica, que é nativa do centro e sul da Península Ibérica e do norte de África.

2 comentários :

ZG disse...

Que beleza! E mais um post muito interessante!

bea disse...

Estas conheço-as também em manto lilás. Tão bonitinhas, um colírio.