15.11.14

Quem vê folhas não vê florações




Laserpitium eliasii Sennen & Pau subsp. thalictrifolium (Samp.) P. Monts.

A chamada sabedoria popular, repositório do senso comum mais comezinho em que vale tudo e o seu contrário, pode ter algum préstimo desde que saibamos fazer as necessárias adaptações. Assim, o provérbio glosado no título pode, se quisermos, alertar-nos para o facto de aquilo que observamos ser apenas uma parte talvez enganadora da realidade. No inocente passatempo de botanizar, esse princípio aplica-se de modo literal quando insistimos em dar nome a uma planta que se nos apresenta em estado vegetativo, sem flores ou frutos que facilitem a identificação. Nalguns casos, a possível confusão com outras espécies é reconhecida no próprio nome científico. Serve de exemplo a umbelífera de hoje, em que o epíteto thalictrifolium denuncia a semelhança da sua folhagem com a do Thalictrum. Se atentarmos no penacho dourado que é a inflorescência do mesmo Thalictrum, reconhecemos contudo que não há engano possível quando alguma das plantas está em flor.

O género Laserpitium, nome escolhido por Tournefort mas validado por Lineu, inclui 14 ou 15 espécies europeias. São plantas perenes, robustas, capazes de atingir metro e meio de altura, de caule maciço e estriado, com folhas pinadas divididas até quatro vezes. As flores são brancas, em geral com estames longos e recurvados, e os frutos apresentam quatro bandas membranáceas longitudinais de largura variável. O Laserpitium eliasii, de que estão descritas três subespécies de diferenciação nem sempre clara, é um endemismo ibérico confinado ao norte de Espanha e de Portugal; por cá só se reconhece a presença da subespécie thalictrifolium, que ocorre com alguma assiduidade no nosso único parque nacional, em carvalhais e outros bosques húmidos de montanha, mas fora dele quase nunca se vê.

A descrição original do Laserpitium eliasii foi publicada em 1907 no Boletin de la Sociedad Aragonesa de Ciencias Naturales por dois estudiosos da flora espanhola: o francês Étienne Marcellin Granier-Blanc (1861-1937) e o valenciano Carlos Pau (1857-1937). O primeiro, que foi membro da comunidade católica dos Irmãos de La Salle, adoptou o nome religioso de Frère Sennen; a sua actividade como botânico e explorador estendeu-se a França, Espanha e Marrocos.

2 comentários :

bea disse...

Tem mais beleza que qualquer toucado. Que continue pela península Ibérica, mais propriamente falando, em Portugal

ZG disse...

Linda planta, pouco comum!!