30.12.14

Saveirinho-com-foice


Astragalus hamosus L.

Na nossa versão fantasiada da natureza, por vezes despimos o campo do que ele tem de hostil. Noutras, pelo contrário, fazemos uma leitura contaminada pelos nossos receios, interpretando aspectos da morfologia das plantas como traços premeditados de defesa ou ataque. Veja-se o exemplo dos espinhos. Para nós são armas espetadas em riste, prontas para nos furar a ousadia e a pele. Para a planta são talvez resultado da adaptação a um habitat seco, a uma brisa persistente, a um polinizador que precisa de disfarce, ou ao pêlo dos animais de que os frutos apanham boleia.

No género Astragalus, da família das leguminosas, as flores têm, em geral, cores intensas e porte avantajado, ou nascem agrupadas em cachos densos de forte impacto. Se juntarmos a isso a folhagem vistosa, de folhas pinadas compostas por uma dezena de pares de folíolos (completadas, em algumas espécies, por um folíolo terminal), dispostos harmoniosamente numa ráquis longa, somos levados a considerar este género como um dos mais formosos da família. Mas, dando atenção aos detalhes, começamos a torcer o nariz. A espécie das fotos é bastante penugenta, com pêlos que se espetam facilmente nos dedos e lhe dão um ar descabelado. Temos até a impressão de que os cálices campanulados estão a magoar as pétalas frágeis, e de que os frutos, curvados como ganchos, jamais atrairão um bicho que lhes disperse depois as sementes.

Engano nosso. O anzuelo (ou gancho, como é conhecida esta planta em espanhol) é espécie anual de distribuição ampla na região mediterrânica, e está presente em quase toda a Península Ibérica. Por cá, há registos dele no nordeste e na metade sul. Começa a florir em Março, mas em Julho ainda se encontram flores, nessa altura misturadas com as tais vagens cilíndricas, curvadas em semi-circunferência, de uns 4 cm de comprimento. Este exemplar, que vimos em Vimioso, num torrão seco e arenoso das minas de Sto. Adrião, não está inteiramente conforme à descrição do Astragalus hamosus nas várias Floras, ou, de resto, à de alguma outra das 13 espécies de Astragalus listadas para a flora lusitana. Não é pela corola, aqui de cor creme e ali com veios azuis, mas pelo aspecto dos cálices. Contudo, a identificação aqui proposta parece ser a que mais bem se lhe ajusta.

3 comentários :

bettips disse...

Passo aqui como olho o campo e o chão dele: atenta e feliz.
Uma ano BOM, com muitas saídas.
Abçs

bea disse...

Bom Ano de 2015:)

Maria Carvalho disse...

Muito obrigada, bettips e bea, pela vossa companhia em 2014.