29.3.14

H, II ou X

Ophrys incubacea Bianca

Orquídeas silvestres outra vez?, pergunta o leitor de testa franzida. Pois, ainda não falámos desta. Só recentemente a vimos no Parque Natural da Arrábida, em sítios soalheiros ou a meia sombra, e estava no início da floração. Não ocorre no norte do país, embora haja populações no norte da Península Ibérica. É uma planta mediterrânica e, mau grado os poucos registos da sua presença em Portugal, não será assim tão rara no Alentejo e na Estremadura. Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, garante que também ocorre no maciço calcário do centro do país. O botânico italiano Giuseppe Bianca (1801-1883), que a nomeou em 1842, terá avistado exemplares diminutos na Sicília (o nome incubacea alude precisamente a essa pequenez), mas os caules erectos podem chegar aos 60 cm de altura.

Em algumas flores nota-se, na ponta do labelo, um apêndice amarelo redondinho cuja função desconhecemos. Para outros detalhes há, porém, explicação. As flores têm um estigma escuro e o labelo é peludo, em tom castanho avermelhado, próximo da cor do vinho tinto, no centro do qual se destaca uma mancha violácea brilhante que, para mais bem contrastar, tem por vezes um rebordo ocre ou esverdeado. A alguns, a flor lembra uma aranha, a outros uma vespa ou um moscardo. No polinizador (Andrena morio) suscita a grata memória de uma mosquinha-fêmea de tamanho aproximado ao do labelo, igualmente escura e com asas estreitas que, juntas, parecem formar um X. O desenho no labelo da flor imita quase perfeitamente este formato, embora a letra saia por vezes mal desenhada, lembrando antes um H ou um duplo I.

Alguns naturalistas, botânicos e especialistas em orquídeas evocam várias diferenças morfológicas para não seguirem a norma da Flora Ibérica (e, portanto, do Flora-On) de designar esta orquídea como Ophrys sphegodes Mill., nome atribuído em 1768 a uma planta que, se aceitarmos essa opinião, não existe por cá. É certo que as variações morfológicas aleatórias numa mesma população de orquídeas podem ser muito benéficas à espécie, mas algumas das que observamos hoje têm por ventura ainda um carácter efémero. Entende-se, assim, a hesitação em formalizar esses cambiantes em múltiplas espécies sem o apoio de estudos genéticos aprofundados. Contudo, o género Ophrys hibrida com frequência, o que complica consideravelmente a tarefa da ciência mas é fonte de legítimo regozijo para quem descobre tais híbridos.


Castelo de Palmela

25.3.14

Pirilampos selvagens



Luzula sylvatica (Huds.) Gaudin subsp. henriquesii (Degen) P. Silva

A relação entre a Luzula e os pirilampos já foi sobejamente explicada em fascículos anteriores. Detemo-nos agora no adjectivo que completa o título. Se o leitor quiser mostrar que acha a natureza muito gira mas de facto só a conhece da televisão, então deve usar, em todas as possíveis ocasiões, o termo "selvagem" em vez do mais apropriado "silvestre". Fale das nossas "flores selvagens", arregalando muito os olhos para sublinhar o susto, e nunca admita que aquilo que é espontâneo em bosques e prados se chama "silvestre". Selvagem é um lugar cheio de ameaças e rugidos, como os que aparecem nos documentários rodados na Amazónia ou nas profundezas de África. Não é termo adequado à natureza residual e domesticada que nos cabe por herança neste século XXI europeu. Quem já teve oportunidade de contemplar as nossas orquídeas espontâneas não ficou transido de medo mas apenas fascinado, e entendeu bem como seria descabido qualificá-las de selvagens.

De modo que os pirilampos selvagens, que não são pirilampos nem selvagens, pousaram no título apenas como pretexto para uma diatribe lexical. Regressando à temática botânica, sobre a Luzula sylvatica, que é frequente em bosques húmidos e margens de rios na metade norte do país, dir-se-á que a discrição em tons de castanho das suas inflorescências é amplamente compensada pelos tufos de folhas brilhantes que se mantêm verdes durante todo o Inverno. Revela um esforço meritório que floresça durante longos meses, de Março a Agosto, lançando panículas difusas sustentadas por hastes que podem atingir os 80 cm de altura, mas é pelas folhas planas e ciliadas, e não pelas flores, que gostamos dela.

A botânica não é uma ciência exacta, e por isso nela convivem sem desprestígio as opiniões mais desencontradas. Esta Luzula sylvatica é foco de divergências taxonómicas baseadas em certos pormenores morfológicos. Assim, muitos autores sustentam que em Portugal e na Galiza ocorre apenas a L. sylvatica subsp. henriquesii, endémica do noroeste peninsular, caracterizada por ter flores com tépalas mais pequenas do que a subespécie típica. A Flora Ibérica, na revisão do género Luzula publicada em 2010, recorre ao habitual argumento da existência de formas de transição para decretar que a alegada subespécie galaico-portuguesa é indistinguível da subespécie nominal, comum por essa Europa fora. Há sinais de que nem portugueses nem galegos estão dispostos a abdicar de mais este endemismo: por cá, tanto a Checklist da Flora de Portugal como o Flora-On mantêm como válida a subespécie henriquesii, e parece-nos de bom tom alinhar com tão distinta companhia.


L. sylvatica nas margens do rio Bestança

22.3.14

Novas do Minho



Potentilla sterilis (L.) Garcke

Íamos com os olhos treinados para o amarelo. O rio Coura e afluentes pareciam saber disso e ter combinado encantar-nos com narcisos a perder de vista. A chuva insistente dos últimos quatro meses, que pôs o país à beira de uma crise nervosa, teve afinal um propósito.

Foi precisamente por destoar dessa tendência amarela, ao exibir diminutas flores brancas, que reparámos nesta Potentilla. Pela floração hibernal, julgámos tratar-se de mais uma população de P. montana, mas a ecologia e o recorte das margens das folhas confirmaram tratar-se de uma outra espécie. As plantas que vimos estavam nas margens de um riacho, com o chão amaciado por folhas caídas de um bosque ribeirinho que deve oferecer uma sombra fresca e confortável no Verão. Para o leitor ter uma ideia das dimensões desta planta, note que as pétalas têm cerca de 5 milímetros de comprimento por 4 de largura.

Esta Potentilla é uma planta vivaz que por cá é rara, havendo uns poucos registos antigos dela no Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes mas não um nome comum que se lhe conheça. Na Península Ibérica, prefere a metade norte. Há, porém, regiões do centro e sul da Europa onde ela não está em perigo de desaparecer. Das nove espécies do género Potentilla que ocorrem em Portugal continental, entre as quais predominam as de flores amarelas, falta-nos ver uma outra espécie que também dá flores brancas, a P. rupestris, que a Flora Ibérica garante existir em Trás-os-Montes. Deve andar, de facto, a jogar ao esconde-esconde por trás das montanhas.

17.3.14

Redonda vezes quatro




Galium rotundifolium L.

Não é sintoma de chauvinismo, e muito menos conversa de operador turístico, reconhecer que às vezes o que é só nosso é melhor do que aquilo que partilhamos com muitos outros países. Na maioria dos casos, essa supremacia é puramente fortuita e não fizemos nada para a merecer. Além disso, e como sucede com quase tudo do que tratamos no blogue, o assunto interessa a tão pouca gente que não será com ele que se fortalecerá o depauperado orgulho nacional. Falando das plantas do género Galium, a que os ingleses chamam bedstraw e nós não chamamos nada, as mais arrumadinhas, simétricas e elegantes que encontramos no nosso país distinguem-se por ter quatro folhas em cada nó, cada uma delas com três veios longitudinais bem vincados. É esse o figurino tanto do Galium broterianum como do Galium rotundifolium, que aqui trazemos hoje. O primeiro é frequentador assíduo de margens de cursos de água no interior norte e centro do país; o segundo, que mora no mesmo território mas prefere matas caducifólias, é muito menos comum. O primeiro tem uma inflorescência abundante e vistosa, composta por dezenas de pequeninas flores brancas; o segundo tem uma inflorescência rala, como se tivesse sido podado fora de época por um jardineiro inconsciente. Finalmente, o primeiro é só nosso ou quase (tratando-se de um endemismo ibérico, somos obrigados a partilhá-lo com os espanhóis), enquanto o segundo tem uma distribuição vastíssima, que vai desde a Península Ibérica e o Mediterrâneo até à Escandinávia e ao sudoeste da Ásia. Por uma vez, temos em abundância o que é melhor e mais bonito, e que os outros não têm, embora, por compulsão coleccionista, não abdiquemos de ter igualmente, mas em quantidades moderadas, o produto de menor qualidade que os outros também têm.

O G. rotundifolium é uma planta perene, estolhosa, capaz por isso de revestir largos metros quadrados de terreno no sub-bosque de carvalhais ou de soutos. Tem folhas arredondadas (daí o epíteto atribuído por Lineu) com cerca de 1,5 cm de comprimento e pecíolo muito curto, e caules de 30 ou 40 cm de altura encimados por inflorescências esparsas, corimbiformes, compostas por flores brancas com 3 a 4 mm de diâmetro. Floresce de Junho a Julho. A quem quiser vê-lo de perto aconselha-se uma visita ao Souto do Concelho, em Manteigas, ou à Mata da Margaraça, na serra do Açor, local onde as fotos foram obtidas e que justifica muitas visitas pelas razões aqui detalhadas.

14.3.14

Novas do sul





Jonopsidium acaule (Desf.) Rchb.



São Martinho do Porto

Longe vai o tempo em que os portugueses trocaram couves por eucaliptos com os australianos. Agora sabemos que a família Brassicaceae, fácil de identificar pelas flores de quatro pétalas dispostas em cruz, não é um mero ajuntamento de nabiças e saramagos. E tem sido uma agradável surpresa descobrir que abriga vários endemismos lusitanos. O endemismo português desta família que hoje aqui comparece, e de que só conhecemos registos no litoral a sul de São Martinho do Porto, é uma planta anual de porte diminuto (1,5 a 6 cm), muito mais baixinha do que a sua congénere, um endemismo da Península Ibérica, Jonopsidium abulense (Pau) Rothm.. Mas quando está em flor (ou seja, agora), notam-se bem os tapetes que forma em solo arenoso, aproveitando clareiras de zimbrais ou de pinhais. As pétalas rosa-lilás quase não se separam, e as folhas redondas, lembrando colheres minúsculas, arrumam-se em rosetas no centro das quais sobressaem os racimos de flores. Está formalmente protegida como espécie prioritária através da Directiva Habitats e da Convenção de Berna.

A presença desta planta em Portugal foi primeiro assinalada, em 1798, pelo botânico francês René Louiche Desfontaines (1750-1833), estudioso da flora do norte de África. Chamou-lhe, na sua Flora Atlantica (1798–1799), Cochlearia acaulis. Pouco tempo depois, Brotero regista-a também: primeiro como Cochlearia pusilla na Phytographia Lusitaniae Selectior, de 1800; e quatro anos depois, na Flora Lusitanica, chamando-lhe Cochlearia olyssiponensis. Tem, de facto, alguma semelhança com a Cochlearia danica L., que conhecemos de paragens mais nortenhas, o que, contudo, não explica cabalmente o nome de cocleária-menor que o povo alegadamente lhe daria.

Porém, a designação da planta que prevalece hoje é a atribuída, em 1829, pelo botânico e ornitólogo alemão Heinrich Gottlieb Ludwig Reichenbach (1793-1879), num dos dez volumes da sua obra Iconographia botanica s. plantae criticae (1823-32). Reichenbach observou a planta em Alcântara no dia 28 de Fevereiro de 1828. Propôs então para ela o nome genérico Jonopsidium, uma união elegante entre o prefixo grego ion, violeta, e opsis, semelhante. Sendo assim, pensará o leitor, deveria ser Ionopsidium. Pois claro, e é mesmo esse o nome usado na Flora Europaea e, consequentemente, por Amaral Franco na Nova Flora de Portugal. Será, todavia, um duplo engano (dos que não somam cem anos de perdão) escrever com I uma designação cujo autor escolheu iniciar com um J.

10.3.14

Junco dos três bicos


Triglochin maritimum L.

Além de certos grupos humanos, como sejam os estrangeiros em busca de emprego, também há plantas que não podem instalar-se na Suíça. O preço a pagar pelos helvéticos para terem os Alpes e o edelweiss é muito alto, e inclui a necessidade de pedirem licença aos países vizinhos para ver o mar. E depois de o verem e de molharem os pés nas ondas regressam a casa resignados, pois o decreto divino é irrevogável (no sentido que a palavra tinha até Julho de 2013): o mar não vai à Suíça, nem a Suíça vai ao mar. Com o resultado de que esse país fica inteiramente desprovido daquela flora terrestre de vocação marinha que vive em dunas, estuários e sapais.

Embora tenham um aspecto monótono, e o solo lodoso, periodicamente inundado, não convide a passeios a pé, a verdade é que os sapais nos estuários dos rios, onde a água doce e a salgada se defrontam numa fronteira instável, são um refúgio de plantas fascinantes: há limónios, varas-de-ouro, ásteres, salicórnias, espergulárias e uma grande variedade de juncos. A que se junta este Triglochin maritimum, na aparência uma mistura de junco com tanchagem mas que não é nenhuma das duas coisas. O nome científico Triglochin, que Lineu atribuiu a esta planta, provém do grego e significa "com três pontas", por cada um dos seus frutos ser em regra composto por três peças. O junco-dos-três-bicos, chamemos-lhe assim, é uma planta perene, rizomatosa, com hastes até 65 cm de altura, que floresce de Fevereiro a Setembro. Distribui-se pela América do Norte e por grande parte da Europa e da Ásia; no norte de África só há registo dela na Tunísia. A sua presença europeia é desequilibrada em favor do norte: é comum ao longo da costa atlântica desde a Rússia até à Galiza, e também nas ilhas britânicas e na Islândia, mas rareia no Mediterrâneo. Em Portugal é por certo mais vulgar do que os escassos registos no portal Flora-On fazem crer. Encontrámos uma boa população no pequeno sapal na foz do Tornada, em Salir do Porto.


Salir do Porto: foz do rio Tornada

4.3.14

Fuscata




Silene fuscata Link ex Brot.

Quando os serviços de meteorologia conspiram com a protecção civil e os telejornais para manter os portugueses fechados em casa, merecem generosa recompensa todos aqueles que, à revelia dos alertas amarelos, vermelhos ou laranja, cometem a temeridade de um passeio ao ar livre. Assim foi com a saída de campo da AOSP ao Horst de Cantanhede, num sábado de Fevereiro em que os profetas das intempéries & borrascas asseveravam com voz tremebunda que o céu cairia sobre as nossas cabeças. Manteve-se porém o dito quase sempre de um azul límpido, e só no final do tarde umas nuvens preguiçosas responderam à convocatória fazendo cair um aguaceiro displicente. À farta colheita (visual e fotográfica) de orquídeas que é de esperar nestas ocasiões, com destaque para a mini-fusca, única que estava em flor, veio adicionar-se a surpresa de uma abundantíssima população de lírios-roxos, uns poucos deles, por cortesia, já adiantados na floração. Na orla deste afloramento calcícola, onde os bosques de pinheiro-manso e mato mediterrânico dão lugar a vinhas e campos de cultivo, algumas ervitas precoces levavam à cena uma ante-estreia da Primavera. Entre elas, tão modesta que quase a confundíamos com congéneres suas bem mais comuns, uma Silene que nunca tínhamos visto, fuscata de seu nome e muito apropriada para servir de contraponto à mini-fusca.

A Silene fuscata é uma pequena planta anual, de não mais que 50 cm de altura (em regra bastante menos), com caules pubescentes e viscosos, quase sempre simples, e flores agrupadas em cimeiras corimbiformes. Frequenta campos e pastagens, preferindo substratos calcários ou margosos. Embora tenha uma distribuição ampla de ambos os lados do Mediterrâneo, e em Portugal e até na Península Ibérica seja de ocorrência muito esporádica, a espécie foi baptizada pelo botânico alemão Johann Heinrich Friedrich Link a partir de exemplares colhidos durante a visita de estudo que, na companhia de Hoffmannsegg, fez ao nosso país entre 1797 e 1799. A sua primeira descrição, publicada por Félix Brotero, apareceu em 1804 no segundo volume da Flora Lusitanica.

Por uma feliz coincidência, esta planta tão pouco vista e de existência tão efémera foi igualmente observada, com poucos dias de intervalo mas uns 160 Km a sul, pelo nosso colega de lides botânicas Francisco Clamote.

1.3.14

Mini fusca


Ophrys pintoi M. R. Lowe & D. Tyteca

As flores das orquídeas do género Ophrys, sem néctar ou outra recompensa para os polinizadores, apostaram em certo momento da sua evolução na mimetização de insectos, aproveitando-se do pequeno lapso de tempo entre o fim da hibernação dos insectos-macho e o das fêmeas para atraírem os primeiros e, através de falsas cópulas, lhes entregarem pólen ou receberem o que eles trazem de outras flores. Para além da aparência enganosa, com zonas no labelo que, quando brilham ao sol, parecem asas, as flores produzem feromonas quimicamente muito semelhantes às exaladas pelos insectos-fêmea, e distribuem de modo adequado o veludo e a penugem no labelo para que a semelhança táctil seja perfeita. Algumas orquídeas dependem inteiramente do sucesso deste mecanismo para produzirem sementes, e por isso o ardil tem de ser exímio: há que garantir que a planta se destaca na profusão de sinais químicos e visuais da natureza, como um canto de soprano rompendo a massa instrumental de uma orquestra. O resultado é uma especialização tão hábil das flores que raramente este emparelhamento entre a morfologia da flor e um insecto envolve espécies distintas. Mas acontece. O mesmo insecto pode visitar flores de diferentes espécies, e da troca de pólen nascerem híbridos. Isso não é de todo mau se as mudanças na morfologia continuam a ser apreciadas pelo polinizador, e até pode constituir uma vantagem: se o insecto burlado jura a patas juntas que não volta àquela flor, no ano seguinte visita ingenuamente o híbrido, e assim se perpetua o logro; ou então surge outro insecto que se adapta melhor à nova morfologia da flor e que, substituindo o polinizador original, aumenta as oportunidades de disseminação da planta.

Quando isto sucede, é natural que as alterações genéticas se tornem estáveis e se formem orquídeas que se distinguem claramente dos progenitores. É então legítimo propor que, na taxonomia, elas se tornem espécies independentes. Foi o que fizeram os autores deste artigo (Michael R. Lowe & Daniel Tyteca, Two new Ophrys species from Portugal, J. Eur. Orch.44 (1): 207 – 229. 2012) relativamente a duas formas de Ophrys do centro do país que à primeira vista pareceriam ser de incluir em Ophrys fusca (espécie altamente polimorfa) mas que exibiam características muito distintas. Uma delas, a que aparece nas fotos, assemelha-se a uma versão anã da O. fusca; a outra é alta, mais profusa na floração, e prevê-se que tenha um polinizador distinto. Para a primeira, Lowe e Tyteca propuseram a designação Ophrys pintoi, homenageando o botânico português António Rodrigo Pinto da Silva (1912-1992); à segunda chamaram Ophrys lenae, aludindo o epíteto específico ao rio Lena, da serra dos Candeeiros, onde foi colhido o holótipo da nova espécie.


Pinheiros-mansos (Pinus pinea L.) no Horst de Cantanhede

Vimos muitos exemplares de O. pintoi no Horst de Cantanhede, durante uma saída de campo organizada pela AOSP (Associação de Orquídeas Silvestres - Portugal). Ali o solo é branco de tanto calcário, margoso e escorregadio, a entremear rochas com belos fósseis do Jurássico. O horst é um pedaço longo de terra, do Zambujal até Lemede, que se ergueu quando apertada por duas placas da crosta da Terra que chocaram, provocando um desfasamento do chão. A fauna e a flora deste raro ecossistema, e a sua importância geológica e paleontológica, justificam e exigem dos responsáveis um programa de conservação exemplar.