20.1.15

Erva das feridas


Stachys palustris L.

Se um botânico com um conhecimento enciclopédico da flora europeia fosse largado, sem instrumentos de orientação, num bosque ou prado algures na Europa, ele deveria ser capaz, observando o mundo vegetal à sua volta, de indicar com razoável aproximação o país e a província onde se encontrava. Claro que, para o teste ser viável, teria que se tratar de uma zona pouco ou nada alterada pelo homem, sem espécies introduzidas que tivessem roubado espaço às plantas indígenas. Também conviria que as plantas observadas fossem as mais frequentes e características da região em causa, pois um nicho ecológico pejado de raridades poderia induzir conclusões erradas. Se, por exemplo, esta Stachys palustris estivesse visível, então o nosso botânico poderia deduzir, com alguma segurança, que não se encontrava em Portugal. A espécie está, de facto, presente no nosso país, mas de um modo tão escasso e residual que a probabilidade de darmos de caras com ela por acaso é ínfima. Indica Franco na Nova Flora de Portugal que ela ocorre apenas no Baixo Mondego, o que é confirmado pelo único registo da espécie no portal Flora On. Sabedor dessas circunstâncias, o nosso povo, segundo a Flora Iberica, ter-se-á apressado a chamar-lhe rabo-de-raposa-do-Baixo-Mondego. É um nome tão quilométrico que até cansa pronunciá-lo, mas felizmente são raras as oportunidades para o fazer.

No resto da Península Ibérica, a Stachys palustris é pouco frequente, estando confinada ao extremo norte ou nordeste, mas se ultrapassarmos os Pirenéus o caso muda de figura: na Europa central e nas ilhas britânicas ela é ocupante habitual de bosques e terrenos húmidos, valetas, margens de rios e até orlas de campos cultivados. Observando que a planta da foto se abrigava numa mata de avelaneiras (Corylus avelana), fazendo-se acompanhar por herbáceas como Anemone nemorosa, Ajuga reptans e Lysimachia nemorum, e fetos como Dryopteris dilatata, talvez o nosso botânico apostasse que se encontrava na ilha de Sua Majestade. E foi na verdade em Loder Valley, uma área de reserva natural gerida pelos Kew Gardens, que estas imagens foram captadas em Agosto de 2009.

Não sendo macia e felpuda como a teutónica Stachys germanica, que apesar do nome é abundante nos calcários do centro e sul de Portugal, a Stachys palustris, se atentarmos nela com imparcialidade, leva clara vantagem na beleza das flores. Destoando da família que integram, e que inclui tomilhos, lavandas e oregãos, as plantas do género Stachys são pouco ou nada olorosas, falha compensada pela farta produção de néctar que as torna muito populares entre as abelhas. Marsh woundwort é como chamam os anglo-saxónicos à Stachys palustris, o que denuncia antigos usos medicinais. De floração estival, é uma herbácea perene, rizomatosa, dotada de hastes não ramificadas capazes de atingir uns 70 cm de altura.

6 comentários :

bea disse...

Creio que não tínhamos sido apresentadas. Que maleitas curaria?

ZG disse...

Sim, ainda há poucos anos esta bela planta era colhida para o Index Seminum de Coimbra (do qual constava ainda em 2009) nos arredores da cidade: arrozais de S. Facundo, no baixo Mondego, efectivamente.

Paulo Araújo disse...

E deixou de ser colhida porque desapareceu desse local?

ZG disse...

Caro Paulo,
É uma boa pergunta, sem dúvida.
A planta pode muito bem continuar a existir no mesmo local, quem sabe?
O Index Seminum é que parece ter já passado à História...
Aqui fica a última edição, de 2013:
http://www.uc.pt/jardimbotanico/ficheiros/index_seminum_2013
E é pena, porque assim há um vasto e tradicional conhecimento botânico que se vai perdendo…
Mas enfim, ao menos resta-nos a gloriosa Flora On para irmos de alguma forma arquivando estas pequenas pérolas da nossa flora garrida e tão rica, como disse o saudoso e ilustre A.R. Pinto da Silva, na sua excelente Flora da Serra de Sintra (1989)!
Abraço,
ZG

Paulo Araújo disse...

Caro ZG:
Muito obrigado pela resposta. É pena que uma coisa tão útil como o Index Seminum tenha deixado de ser feita. Mas, se o Jardim Botânico da UC deixou de ter colectores, este desfecho era inevitável.
Abraço,
Paulo

ZG disse...

Sim, é verdade, uma pena, de facto... mas pelo menos, de alguma forma, a Botânica continua bem viva - por exemplo neste excelente blog!!