3.1.15

O regresso dos limónios



Limonium vulgare Mill. [ou talvez não]

Dizem que os Açores hão-de ser dos destinos turísticos mais badalados em 2015. Para aumentar a atracção invocam-se chavões equivocados como «sustentabilidade» e «natureza em estado puro», tudo isto ilustrado com plantações de criptomérias, pastagens verdejantes onde ruminam vacas, estradas sublinhadas pelo azul das hortênsias, bordos de cratera invadidos por conteiras floridas. Promoção equivalente em Portugal continental seria celebrar a natureza pura e intocada dos eucaliptais e das matas de acácias. Por cá tal aldrabice ver-se-ia rapidamente desmascarada, mas os açorianos levam décadas de atraso no reconhecimento e valorização das suas plantas autóctones e da sua floresta ancestral. Que motivos haverá para mudar de atitude quando o status quo conquista prestigiosos galardões internacionais? E nós próprios, invariavelmente resmungões, havemos em 2015 de voltar, encantados, às mesmas ilhas que sabemos terem sido adulteradas além de qualquer esperança de recuperação. É como um casamento em que os defeitos do parceiro são cada vez mais evidentes sem que isso diminua o afecto recíproco.

Enquanto vamos contando os meses, ficamo-nos por um regresso virtual ao arquipélago, para mostrar uma das plantas de lá que ainda aqui não tinha marcado o ponto. Ou talvez já o tenha feito, mas através de exemplares fotografados nesta banda. O que se passa é que o limónio açoriano tem uma ecologia completamente distinta da dos limónios continentais que alegadamente pertencem à mesma espécie: nos Açores é uma planta de falésias costeiras, ao passo que por cá vive obrigatoriamente em sapais e prados halófilos periodicamente inundados pelas marés. Ou seja, nas ilhas, com tanto mar à volta, a planta recusa molhar o pé, admitindo apenas refrescar-se com uns salpicos de água salgada. Seria demasiado atrevimento para botânicos amadores como nós afirmar que as duas estirpes, a continental e a insular, se distinguem igualmente pela morfologia, mas vai sendo tempo de os especialistas tirarem o assunto a limpo. De facto, já houve uma tentativa de elevar o limónio açoriano à categoria de endemismo do arquipélago, sob o nome de Limonium eduardi-diasii, mas a dita combinação (referida na 2.ª edição, de 2005, do livro Flora of the Azores - A Field Guide de Hanno Schäffer, e também na Lista de Referência da Flora dos Açores, publicada em 2010 pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores) não parece ter sido objecto de publicação válida.

O limónio açoriano tem folhas grandes, de uns 15 cm de comprimento, e floresce vistosamente de Maio a Setembro. Não o faz com igual intensidade em todas as ilhas, e só parece ser fácil de encontrar em Santa Maria, onde de facto é muito comum ao longo de todo o perímetro costeiro. Está contudo referenciado em quatro ilhas mais: São Miguel, Terceira, Pico e Corvo.

Para complicar o estudo dos limónios em território português, um estudo de 2012 (Estudio de los taxa afines a Limonium vulgare Miller de marismas de Portugal continental, tese de mestrado de Ana Cortinhas defendida na Universidade de Valência) estabeleceu que, além do Limonium vulgare propriamente dito, ocorrem por cá dois outros limónios de aspecto semelhante e com as mesmas apetências ecológicas: são eles o L. humile e o L. narbonense, o último não menos abundante que o L. vulgare e com ele coexistindo amiúde. Parece que nisto dos limónios a Flora Iberica (o volume em causa é de 1993) se esforçou por empobrecer a flora portuguesa, pois a existência por cá de pelo menos duas espécies de limónios de folhas grandes já tinha sido referida no 1.º volume (de 1971) da Nova Flora de Portugal (ainda que Franco tenha usado o nome L. serotinum, sinónimo de L. narbonense).




Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon

O Limonium binervosum, de que já aqui falámos, fornece outro exemplo de como a Flora Iberica representou um retrocesso no conhecimento da distribuição deste género em Portugal. Excluído dessa obra de referência mas incluído, muito acertadamente, na Nova Flora de Portugal, o L. binervosum está de boa saúde no nosso país, ocorrendo em areias e falésias costeiras desde (pelo menos) São Jacinto (Aveiro) até Salir do Porto (Caldas da Rainha), como se verifica no mapa de distribuição que consta desta recente tese de doutoramento1 (PDF). As plantas das fotos viviam na Gafanha da Boa Hora, na ria de Aveiro, mas parte da população poderá entretanto ter sido destruída com a recente construção de uma "ecopista" no local.


1 Ana Sofia Róis - Strategies for Conservation of Rare and Endemic Species: Characterization of Genetic and Epigenetic Variation and Unusual Reproductive Biology of Coastal Species from Limonium ovalifolium and Limonium binervosum Complexes (Plumbaginaceae) - Instituto Superior de Agronomia, 2014

1 comentário :

M.Manuela Carvalho disse...

O vosso blog consola-me!

Tudo o que publicam não é bom - é excelente!! Aprendo muito e saboreio, leio e releio, devagarinho, e guardo!

Este artigo devia ser lido por todos os açorianos e não só!

Obrigada!!