6.1.15

Papoila dos picos



Papaver argemone L.

Há uns anos, numas férias de Verão na quinta dos avós no Douro, andávamos nós, ainda crianças, a apanhar cristais de quartzo que a abertura de uma estrada tinha posto a descoberto quando reparámos num terreno em pousio pintalgado por centenas de flores com quatro pétalas alaranjadas que pareciam feitas de papel enrugado. Colhemos umas tantas, tão sedosas e frágeis que receámos que chegassem a casa desfeitas. Exibindo o nosso troféu, ouvimos um estranho sermão sobre a natureza fingidamente pura e a sedução das plantas perversas. As lindas papoilas eram afinal fonte de vício, fantasia e torpor, incompatíveis com uma existência saudável. Pedimos detalhes, que foram prontamente negados; era demasiado arriscado revelarem-nos, inocentes mas prontos para a aventura, os efeitos de tais tentações do mal.

O castigo por sermos nessa altura tão ignorantes foi uma sentida desilusão com o campo e um receio paralisante de tudo o que o compunha. Hoje sabemos que há várias espécies de papoilas, que as sementes de algumas delas até são usadas em culinária e que só a Papaver somniferum, não se sabe muito bem se exótica ou nativa no nosso país, é origem da morfina, da heroína e do ópio. É da espécie P. rhoeas que derivam quase todos os cultivares ornamentais, com fantásticas corolas matizadas de rosa, cinza, azul e carmim. Em Portugal são seguramente nativas cinco espécies, das quais a P. rhoeas parece ser a mais abundante e a P. argemone a que menos vezes é avistada, e quase sempre na região nordeste do país. São polinizadas por insectos que, dizem os entendidos, gostam de comer o pólen. As várias espécies distinguem-se bem através dos frutos, uns mais longos outros mais arredondados, uns glabros outros com espinhos, embora todos encimados por uma tampinha estriada com o que restou do estigma da flor.

O epíteto argemone deriva da palavra grega que designa «uma mancha branca ao centro», que alguns lêem como aludindo às cataratas que esta planta supostamente cura. Por causa dessa fama e da existência do género Argemone, terá havido confusão, no uso em farmacopeia popular, entre a Papaver argemone e a Argemone mexicana, esta realmente tóxica. Dessa vez, a culpada do desastre não foi a papoila.

2 comentários :

bea disse...

Tão bonitinhas as breves papoilas de alegria.

BOM ANO de 2015!

Maria Carvalho disse...

Um ano excelente para si também.