24.3.15

Espinhos de São Vicente



Apesar de o sudoeste alentejano e a costa vicentina pertencerem à rede de áreas nacionais protegidas e nela ocuparem um lugar de destaque, não conhecemos nenhum guia português das plantas dessa região com chaves esclarecedoras para quem queira identificar o que observa (o livro 200 Plantas do SW Alentejano & Costa Vicentina, publicado em Dezembro de 2014, é apenas uma listagem muito incompleta e pouco criteriosa da flora da região). Há, porém, um Field guide to the wild flowers of the Algarve, elaborado por dois botânicos da Universidade de Bristol e publicado em 2014 pelos Royal Botanical Gardens, de Kew. É uma obra em inglês que dedica idêntica atenção a endemismos vicentinos ou da Península Ibérica (como o Narcissus gaditanus, que descreve como semelhante ao N. bulbocodium), a plantas que encontramos quase em qualquer esquina (como a Scabiosa atropurpurea, que aliás ilustra a página do título) ou a plantas exóticas invasoras. Contém ainda alguns erros fotográficos, mas é a ajuda que temos em papel. Se o leitor é dos que se faz sempre acompanhar por um computador com ligação à internet, tem uma opção melhor: (a) abra o Flora-On e assinale na coluna da direita o atalho de pesquisa geográfica; (b) o país aparece-lhe então em três modelos, e pode escolher o que indica as áreas da Rede Natura 2000; (c) se seleccionar a da costa vicentina, receberá informação detalhada, com imagens, sobre quase toda a flora dessa região.

A estrada que liga Sagres ao cabo de S. Vicente termina nas falésias, amarelas do material margoso compactado, meio calcário meio arenoso, que as compõe. Perto do farol a inclinação é muito acentuada, mas permite uma descida de alguns metros que nem todos os visitantes arriscam. Logo no topo podem ver-se umas almofadas densas com flores brancas de quilha (cerca de 10 mm) e estandarte (perto de 15 mm), folhas compostas cuja ráquis termina num espinho, de faces penugentas e tom verde-cinza - e nem é preciso um guia da flora para sabermos que se trata da estranha leguminosa de que, em Portugal, só há registos na Península de Sagres.



Astragalus tragacantha L.

Este Astragalus ocorre em França (e o holótipo é de Marselha, antiga Massilia, por isso já se chamou Astragalus massiliensis) e nuns poucos habitats junto ao Mediterrâneo e no nordeste de Espanha. Quanto a designações vernáculas, a Flora Ibérica regista em português a expressão alquitira-do-Algarve (ou alcatira, cuja origem os dicionários atribuem ao árabe al-kathirá), e em catalão o malicioso cuxins de monja. O epíteto específico, tragacanthus, é o nome latino dado às leguminosas com espinhos que produzem uma goma designada por adraganta ou tragacanta.

2 comentários :

Anónimo disse...

É pena que o "primo" Astragalus algarbiensis se tenha perdido algures na região. Há mais de 170 anos que não é visto e a sua localidade clássica sofreu um tremendo desenvolvimento urbanístico desde então (arredores de Faro, 1847). Ao menos este Astragalus teve a sorte de viver num recanto (quase) intocado do Algarve.
André Carapeto

ZG disse...

Mais uma maravilha vicentina!!