21.3.15

Um segredo do Barrocal



Globularia alypum L.

A menos que sejam reforçadas por obstáculos naturais difíceis de transpor, por exemplo rios de grosso caudal como o Douro ou cadeias montanhosas como os Pirenéus, as linhas de fronteira não têm grande significado para as plantas. Excepto talvez para aquelas do género Globularia, que revelam inexplicável relutância em cruzar a fronteira luso-espanhola. São nove as espécies assinaladas na Península Ibérica, mas só duas delas mantêm, e com fraco empenho, pequenas delegações em território português. A primeira é a Globularia vulgaris, que existe em dois ou três locais da serra de Aire, sempre em bermas de estrada, talvez à espera de boleia que a leve daqui para fora, e reaparece escassamente no lado português do Douro internacional, contemplando saudosa a margem oposta do rio que nunca deveria ter atravessado. A segunda é a Globularia alypum, abundante na costa mediterrânica espanhola mas limitada no nosso país a uma única e muito pequena população no Barrocal algarvio. Essas 20 ou 30 plantas ao cimo de uma encosta seca revestida por tomilhos vários foram descobertas em 1995 por Carlos Pinto Gomes, fazendo então a Globularia alypum a sua entrada oficial na flora portuguesa. A notícia, porém, não foi a tempo de ser incluída na Flora Ibérica, apesar de o vol. XIV, onde consta o capítulo sobre o género Globularia, ter visto o prelo seis ou sete anos mais tarde, em Dezembro de 2001. Agora que a vimos e fotografámos, coisa que nunca teríamos conseguido sem a amabilíssima ajuda do André Carapeto (que sobre a planta escreveu este informativo texto), acreditamos que a G. alypum, mesmo que não consiga ou não queira expandir-se no Algarve, está segura num recanto que parece a salvo de perturbações, pois não é sítio de passagem para ninguém nem é propício ao pastoreio.

Se se assemelham nos capítulos florais de um azul intenso, cada um deles reunindo dezenas de minúsculas flores, já no aspecto geral as duas globulárias portuguesas não podiam ser mais contrastantes: a G. vulgaris é uma herbácea que durante boa parte do ano fica reduzida a uma roseta de folhas basais; a G. alypum é uma planta lenhosa muito ramificada que pode atingir um metro de altura, com folhagem perene que facilmente se confunde com a do Osyris lanceolata, arbusto hemiparasita comum no Algarve. Contudo, mesmo na ausência de flores ou de frutos (os do Osyris lanceolata são drupas avermelhadas), os dois arbustos podem diferenciar-se pelo porte (o O. lanceolata é mais avantajado) e pelo facto de a G. alypum apresentar os ramos claramente estriados.

Falando de flores, eram poucas as que havia para admirar nos pés de G. alypum que pudemos observar, e de facto já sabíamos pelo André que a floração se concentrava no período de Dezembro a Janeiro. Mas, a acreditar no testemunho da Flora Ibérica, nos outros países onde a espécie se distribui as flores podem acontecer-lhe em qualquer altura do ano.

2 comentários :

bea disse...

Ter a coragem de florir em Dezembro e Janeiro e ser esplendidamente azul são dois bons motivos para a gostarmos.

Anónimo disse...

Fico feliz que tenham conseguido observá-la em floração. Este é um dos verdadeiros "cromos raros" da nossa flora. Cá por baixo temos bastantes à vossa espera. Têm mesmo de regressar.
André Carapeto