2.5.15

Mercúrio no pinhal



Mercurialis elliptica Poir.

A biodiversidade vegetal de um lugar mede-se pelo número de espécies que nele se encontram, mas usar este parâmetro no seu sentido estrito, desligado de outras considerações, pode conduzir a resultados estranhos. Chegaríamos por exemplo à conclusão de que a civilização humana, em lugar de depauperar a biodiversidade, tem muitas vezes o efeito aparente de a reforçar. Uma encosta xistosa revestida de tojos, urzes, giestas e carqueja, como há muitas no norte de Portugal, ostenta menor variedade de plantas do que os canteiros desmazelados que é costume encontrar nas nossas cidades. E não me refiro às plantas que os jardineiros municipais (se é que eles ainda existem) lá puseram, mas àquelas que se instalaram pelos seus próprios meios. Também os taludes das estradas, habitats artificiais por excelência, podem concentrar uma diversidade vegetal muito superior à de certos bosques que nos parecem bem conservados.

O fenómeno dos lugares alterados com uma vegetação rica deve-se, em primeiro lugar, à abundância de nutrientes como azoto, potássio e fósforo. Esse enriquecimento do solo é muitas vezes acidental, resultando do pisoteio ou da deposição de dejectos, enquanto que outras vezes (como sucede em campos abandonados ou em pousio) é consequência directa da actividade agrícola. Não é surpresa que sejam muitas e muito diversas as plantas atraídas ao banquete. Contudo, estas plantas oportunistas, além de serem dotadas de um apetite invejável, devem ser capazes de crescer, florir e lançar semente num curto lapso de tempo, pois tais lugares humanizados são palco de frequentes perturbações. As plantas sem essas qualidades de adaptação acabam por desaparecer dos lugares ruderalizados. Assim, o que vemos num relvado, no talude de uma estrada suburbana ou na orla de um campo de cultivo pode ser um rico elenco de espécies vegetais, mas são quase sempre as mesmas e nem sequer faria grande diferença se estivéssemos noutro país da Europa ou até em alguma ilha dos Açores. Um incremento da biodiversidade local, com dezenas de espécies em poucos metros quadrados, traduz-se na verdade por uma homogeneização e um empobrecimento globais.

Todos os amadores de plantas têm presente este dicotomia, valorizando muito mais as espécies distintivas dos habitats naturais (que podem ou não ser raras) do que aquelas todo-o-terreno que frequentam assiduamente os habitats artificializados. Contudo, para mostrar que as coisas nunca são a preto e branco, há plantas de distribuição restrita (os tais preciosos endemismos) que de facto preferem fazer a casa em lugares degradados. O exemplo mais paradigmático é a Scrophularia grandiflora, uma planta ruderal (há que dar nome aos bois) que é endémica de Coimbra e arredores.

Não estou certo de que a Mercurialis elliptica encaixe nesta categoria paradoxal dos endemismos ruderais. O género Mercurialis inclui indiscutíveis espécies ruderais como a vulgaríssima M. ambigua, e as fontes consultadas (Nova Flora de Portugal e Flora Ibérica) concordam em atribuir à M. eliptica idêntica preferência por habitats adulterados. Contudo, na nossa visita ao Algarve vimos a M. eliptica num único local, no pinhal do Vale do Garrão, longe dos caminhos mais calcorreados pelos veraneantes, a poucos metros do tomilho-carnudo e de outras especialidades da flora algarvia. É injusto a M. eliptica ser acusada de ruderal sem que o mesmo vício seja imputado às suas companheiras. Menos controversa é a constatação de que ela tem uma distribuição global muito restrita, ficando-se pelo sul da Penínunsula Ibérica e por Marrocos, e de que a sua presença em Portugal, a julgar pelo número de registos no portal Flora On, é cada vez mais esporádica.

A terminar, eis alguns detalhes morfológicos. A Mercurialis elliptica, que tem base lenhosa e forma pequenas moitas de uns 50 a 60 cm de altura, distingue-se das suas congéneres por ser inteiramente glabra (a M. ambigua, por exemplo, tem as margens das folhas ciliadas) e por ter folhas coriáceas, com margens distintamente crenadas.

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