27.6.15

A rosa da Sertã


Rosa micrantha Borrer ex Sm.

Se a faculdade de nos rirmos não derrete com o calor, então podemos achar graça a quem resolveu chamar Sertã a uma das vilas mais quentes do país. A Sertã já ferve ao lume? Ah Ah Ah, pois é... E soltamos um esboço de riso enquanto enxugamos a testa com o lenço ou abanamos debilmente o jornal à frente do rosto. A piada não nos parece das mais conseguidas e nem moramos na Sertã, aconteceu-nos apenas passar por lá quando a Primavera ensaiava prematuramente para ser Verão. Quem mora na Sertã já lhe sofre as temperaturas, não precisa de juntar ao desconforto físico o embaraço de um trocadilho requentado.

É com o calor que se dá o fenómeno atávico de o homem se transformar num animal anfíbio, como que querendo regressar ao berço ancestral de onde a evolução o expulsou. As terras escaldantes do Pinhal Interior Sul são abençoadas com rios e ribeiras que serpenteiam nos seus leitos de xisto por entre montes cerradamente preenchidos com pinheiros e eucaliptos. Onde as estradas se cruzam com os cursos de água aparecem inevitavelmente as praias fluviais, que não precisam de areia para serem assim chamadas, bastando que seja fácil o acesso à água. A ribeira da Sertã (com 75 Km de extensão) e a ribeira da Isna (45 Km) têm, cada uma delas, pelo menos uma dezena desses oásis de Verão, em que a língua mais falada entre os que mergulham de chapão ou se deixam estar com água pela cintura é (oh lá lá) o francês. Não sendo função deste blogue fornecer dicas de veraneio, dispensamo-nos de listar as melhores praias fluviais da Sertã e arredores. Para quem se interessa por plantas, é nos leitos rochosos destas ribeiras ou entre o arvoredo das suas margens que se concentram as surpresas botânicas, quando já pouco sobra para ver nos montes ocupados por monoculturas florestais ou ressequidos pela estiagem. O único inconveniente é estarmos vestidos da cabeça aos pés e de máquina fotográfica em punho no meio de tanta gente que só quer ir a banhos. O melhor mesmo é fazer as duas coisas: botanizar sem esquecer de mergulhar.

Ao contrário das rosas de jardim, que vão agora dando início à sua temporada de glória, as rosas silvestres já não estão em flor. Nem parece crível que estas flores de cinco pétalas hesitando entre o branco e o rosado tenham algum parentesco com aquelas coisas túrgidas e farfalhudas, de cores variadíssimas, cultivadas em geométricos canteiros de buxo. Esta rosa da Sertã, fotografada junto à ribeira com o mesmo nome mas existente em muitos pontos do país e em grande parte da Europa, não é porém muito diferente das rosas espontâneas que foram domesticadas e combinadas ao longo de séculos para darem origem às milhares de variedades ornamentais que hoje se conhecem. Mas há que levar o assunto com cautela: para quem insiste em dar os nomes certos às plantas espontâneas, dizer que as rosas não são muito diferentes umas das outras é um eufemismo dos mais atrevidos. A proliferação de híbridos e de micro-espécies, as difusas fronteiras entre espécies oficialmente distintas, a subtileza dos caracteres diagnósticos - estas e outras dificuldades tornam o género Rosa praticamente inacessível aos não especialistas. É muito provável que a planta das fotos seja a Rosa micrantha, e isso vê-se não tanto pelas flores (apesar do epíteto micrantha, elas não são de menor tamanho do que as de espécies próximas) mas mais pelos espinhos (4.ª foto), que têm a ponta claramente arqueada e a base decorrente. Também os pêlos glandulosos que revestem cálices, pedúnculos e folhas parecem estar nos sítios certos. Contudo, se em vez da Rosa micrantha for outra coisa qualquer, também não teremos falhado o alvo por muito. Valeu a pena, pois há quase cinco anos que aqui não era vista uma rosa.



ponte das Cabras sobre a ribeira da Sertã

3 comentários :

Rafael Carvalho disse...

Sendo um mero amador, já me tinha apercebido da dificuldade na identificação das nossas rosas espontâneas. As suas palavras confirmam as minhas suspeitas.
Um abraço.

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelo comentário, Rafael, e um abraço.

bea disse...

tão bonitinha a rosa silvestre. E, sob os arcos, a frescura da ponte das cabras.