7.7.15

Costa do dragão

Uma espécie diz-se um endemismo quando só há populações silvestres dela num local restrito do planeta. Se a área onde ocorre a planta não é assim tão diminuta, diz-se que é nativa dessa região (é inapropriado falar de "endemismos europeus" ou, pior ainda, de "endemismos euro-asiáticos"). Na prática, como se atestam estas propriedades? Actualmente, com os meios tecnológicos ao dispor da genética, é mais simples destrinçar espécies; além disso, reconhece-se que a criação de endemismos é favorecida por habitats biologicamente isolados, pela radiação adaptativa, pela hibridação ou pela poliploidia. E, portanto, os botânicos sabem onde procurar endemismos. Mas há um problema intrínseco à definição anterior: ser ou não endémico é um estado que evolui com o tempo. A análise de fósseis tem revelado que algumas plantas, hoje consideradas endemismos de ilhas ou desertos, tiveram em outras eras uma distribuição muito mais ampla, foram quase cosmopolitas. Porém, com as alterações geológicas e do clima, ou por outras causas desconhecidas, extinguiram-se em quase todos os habitats, e as parcas sobras recolheram-se aos seus nichos de conforto.


Dracaena draco (L.) L.

Vem este arrazoado a propósito do dragoeiro (Dracaena draco). Recordemos que é uma árvore perenifólia (e muito longeva: há referências - talvez exageradas - a dragoeiros com seis mil anos) que se reconhece facilmente pelas folhas cinza-verde-azuladas, embora avermelhadas na base, com formato de espada; ou pela ramagem que se arranja numa coroa de cabelinho espetado; ou ainda pelo um tronco peculiar, cilíndrico, rugoso e dividido em muitos caules, que se dispõem como varetas de um guarda-chuva. (Com estes dados, consegue o leitor detectá-lo nas próximas fotos?) As inflorescências são terminais e paniculadas, com flores verdes ou brancas que só surgem quando a planta tem 10 a 15 anos, e que regressam periodicamente com intervalos de igual duração - curiosamente, o tronco ramifica-se só quando se dá uma floração, o que permite estimar a idade dos espécimes com alguma fiabilidade. O fruto é uma baga pequenina, comestível e doce, da cor da toranja. Entre os séculos XV e XIX, os portugueses extraíram da resina do dragoeiro uma substância vermelha corante, de preço elevado, usada em tintas, vernizes e produtos farmacêuticos.



Em estado silvestre, o dragoeiro é, hoje, uma planta muito rara. Embora se cultive em jardins de Portugal continental há vários séculos (diz-se que foi de um jardim de Lisboa que Lineu obteve, pela mão do botânico Domenico Vandelli, o material que lhe permitiu descrever a espécie), e se tenha naturalizado rapidamente em muitos outros locais de clima quente (porque as suas bagas são alimento preferido de vários pássaros), o habitat natural do dragoeiro restringe-se a escarpas rochosas à beira-mar, frequentemente inacessíveis, e a algumas florestas de Pittosporum. Pois bem: vimos os dragoeiros das fotos na ilha das Flores, e sabe-se que ele ocupa lugares semelhantes no Faial, mas há dúvidas de que o dragoeiro seja nativo destas ilhas. Por exemplo, Amaral Franco não o inclui na sua Nova Flora de Portugal, que decerto pretendeu completa sobre a vegetação do continente e dos Açores.

Mas, afinal, o dragoeiro é um endemismo de que locais? Segundo G. Lopez González, em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, o fruto do dragoeiro terá chegado a uma das ilhas Canárias vindo de África (Marrocos ou Cabo Verde), transportado por aves. Ter-se-á daí disseminado para as demais ilhas das Canárias e para os outros arquipélagos da Macaronésia, ou seja, Açores e Madeira. E Carlos Aguiar revela aqui que a intersecção dos conjuntos de plantas com flor nativas dos arquipélagos de Cabo Verde, Canárias, Madeira e Açores se reduz a uma espécie, precisamente a Dracaena draco. Tendo em conta estas informações, e os testemunhos do médico alemão H. Muntzer (que, em 1494, reportou a existência de florestas de dragoeiros na costa do Faial) e do navegador italiano A. Cadamosto (que, em 1455, o descobriu na ilha de Porto Santo, onde hoje está extinto), é talvez de aceitar uma destas alternativas:

1. O dragoeiro é um endemismo do norte de África e da Macaronésia (onde se confinou depois de ter uma distribuição vasta na Europa e na região mediterrânica, por estas ilhas beneficiarem de um clima ameno que não sofreu variações drásticas ao longo das eras).

2. O dragoeiro é nativo de África, tendo-se naturalizado nas ilhas atlânticas da Macaronésia.

O que parece certo é não termos razões científicas para acreditar na seguinte versão defendida por várias Floras:

3. O dragoeiro é um endemismo das Canárias, Madeira, Cabo Verde e Marrocos.

Seria bem-vinda uma comparação genética dos dragoeiros açorianos (que vivem em ambiente muito chuvoso) com os dos outros habitats (alguns quase desérticos), para se esclarecerem estas dúvidas e se formar um juízo convincente. Antes disso, porém, precisamos de formar botânicos alpinistas.

5 comentários :

bea disse...

Os dragoeiros são plantas muito peculiares, mas não sei se alguém se torna alpinista por amor à espécie e seu estudo comparado. Talvez esperar que o acaso junte no mesmo ser o botânico e o alpinista e o amor ao estudo de dragoeiros. Já aconteceram outros improváveis.

Francisco Clamote disse...

Se fosse mais novo, candidatava-me. Saudações amigas.

Anónimo disse...

https://es.m.wikipedia.org/wiki/Drago_de_Icod_de_los_Vinos

Anónimo disse...

O tal dragoeiro velho (Icod de los Vinos) tive o gosto de o ver ao vivo e, claro, fotografá-lo.
Mas há um muito belo e enorme no Jardim da Estrela, em Lisboa.
Se "escalarmos" as ideias, encontramos tantas coisas que se ligam e interligam!
Abç da bettips

ZG disse...

Mais um post muito bonito e interessante, com um arbusto realmente extraordinário!
Quanto à definição de “endemismo” ou “endémico” parece ser simplesmente nativo ou indígena de … e não necessariamente exclusivo de …:
«The word endemic is from New Latin endēmicus, from Greek ενδήμος, endēmos, "native."»
(https://en.wikipedia.org/wiki/Endemism)
Em relação a ser «inapropriado falar de "endemismos europeus" ou, pior ainda, de "endemismos euro-asiáticos"», no entanto, queria sugerir a consulta da
Flora Europaea, da
Nova Flora de Portugal (de J.A. Franco & M.L. Rocha Afonso) ou da
The Euro+Med PlantBase (http://ww2.bgbm.org/EuroPlusMed/explanations.asp), da
Med-Checklist - A critical inventory of vascular plants of the circum-mediterranean countries
http://ww2.bgbm.org/mcl/legend.asp),
ou ainda do seguinte documento, também muito interessante:
http://ec.europa.eu/environment/nature/conservation/species/redlist/downloads/European_vascular_plants.pdf
Saudações botânicas,
ZG