22.9.15

Descomplicar o codesso


Adenocarpus complicatus (L.) J. Gay

Não são muitas as plantas que têm nome genuíno em português; se não as soubermos reconhecer, é a língua que empobrece com as palavras que vão caindo em desuso. Vamos então repetir as vezes que forem necessárias, escandindo pausadamente as sílabas: CODESSO. Os codessos (género Adenocarpus) são diferentes das giestas (género Cytisus), e com um pouco de atenção não custa nada tratar cada coisa pelo nome certo. Os codessos são arbustos mais compactos e arrumadinhos, com folhagem de um verde mais vivo, e as suas flores, dispostas ordenadamente em espigas, têm metade do tamanho das flores das giestas mais comuns. Se na ausência de espinhos e no formato das folhas trifoliadas os dois géneros se assemelham bastante, podemos ainda assim notar que as folhas do codesso têm em regra um pecíolo bem mais comprido e, além disso, são persistentes, enquanto que em muitas giestas a maioria das folhas já caiu por altura da floração. Como último pormenor distintivo podemos atender aos frutos (vagens), que nas giestas são muito variáveis mas sempre mais ou menos penugentos, e nos codessos se apresentam revestidos por glândulas pecioladas de cor castanha (ver 3.ª foto).

Ao leitor não faltarão oportunidades para testar os seus conhecimentos, já que tanto codessos como giestas são comuns em boa parte do território continental. Ambos se apressam a colonizar campos abandonados ou taludes de estrada, fazendo também parte dos matos que se instalam em clareiras de bosques e substituindo o arvoredo nos lugares onde a floresta foi devastada. Se o pastoreio, as queimadas e os incêndios não travassem o processo de sucessão ecológica, esses matos converter-se-iam gradualmente em carvalhais.

A maior complicação associada ao codesso é que a espécie ilustrada nas fotos (justamente o Adenocarpus complicatus) não é a única que ocorre em Portugal. Contudo, as três espécies mais comuns, todas de aspecto muito semelhante, têm distribuições quase disjuntas, o que facilita a tarefa de as identificar: o A. anisochilus, que é um endemismo lusitano, aparece no Algarve e Costa Vicentina; o A. lainzii, tido por endemismo ibérico, surge no noroeste (apenas a norte do Douro, mas incluindo todo o Minho); e o A. complicatus está espalhado pelo interior do país desde a serra de São Mamede até Trás-os-Montes (mas excluindo o Minho). Nada impede, porém, que, com os movimentos de terras das grandes obras ou através de boleias involuntárias (as glândulas tornam as vagens agarradiças), algumas sementes sejam transportadas para longe do seu local de origem. O leitor consciencioso não deverá pois fiar-se por inteiro na geografia ao decidir a que espécie pertence determinado codesso, sobretudo se se tratar de um exemplar solitário. Além do mais, o A. lainzii e o A. complicatus co-existem ao longo da linha que vai do Marão ao Gerês. O único modo seguro de os distinguir é pelo cálice das flores, que no A. lainzii (mas não no A. complicatus) está recoberto por glândulas (foto aqui).

2 comentários :

bea disse...

Muito prazer, senhor codesso, uma criada para o servir.

Vou tentar descodificá-lo das giestas o que não prometo que chamo giesta a tudo que se pareça com tal; e não amofine por via destas confusões, mas é que não sou entendida nem me interessa. Para mal dos meus pecados e do seu nomezinho, digo-lhe que a sabedoria vegetal passa-me um bocadinho ao lado. O que, isso sim, me comove - veja bem, é que comove mesmo -, é a arte natural que emerge de plantinhas como o senhor, acabadinhas ao pormenor. Torneadas por infinita mão de artista.

E posto isto me vou. Fique com Deus que o amarelo é cor que baste ao ser divino.

ZG disse...

Mais uma belíssima planta da nossa flora!