8.9.15

Sabedoria provisória




Hedypnois cretica (L.) Dum.-Courset [sinónimo: Hedypnois rhagadioloides (L.) F. W. Schmidt]

Ninguém pode honestamente declarar-se entendido em plantas enquanto não for capaz de reconhecer uma boa mão-cheia de gramíneas ou não souber destrinçar algumas das inúmeras variações do dente-de-leão. É esse o teste que aplicamos a nós mesmos para nunca perdermos de vista o quanto somos ignorantes. Mas de vez em quanto o nosso amor-próprio revolta-se por se ver tão amarfanhado e, virando-se para nós, diz com a voz sonante de um guru de auto-ajuda: yes, you can. Momentaneamente animados pela exortação, debruçamo-nos sobre uma dessas plantas insignificantes e levamos a cabo demorada sessão fotográfica. Chegados a casa, consultamos livros e portais da Internet para tentar resgatar do anonimato a planta fotografada. Nessa tarefa somos em regra bem sucedidos, mas estamos sujeitos a falhar quando as fotos, nem sempre por inépcia do fotógrafo, não captam os detalhes que permitiriam distinguir entre espécies muito próximas. E, é bom lembrá-lo, há géneros botânicos, como o Taraxacum (reunindo os verdadeiros dentes-de-leão), que não se deixam desvendar por amadores, e às vezes nem por profissionais.

Ainda que essa prática seja algo intermitente, é um facto que ela nos permite ir conhecendo pelo nome muitas das plantas que o vulgo costuma desprezar sob o nome abrangente de "ervas daninhas". Podemos (quem sabe?) ter esperança de que o dia virá em que não chumbemos clamorosamente no teste descrito no primeiro parágrafo. Acontece, contudo, que identificar alguma planta não é o mesmo que sabermos reconhecê-la, e que o nosso cérebro tem lotação limitada: quando nele arrumamos um novo conhecimento, há algum outro que é empurrado para o desvão do esquecimento definitivo. Acima de um certo patamar (ou a partir de certa idade), o saber deixa de ser cumulativo para passar a ser substitutivo.

Uma das plantas que aprendemos recentemente e ainda não esquecemos foi esta asterácea anual da região mediterrânica, Hedypnois cretica, que, pelas folhas e pelos capítulos florais, faz lembrar um dente-de-leão em miniatura. Tal como nos dentes-de-leão genuínos, os capítulos (que neste caso têm menos de 1 cm de diâmetro) são só constituídos por florículos ligulados, enquanto que nos malmequeres os florículos centrais (que formam o disco) são diferentes dos periféricos (que dão as "pétalas"). Porém, ao contrário dos dentes-de-leão, os papilhos do Hedypnois cretica não são plumosos mas sim formados por escamas rígidas (penúltima foto), o que significa que os frutos, em vez de se deixarem levar pelo vento, preferem apanhar boleia agarrando-se à nossa roupa ou ao pêlo dos animais. Outros caracteres distintivos do H. cretica são os pedúnculos engrossados e as brácteas involucrais, que têm forma quase linear e ficam duras e recurvadas aquando da frutificação. É uma planta com um comportamento semi-ruderal, que gosta de locais secos tanto no litoral como no interior, e surge, de modo efémero, durante os meses da Primavera.

3 comentários :

bea disse...

Não consigo distinguir as variedades. E, mea culpa, a muitas plantinhas chamo ervas. Também é verdade que não tive, tenho ou terei pretensões de conhecedora ou mesmo de amadora no mundo das plantas. Aceito-as e gosto-as em geral, aprecio-lhes os torneados, os pormenores estilosos em seres por vezes tão pequenos. E é só.

rui faria disse...

Totalmente de acordo, com as belíssimas palavras, sem dúvida, que muitas plantas se tornam frustrantes porque queremos identificá-las, classificá-las, mas o mundo natural é mais complexo , e ainda bem que assim é, ... Mais empolgante!, e misterioso! Um forte abraço e boas descobertas!

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelo comentário, Rui. Nunca vamos entender a natureza por completo (muito longe disso!), mas com um convívio persistente sempre ficamos com uma ideia mais justa da nossa própria ignorância. Um abraço.