28.11.15

Cravo arrepiado



Dianthus hyssopifolius L. [sinónimo: Dianthus monspessulanus L.]

Poucas vezes falamos de cravos, a não ser talvez para lamentar que o símbolo da liberdade em Portugal seja uma planta de estufa. Os nossos cravos espontâneos, embora sejam presença assídua em afloramentos rochosos de qualquer natureza de norte a sul do país, nunca atraíram o interesse dos horticultores. Se, quarenta anos depois, uma nova revolução nos viesse sacudir do torpor, mais uma vez não haveria nas floristas cravos silvestres para colocar na lapela. E, agora que as flores passaram de moda e a tristeza dos nossos jardins não tem remédio, talvez nem nos lembrássemos de eleger uma flor como bandeira revolucionária.

Não são porém razões políticas que nos levam a não dar a vez (e a voz) aos cravos. É que a tarefa de destrinçar espécies é muitas vezes impossível, como aliás reconhecem os autores da revisão do género Dianthus na Flora Iberica (vol. II, 1990). Raramente nos deparamos com exemplares cuja identificação seja inequívoca, o que sobremodo nos transtorna a organização do arquivo fotográfico. Na Cantábria, o cômputo final foi equilibrado: dos dois Dianthus que fotografámos, um deles foi engrossar as hostes dos não identificados, e o outro é hoje orgulhosamente exibido no escaparate. O Dianthus hyssopifolius, a fazer fé na Flora Ibérica, ocorre em Portugal nas províncias do Minho, Douro Litoral, Beira Alta e Beira Litoral, mas os únicos registos no portal Flora-On reportam-se, em vez disso, a Trás-os-Montes. Se a sua presença no nosso país é residual, as suas abundantes populações no norte de Espanha e noutras regiões montanhosas da Europa mais do que compensam esse défice. Até porque na metade sul de Portugal temos outro cravo, Dianthus broteri, que, pelas suas pétalas igualmente longas e fimbriadas, parece ser obra do mesmo artista.

Herbácea perene, cespitosa, habitante de clareiras de matos, prados alpinos e substratos rochosos, o Dianthus hyssopifolius singulariza-se pelas folhas compridas, às vezes com mais de 10 cm de comprimento, e pelas flores grandes e vistosas, com cerca de 3 cm de diâmetro. A sua floração é sobretudo estival, mas, como acontece com a generalidade dos seus congéneres, pode-lhe acontecer florir esparsamente em qualquer época do ano.

1 comentário :

bea disse...

Bonitinhos, sim. Nem sabia que existiam cravos silvestres. Pois é, anda toda a gente muito ocupada a empedrar os nossos jardins, já quase não existem aqueles caminhos de terra batida que ladeavam os canteiros - cujos tmbém são cada vez menos. Se houvesse, agora, uma revolução? talvez fosse digital:)