26.12.15

Linho rosa, linho branco


Linum viscosum L.

Num artigo de 1862, publicado no Journal of the Proceedings of the Linnean Society, Charles Darwin descreve um pormenor morfológico intrigante das flores do Linum flavum (e também da Primula acaulis): apesar de serem hermafroditas (isto é, com componentes feminina e masculina numa mesma flor), dentro de cada população encontram-se, em números aproximadamente iguais, flores de dois tipos no que diz respeito ao tamanho do pistilo (a parte feminina da flor) e dos estames (a parte masculina). Mais precisamente, em cada planta, todas as flores têm a mesma forma; porém, cerca de metade das plantas da população dá flores com pistilo longo e estames curtos, enquanto as outras dão flores em que estes tamanhos estão trocados, é o pistilo que não se vê no centro da flor por ter estilete curto e os estames que são salientes. Além disso, as flores de um mesmo tipo são geneticamente incompatíveis (ou seja, o pólen de uma flor de um tipo não fertiliza nenhuma flor do mesmo tipo), e portanto é preciso que na polinização intervenham duas flores de formas distintas. O que justifica este requinte?

Primeiro, Darwin julgou tratar-se de uma variação sem significado. Apercebeu-se, porém, de que não havia versões intermédias e de que a presença das duas formas era demasiado regular para ser irrelevante. Conjecturou então que estas espécies estariam a caminho de se tornarem dióicas (isto é, com flores femininas e masculinas em plantas distintas), através de um mecanismo simples: o pistilo curto e os estames de pé pequeno tornar-se-iam cada vez menores até desaparecerem, restando uma flor masculina e uma flor feminina perfeitamente diferenciadas. Contudo, nas experiências que então conduziu, as flores com pistilos curtos polinizadas por plantas com estames também curtos produziam muito mais sementes do que as outras três combinações possíveis. Pouco depois, Darwin concluiu maravilhado que a dupla forma das flores, aliada à auto-incompatibilidade, seria um modo de forçar a polinização cruzada, o esquema de reprodução mais benéfico para quase todas as espécies.

Estarão a pensar, como nós, que essa opção pelo dimorfismo não está isenta de risco: e se os polinizadores não fizerem bem a sua parte da tarefa, levando pólen de estames altos para pistilos curtos, gastando assim o pólen em flores incompatíveis? É verdade que a barreira genética que impede a autogamia é uma aposta arriscada, mas no caso do Linum ou da Primula o processo funciona na perfeição: na fertilização de um ou de outro tipo de flor, a parte do corpo do polinizador que actua é distinta e devidamente ajustada a cada forma de flor.

O género Linum abriga cerca de duzentas espécies nativas de climas temperados. É da espécie L. usitatissimum que se faz a fibra para a fiação (a partir dos talos) e o óleo de linhaça (retirado das sementes). Se se pretende fabricar fibras, os talos não devem ter ramificações e, por isso, o cultivo de linho faz-se em semeadura compacta; se o interesse está no óleo das sementes, então privilegiam-se as plantas mais baixas e ramificadas, que originam mais flores e garantem mais sementes. As espécies que vimos na Cantábria são herbáceas frágeis, mas maiores e de flores mais vistosas do que aquelas que aparecem por cá; usa-se delas apenas a formosura.


Linum suffruticosum L.

1 comentário :

bea disse...

Que beleza de flores.