29.8.15

Damas das searas



Nigella gallica Jord.

A disseminação das plantas dióicas (aquelas com flores unissexuadas, estando as masculinas e as femininas em pés diferentes) é um processo minado de riscos. Talvez por isso quase todas as plantas continentais que colonizam ilhas são monóicas, uma vez que o reencontro no novo habitat de um exemplar masculino com um feminino é uma questão de sorte. Mas as flores hermafroditas também têm uma empreitada difícil. Apesar de as estruturas masculinas e femininas estarem presentes na mesma flor, parece ser-lhes vantajoso activar cada uma no momento apropriado, poupando recursos e optimizando o procedimento que conduz à fertilização. Simplificando, digamos que a flor é sobretudo masculina no início da sua função e depois, até se formar o fruto, é a componente feminina que domina. Por isso, a polinização tem de ser regulada por um mecanismo que permita sincronizar estas fases. Enquanto apronta os sacos de pólen para que este possa ser levado eficientemente pelo polinizador, é preciso que os nectários se vão enchendo, a flor se vá aformoseando e, se possível, perfumando para que os insectos reparem nela. Depois os estames alongam-se, afastando-se da coluna central da flor onde protegeram o estigma, reduzindo desse modo a possibilidade de auto-polinização. Uma vez fertilizada, as sépalas e pétalas perdem a coloração e a flor liberta-se desses adereços, para que o que sobra passe despercebido aos predadores e o fruto se forme em segurança.

É este, em resumo, o ciclo de vida da flor de Nigella. Atentemos aos detalhes da espécie das fotos: as sépalas são grandes, de cor azulada; as pétalas menores, brancas, bilabiadas, com o lábio inferior bífido de ápices claviculados (como pontas de fósforo); os numerosos estames, que se separam na fase masculina da flor; e o estigma ao centro, inicialmente cingido pelos estames. As flores são solitárias e as mais altas são as primeiras a desabotoar, o que leva a crer que os polinizadores tendem a descer perto da haste mas a planta impede-os de encontrar mais flores viáveis, incentivando-os a mudar de pouso e assim garantindo que a polinização é cruzada. O fruto é uma cápsula grande com muitas sementes escuras (detalhe a que alude o nome latino Nigella).

Em Portugal ocorrem três espécies deste género. Todas parecem apreciar solos bem drenados e locais expostos à luz, como sejam searas e outros campos de cultivo. A N. damascena é a mais frequente, com folhas finas e muito divididas (para não perder muita água por evaporação, já que estas são herbáceas anuais de regiões quentes) a envolver a flor, dando-lhe um ar de castelo de conto de fadas ameaçado por silvas perigosas (chamam-lhe damas-entre-verde ou barbas-de-velho). Encontram-se em locais pedregosos de prados, olivais e pomares de sequeiro. A N. papillosa é um endemismo ibérico e, por cá, muito raro: no portal Flora On está registada apenas no Alentejo e nos concelhos transmontonos de Mogadouro e da Alfândega da Fé. A flor tem sépalas azul-violeta, anteras púrpura e um cabelinho denso de folhas. Em Julho, encontrámos junto ao rio Maçãs uns poucos exemplares da terceira espécie de Nigella, que se distingue das anteriores pela folhagem e pelos adornos das flores. A N. gallica é natural do sul de França e da Península Ibérica; as Floras indicam que, por cá, a sua distribuição se restringe à metade norte.

25.8.15

Juncos & sapos


Juncus bufonius L.

Chamar "bom tempo" ao sol impiedoso que nos estraga a pele e ao calor tórrido que alimenta os incêndios de Verão é uma manifestação de masoquismo e de inconsciência. O genuíno bom tempo é esta inesperada chuva de Agosto que promete reverdecer os campos. Sendo cada vez mais as férias um tempo passado à beira da água - seja a água salgada do mar, a água doce dos rios ou a água clorada das piscinas -, é paradoxal a aversão quase generalizada, no mesmo período, à água que cai do céu.

Em doses variáveis, todas as plantas precisam de água. Há aquelas que vivem em ambientes quase desérticos, armazenando com a avareza dos sobreviventes toda a água que conseguem milagrosamente captar. Habituaram-se de tal forma à aridez que uma fartura inesperada de água lhes é quase sempre mortal. No outro extremo, há as plantas que flutuam nas águas de lagos ou de rios e que desaparecem ou entram em repouso vegetativo nos períodos de seca. O junco que apresentamos hoje, sendo claramente hidrófilo, não exige grandes profundezas de água para se instalar: bastam-lhe a borda de um charco ou uma poça num caminho. Tratando-se de uma planta anual, aproveita a estação favorável para tratar da vida, e quando chega a estiagem já produziu sementes para garantir a geração seguinte.

O Juncus bufonius, cujo nome alude aos sapos ou aos lugares paludosos por eles frequentados, é uma planta de poucos centímetros de altura que forma tufos densos e se distingue das suas congéneres pelas flores quase sempre solitárias (foto 3), dotadas de sépalas e pétalas muito pontiagudas (foto 2). Convém aqui ressalvar que, embora tal uso seja correcto, os especialistas não gostam de empregar os termos "sépala" e "pétala" para descrever as peças florais de um junco, preferindo falar dos "segmentos do perianto": há assim três segmentos externos (as sépalas que envolvem a flor antes de ela abrir) e três internos (as pétalas). Quando a flor está aberta, os dois tipos de segmento não são muito diferentes, ao contrário do que sucede com as flores mais "clássicas", onde é clara a distinção entre cálice (formado pelas sépalas) e corola (formada pelas pétalas). Os juncos não são as únicas plantas em que é pequena a diferença entre pétalas e sépalas: as tulipas (e, de um modo geral, todas as liliáceas) sofrem da mesma indiferenciação. As flores dos juncos e das tulipas têm de facto estrutura quase idêntica: seis segmentos do perianto (três externos e três internos, mas de resto pouco diferenciados tanto na forma como na cor), seis estames, ovário súpero equipado com três estigmas. Os juncos, que são polinizados pelo vento, ficaram-se por essa arquitectura básica, despojada de enfeites e atractivos e reduzida ao tamanho mínimo; as tulipas, obrigadas a atrair insectos, engrandeceram as flores, pintaram-nas de cores vistosas e rechearam-nas de néctar.

Talvez não houvesse necessidade de escolher as Flores (Açores) para fotografar esta espécie tão comum em todo o território nacional. Mas foi isso mesmo que fizemos, aproveitando o facto de o Juncus bufonius, em Junho, graças ao clima hiper-húmido da ilha, se apresentar exuberante, com as flores todas abertas criando a ilusão de que ele até se esforça por ser bonito.


Flores: ribeira da Badanela

4.8.15

O charco na pedra



Isolepis setacea (L.) R.Br.

As ciperáceas, como as gramíneas, são feitas para não serem notadas. Mesmo quando cobrem vastas superfícies, a nossa ignorância e desatenção fazem delas uma esbatida imagem de fundo que designamos por nomes imprecisos como "ervas", "juncos" ou "canas". Além de serem pouco chamativas, algumas destas plantas anónimas, em especial os "juncos" (verdadeiros ou falsos), ocupam habitats aquáticos ou paludosos nos quais só com dificuldade conseguimos mover-nos. A planta de hoje até vegeta em lugares acessíveis, mas, pelo seu tamanho diminuto, faz da discrição um ponto de honra. As espiguetas florais, solitárias ou aglomeradas em grupos de duas ou três, têm uns 5 mm de comprimento, e surgem em hastes finas, não ramificadas, de 5 a 20 cm de altura; as folhas, que parecem ausentes, estão reduzidas a bainhas na base dos caules. De entre as três espécies do género que ocorrem nos Açores (todas de ampla distribuição europeia ou até mundial), a Isolepis setacea singulariza-se por as espiguetas parecerem emergir da parte lateral da haste em vez de saírem da extremidade. Contudo, aquilo que parece ser o prolongamento da haste é na verdade uma bráctea, que nesta espécie é muito comprida (pode chegar aos 3 cm) e, quando a planta já está bem desenvolvida (não é esse o caso dos exemplares fotografados), ultrapassa claramente as espiguetas.

As Flores, que são uma esponja em forma de ilha, proporcionam inúmeros recantos favoráveis à instalação da Isolepis setacea. Além do mais, o tamanho exíguo da planta permite-lhe vegetar onde quer que a água se acumule, nem que seja uma poça numa cavidade da rocha. Foi numa pia escavada na pedra, visível na 1.ª foto mas impossível de adivinhar para quem contempla da estrada o maciço erecto da rocha dos Frades, que tivemos ocasião de a observar. Por perto, e aproveitando o abrigo das escarpas para fugir à voracidade de vacas e cabras, havia algumas das especialidades da flora endémica açoriana: Cardamine caldeirarum, Centaurium scilloides, Leontodon hochstetteri, Platanthera micrantha, Ranunculus cortusifolius, Scabiosa nitens. Por muito gratificante que seja encontrar reunidas tantas preciosidades, a sua presença era perfeitamente normal. O que surpreende é o modo como as plantas certas conseguem colonizar micro-habitats isolados como este de dois ou três metros quadrados, em que a acumulação fortuita de água cria uma descontinuidade absoluta com o habitat envolvente. Quem lhes deu (às plantas) notícia de que o lugar lhes convinha, e como chegaram elas até lá?


rocha dos Frades, ilha das Flores

FÉRIAS

Regessamos na última semana de Agosto. Até lá, sugerimos a quem habitualmente nos visita que vá espreitar o recente Wild Iberia.

1.8.15

Ervilhaca-miúda


confluência dos rios Sabor e Maçãs

Desde o fim da Primavera, é junto aos rios e ribeiras nas terras quentes de Trás-os-Montes que a vegetação se aguenta. E, apesar da impressão de secura e aridez que nos aflige quando circulamos pelas estradas, a região tem muitos cursos de água. De caudal magro no Verão, contrastam com o avantajado das pontes, mas ainda assim são refrescantes e têm nas suas margens, ou nos taludes a cotas mais altas, plantas que só ali se dão bem.

O problema é que estes riachos correm por vales cavados, a que só acedemos por descidas acentuadas de alguns quilómetros, sacolejando em caminhos poeirentos onde as covas alternam com pedregulhos. Sem um jipe alto e robusto, ou uma viatura de rali, temos optado por conduzir com um co-piloto-apeado: enquanto um de nós dirige devagarinho o carro pelo piso traiçoeiro, o outro vai à frente para jogar fora do caminho as pedras maiores ou mais aguçadas. Se nos cruzamos com um pastor que empurra ladeira acima uma onda esbranquiçada e peluda (eram ovelhas), fingimos um interesse absorvente pela paisagem até que o grupo desapareça de vista, e só então retomamos a descida cautelosa mas que a outros pode parecer cómica. Na volta, ao fim da tarde, ainda não surgiram pedras novas no caminho, e subimos ambos jovialmente de carro, recompensados pelas novidades botânicas que trazemos lá do fundo.

As novas barragens, porém, têm vindo a resolver eficientemente este nosso problema de percurso. Com a subida das águas, simplesmente afogam os habitats, e já não há nada para procurar nem estradas de terra que valha a pena percorrer. Por exemplo, a nossa lista de lugares formidáveis mas de acesso complicado junto ao rio Sabor era longa e andava sempre com atrasos. Pois bem, o rio engordou recentemente, afogando as margens até mais de quarenta quilómetros a montante da sua foz, e, pronto, o rol de tarefas está quase cumprido. O impacto é, naturalmente, menor a norte da albufeira, em particular no ponto onde ao Sabor se junta o rio Maçãs, em Sampaio, Mogadouro. Foi aí que vimos uma leguminosa pequenina, cuja altura não ultrapassava os 12 cm, e que, soubemos depois, já se designou Vicia minima.


Vicia lathyroides L.

Confirmemos nas fotos alguns detalhes morfológicos. As flores são solitárias, uma ou duas por planta, de estandarte azul-violeta, quilha mais clara e cerca de meio centímetro de largura; surgem entre Abril e Junho (os ingleses chamam-lhe, por isso, Spring vetch). As folhas são alternadas e compostas, de folíolos penugentos com margem inteira, nervura central bem vincada e um ápice que parece o início de uma gavinha que afinal desiste de nascer. A junção da folha ao talo é apoiada por estípulas lanceoladas minúsculas.

Lemos que, embora a flor certamente atraia insectos, a auto-polinização é o esquema reprodutivo que prevalece. A planta, que é anual, produz assim cerca de uma dúzia de sementes comparativamente grandes e com um prazo de validade longo, que guarda dentro de uma vagem glabra e verrugosa. Contudo, não parece possuir um esquema de dispersão eficiente, e é talvez por isso que, em algumas regiões europeias, está no livro vermelho de espécies em perigo. Por cá, parece ter uma distribuição restrita, só havendo registos dela em Trás-os-Montes.

É nativa da Europa, parte da Ásia e Noroeste de África, e dá-se bem em prados (desde que tenham relvado ralo), orlas de matos, solos arenosos húmidos junto à costa, e até em bermas de estrada e muros antigos. O que a ameaça? O seu ciclo, que é curto, o que comporta muitos riscos como já sabemos; as inúmeras alterações do habitat, principalmente no litoral; e, também, a redução das actividades de pastoreio que permitem manter pastos com vegetação rasteira, condição essencial para a Vicia lathyroides sobreviver. Afinal aquelas ovelhas, que balindo pareciam rir do nosso modo receoso de descer a encosta, estavam a trabalhar em benefício dos nossos passeios.