16.1.16

Ovos com chocolate



Hypericum richeri subsp. burseri (DC.) Nyman

Se excluirmos aquelas que são cultivadas para alimentação humana, os hipericões são das plantas que ao longo dos séculos mais têm interagido com o homem. As 490 espécies actualmente reconhecidas no género Hypericum distribuem-se por todos os continentes habitados, e o seu uso tradicional na farmacopeia popular tem vindo gradualmente a ser validado pela medicina moderna. A espécie europeia mais comum, H. perforatum, conhecida em Portugal como erva-de-São-João, pode ser usada tanto no tratamento de depressões como, aplicada externamente, para sarar lesões da pele. Em maior ou menor grau, quase todos os hipericões partilham dessas qualidades medicinais. E, além dos médicos e dos seus pacientes, também os botânicos amadores ou profissionais têm razões para verem os hipericões com bons olhos. Quando chegam a alguma província ou ilha onde nunca estiveram, e se começam a familiarizar com a vegetação local, não tarda que encontrem algum hipericão que nunca antes viram, possivelmente endémico da região. É como reencontrar um velho conhecido com uma indumentária renovada.

Tivemos essa experiência nos Açores, quando travámos conhecimento com o endémico Hypericum foliosum, e voltámos a tê-la nos cumes da Cantábria, quando deparámos com um hipericão que, não ultrapassando a altura de um joelho, se destacava pelas flores grandes e abundantes. Comparado com o hipericão-do-Gerês (H. androsaemum), este hipericão cantábrico (de seu nome completo H. richeri subsp. burseri, endémico da cordilheira cantábrica e dos Pirenéus) apresenta folhas pequenas e hastes não ramificadas, mas em compensação dá flores duas vezes maiores. Habitando fissuras de rochas e ladeiras pedregosas, a sua irrepremível vocação ornamental é bem ilustrada na primeira foto, onde contracena com a dedaleira comum (Digitalis purpurea). Qual o jardineiro que não gostaria de acrescentar uma tão generosa pincelada amarela à paleta de cores do seu rock garden?

Numerosas espécies de hipericão têm as folhas, brácteas, sépalas e pétalas profusamente pontilhadas de negro. Essas glândulas negras segregam hipericina, composto responsável por muitas das propriedades medicinais destas plantas mas que, por tornar a pele anormalmente sensível à luz solar, é nocivo para o gado (e para as pessoas) quando ingerido em quantidade excessiva. O H. androsaemum e o H. foliosum são inteiramente desprovidos dessas glândulas, mas o Hypericum richeri ocupa o outro extremo da escala e, de todos os hipericões ibéricos, é talvez o mais sarapintado (atente-se na segunda foto). É pelo menos o único em que o carpelo está decorado com glândulas negras - o tal ovo com chocolate que se vê na última foto.

1 comentário :

bea disse...

Bom, contemplar a profusão de flores amarelas do hipericão a irromper nos intervalos dos pedregulhos contribui de certeza para afastar pensamentos deslavados. Uma chapada de cor é sempre animadora. E se for natural (para nós é em segunda mão), melhor.