9.1.16

Veneno verde


Veratrum album L.

Entre uma flor grande e colorida e outra verde e minúscula, apostamos que é a vistosa que as abelhas descobrem primeiro. A razão é simples: a folhagem, também verde, tende a encobrir as flores, tornando-as difíceis de detectar pelos insectos; e estes, a quem convém minimizar o percurso entre um abrigo seguro e a comida, guiam-se pelo contraste com a cor das folhas. Com o hábito, os polinizadores dão como certo que as flores mais adornadas são as mais recompensadoras, seja em néctar, em pólen ou noutros serviços. Mas as plantas com flores verdes polinizadas por insectos não desapareceram. O que significa que conseguiram superar essa aparente imperfeição. Realmente, as plantas com flores inconspícuas e/ou de cor parda encontraram meios eficientes para atrair polinizadores, aproveitando-se em particular do facto de que, para a orientação dos insectos, são igualmente importantes o aroma, a abundância de néctar, a altura e o porte da inflorescência. E há mesmo algumas espécies que colocam grandes porções de néctar nas suas folhas para ensinar os polinizadores a colectá-lo em partes verdes da planta. Porém, porque subsiste o risco de por este processo serem atraídos apenas insectos pouco especializados ou mal intencionados, estas plantas mantêm activa a opção de auto-fecundação e algumas são bastante venenosas.

A espécie Veratrum album teve de recorrer a alguns destes expedientes. Perenes e robustas, as plantas desta espécie exibem no Verão inflorescências densas, aromáticas e altas (podem subir a um metro e meio), que se destacam bem nos habitats húmidos de montanha, com vegetação rala, que preferem. Além disso, têm flores estreladas, algumas hermafroditas e outras só masculinas, colocando estas no topo da haste floral e oferecendo em cada uma seis anteras gordinhas de pólen. Desse modo, garantem que mais insectos as procuram -- algumas experiências, como as descritas no artigo The color sense of the honey-bee: the pollination of green flowers, de John H. Lovell (The American Naturalist 46, No. 542 (1912) pp. 83-107), sugerem que, frequentemente, as flores com pólen são as mais visitadas de uma inflorescência -- e pela ordem certa, uma vez que convém à planta que um insecto só visite uma flor feminina depois de recolher pólen numa masculina. Para aumentar as suas chances, são generosas no néctar que servem e formam colónias tão vastas quanto o habitat permite. Apesar do tom geral esverdeado, notamos nas tépalas uns veios de tonalidade verde mais escuro, que garantem algum contraste com a folhagem e guiam o polinizador para o nectário (a estrutura brilhante em forma de "V" da flor no centro da terceira foto). Observamos também como a planta se protege do frio: as tépalas são ciliadas, o talo é penugento na parte superior e as folhas basais, sésseis e enormes, agasalham-no como um casaco de golas altas bem ajustadas.

O género Veratrum contém cerca de 40 espécies nativas de lugares frios ou temperados da Europa, Ásia e América do Norte. Na Europa, ocorrem espontaneamente apenas duas, o V. album e o V. nigrum. Curiosamente, este último tem as mesmas características morfológicas do V. album mas as flores são de cor púrpura. Na serra da Estrela pode ver-se facilmente a única espécie presente na Península Ibérica, no bordo de lagoas perto da estrada da torre; as plantas fotografadas são de uma população muito numerosa da Cantábria.

1 comentário :

bea disse...

As artimanhas e que a natureza se serve para perpetuar as espécies...