9.2.16

Jogo de cores


Prunella laciniata (L.) L.

Em grandes populações de orquídeas é frequente verem-se gradações na cor das flores e, por vezes até em percentagem elevada, plantas com flores completamente brancas ou hipocromáticas. Não se trata de plantas albinas (aquelas em que uma mudança genética impede qualquer parte de realizar a fotossíntese) pois os talos e a folhagem são verdes. Nesta família, em que há muitas espécies cujas flores não têm néctar e que atraem os polinizadores seduzindo-os ardilosamente, crê-se que as variações na cor fazem atrasar a aprendizagem dos polinizadores. É que os insectos, tal como nós, desenvolvem preferências com base em experiências anteriores e, portanto, os que são sistematicamente iludidos aprendem a evitar as flores enganadoras. No ano seguinte, as flores surgem ligeiramente diferentes, nos matizes de cor ou perfume, e o logro funciona de novo entre os polinizadores mais jovens. Todavia, para lidar com os insectos mais experientes, as orquídeas precisam de ser mais hábeis. É nesse contexto que as plantas de flores brancas são essenciais: elas criam contraste e distraem os polinizadores que estão em dúvida, levando-os a descurar o que já sabiam. Alguns estudos de campo comprovam que, nas populações com flores brancas ou com variações da quantidade de pigmento na corola, a produção de sementes é maior.

Não podemos concluir deste arrazoado que há neste procedimento um propósito, um plano prévio de evolução na natureza. O mais certo é que as mutações que dão origem ao polimorfismo cromático sejam ocasionais, ou resultado de hibridação, mantendo-se nas populações porque são benéficas em termos evolutivos - até porque tais mudanças são, em geral, geneticamente recessivas, logo os descendentes de plantas com flores brancas podem dar depois flores com a coloração padrão.

Uma população que surgiu de uma mutação e que só dá flores brancas pode isolar-se num habitat, tornar-se estável e ganhar autonomia como espécie, ainda que o processo possa levar milhares de anos a completar-se. Terá sido isso o que separou estas duas espécies de Serapias? Ou estas duas espécies de Cephalanthera? Ou a Prunella grandiflora da Prunella laciniata? Para complicar a tarefa dos cientistas, não há um só modo de se criarem espécies com flores brancas que são, em tudo o resto, semelhantes às que dão flores com outras cores. E até pode ter acontecido o contrário, ser a Prunella de flores roxas a descendente; ou terem as duas um progenitor em comum, a P. vulgaris.

A Prunella laciniata ocorre no sul e centro da Europa, norte de África e parte da Ásia. É uma planta pequena mas de base lenhosa. Os talos são penugentos e as folhas divididas, com uma a duas lacínias de cada lado (veja-se a segunda foto). A Flora Ibérica regista que a corola branca por vezes nasce púrpura. Os exemplares que vimos estavam junto a um regato em Campo de Víboras, Vimioso, um habitat notável em vegetação herbácea.


Campo de Víboras

3 comentários :

bea disse...

Pois, a natureza não pensa, mas até parece. Que tal forma de atrair os veículos da polinização é bastante razoável.
Campo de víboras! Nome assustador.

Maria Carvalho disse...

Pode ser que tenham existido por lá, mas não vimos nenhuma cobrinha nas nossas várias visitas a estes prados. Quem sabe, o nome afastou as pessoas e o gado deste lugar, e por isso ele é ainda tão rico em plantas.

Carlos M. Silva disse...

Embora em 2015 tenha andado por essa zona, Vimioso, foi às borboletas, diurnas e nocturnas, embora esse local acho que já o conhecia de nome.
Essa planta, como a maioria, aliás, também me foi/é? equívoca, quando a encontrei, e uma única vez, em Macedo de Cavaleiros, num pequeno lameiro de inverno, junto ao Rio a umas centenas de metros do Sant. Stoº Ambrósio, em Jun./2014.
Abraço
Carlos