1.7.16

A erva que queria ser árvore




Plantago arborescens Poir. subsp. maderensis (Decne.) A. Hansen & G. Kunkel

Um Plantago convencional tem uma arquitectura fácil de reconhecer: de uma roseta de folhas basais, muitas vezes comprimida contra o solo, saem hastes simples rematadas por espigas florais não muito vistosas, em que apenas sobressaem os longos estames e o amarelo das anteras. Na flora de Portugal continental, o Plantago afra é o único que foge, e de modo vincado, a este figurino, com folhas opostas distribuídas ao longo de hastes várias vezes ramificadas. No Porto Santo, que afinal é mais perto de África do que da Europa, o P. afra não aparece, mas faz-se substituir pelo Plantago arborescens, que levou a sua heterodoxia ao ponto de se transformar em arbusto. Arbusto rasteiro, é verdade, mas de ramificação intrincada e de hastes indubitavelmente lenhosas. A energia gasta para fortalecer o corpo não lhe permitiu cuidar das flores: as espigas (última foto em cima) são abreviadas e esféricas, ainda mais sumárias que as do P. afra. O que até se compreende, pois um arbusto que dura muito anos não precisa de reproduzir-se com a mesma urgência de uma planta anual. Pesem embora as diferenças de tamanho e fenologia, a afinidade entre o P. arborescens e o P. afra justifica que, dentro do género Plantago, ambos integrem o subgénero Psyllium; houve já propostas para promover Psyllium a um género autónomo, mas essa ideia, embora pareça justificar-se do ponto de vista morfológico, não terá sido corroborada pelos estudos genéticos.

Surgindo no Porto Santo a altitudes variadas, o Plantago arborescens é um arbusto mais encorpado nos picos ventosos do interior da ilha do que nas falésias litorais. Os exemplares que vimos na subida para o Pico de Ana Ferreira quase atingiam um metro de altura, formando moitas bem visíveis à distância; na Fonte da Areia, já no litoral, não ultrapassavam os 15 ou 20 cm; além disso, os primeiros eram quase glabros (2.ª foto) e os segundos pubescentes (5.ª foto). Face a estas variações, é mais fiável identificá-lo pelo recorte das folhas e das espigas do que pelo aspecto geral. Assim, as folhas são lineares, pulverulentas, com um máximo de 7 cm de comprimento e tendência a acumularem-se nas extremidades dos ramos; e as espigas, que têm cerca de 1 cm de diâmetro, são formadas por quatro a seis flores.

O P. arborescens é endémico da Macaronésia, exclusivo da Madeira e das Canárias. Considera-se dividido em duas subespécies, distinguindo-se a subsp. maderensis (apenas do arquipélago da Madeira) da subespécie nominal (apenas das Canárias) por esta última exibir alguns pêlos longos nas folhas e nas hastes.

1 comentário :

bea disse...

Sempre que a gente quer ser o que não é, fica um bocado maljeitosa.