16.7.16

Seisim? Sei não




Phyllis nobla L.

Phyllis, nome grego que terá sido escolhido por Lineu porque a folhagem destes arbustos, em geral glabros, lembra vagamente a das amendoeiras, é um género endémico da Madeira e das Canárias que inclui apenas duas espécies: Phyllis viscosa, exclusiva das Canárias; e, nosso assunto de hoje, Phyllis nobla, disseminada pelos dois arquipélagos e presente na Madeira e no Porto Santo. Nada menos que três são os nomes comuns registados na Flora of Madeira de Press & Short para este pequeno arbusto (até 1 m de altura) de folhagem lustrosa mas de inflorescência esverdeada e pouco chamativa: cabreira, seisim e seisinho. O segundo destes nomes, seisim, não consta de qualquer dicionário da língua portuguesa. Cabreira lá aparece, e até como nome de planta, não da Phyllis nobla mas de uma leguminosa herbácea, talvez o Scorpiurus muricatus. Quanto a seisinho, sugere o dicionário, um pouco a medo, que se trata do diminutivo de seis. Já sabemos como em Portugal as coisas de que gostamos viram coisinhas, e até é frequente um lojista dizer ao cliente que de um certo produto só sobra unzinho, mas do dois para cima nunca ouvimos um numeral ser assim acarinhado com um diminutivo. A consabida lição que extraímos deste episódio é que, pelo menos em português, os nomes comuns das plantas são uma área minada por confusões e incertezas. Tirando as árvores, uns tantos arbustos e a generalidade das plantas cultivadas, é embarcar numa ficção bem intencionada usar nomes tidos como populares para designar plantas espontâneas que o povo (essa entidade mítica) é incapaz de reconhecer.

Frequente na Madeira a todas as altitudes, a Phyllis nobla é mais escassa no Porto Santo, onde apenas a pudemos observar, em vários estádios de desenvolvimento, num talude rochoso do Pico Branco e no sub-bosque de uma plantação de ciprestes, no Pico do Facho. As folhas, que têm uns 6 ou 7 cm de comprimento e se apresentam em verticilos de três, pareceram-nos mais engrossadas nos exemplares mais jovens; as que vimos eram obtusas e estreitas, mas podem ser acuminadas e mais largas em plantas de outra proveniência. As flores, que têm cerca de 4 mm de diâmetro e estão dispostas em panículas mais ou menos piramidais de uns 10 a 20 cm de comprimento, não têm cálice, e as suas pétalas verdes apresentam-se fortemente recurvadas (ver foto). A pincelada de branco nas duas últimas fotos aí em cima é dada pelos estigmas proeminentes; na segunda e quarta fotos, vêem-se não os frutos mas os botôes florais ainda por abrir.

4 comentários :

Francisco Clamote disse...

Obrigado, Paulo, pela (tanto mais simpática, quanto imerecida) referência ao meu sítio. Abraço.

bea disse...

Pertenço grandemente à entidade mítica e não sei mesmo quase nomes nenhuns de plantas. O seisinho será mais uma. Sei-o durante três a cinco minutos. Depois, desaparece com todas as suas características e, se o reencontre, não lhe farei ideia da identidade.

jj.amarante disse...

Seria ocioso elogiar em permanência as suas imagenss mas as fotos nº5 e nº6 deste post estão mesmo muito bem!

José Batista disse...

Brincando com o comentário de J. Amarante, eu diria que as fotos 1, 2, 3 e 4 também estão muito bem, assim como o texto e o rigor científico e tudo o resto, deste e dos artigos anteriores.
Estão (sempre) de parabéns, os autores.
E os leitores também, por poderem aceder a um sítio assim.