1.11.16

Novas azedas


Rumex intermedius DC.

Já se sabe que o valor de mercado de um produto aumenta com a raridade, e que aquilo que é desdenhado por ser abundante num certo país ou região pode ser valioso e cobiçado noutras paragens. Consideraçôes análogas guiam-nos muitas vezes no turismo botânico que praticamos. Nas grandes extensões do centro-oeste do país dominadas por substratos calcários, encontramos com facilidade muitas plantas (entre elas um grande número de orquídeas) que, por falta de habitat apropriado, se fazem escassas ou ausentes no resto do território. Toca então de procurá-las nesses lugares improváveis, não porque ganhemos dinheiro com isso, mas porque o achado se torna mais gratificante. Ressalve-se que essa procura não é inteiramente arbitrária: se uma planta só se dá mesmo em calcários, seria tolo querer vê-la em afloramentos xistosos. Mas o fogo primordial misturou de forma caótica os ingredientes de que o planeta é feito, fazendo surgir ilhas calcárias em mares (sólidos) de xisto ou granito. São essas ilhas, espalhadas aqui e ali pelo nordeste transmontano, que gostamos uma vez por outra de visitar em busca de surpresas.

As minas de Santo Adrião, em Vimioso, são dos maiores afloramentos calcários de Trás-os-Montes. Encerrada a pedreira, já nada parece ameaçar os azinhais que, durante anos, foram sendo abocanhados pelo avanço da exploração. Apesar das feridas, o que sobrou, espalhado por dois ou três montes e atravessado por dois ribeiros, é um bosque de árvores maduras que impõe respeito, com mais de 3 km de comprimento e uma área total que ultrapassa 1 km^2. Sob a copa ampla das azinheiras ou aproveitando as clareiras das zonas mais pedregosas, o coberto arbustivo e herbáceo é rico e condimentado com aquelas espécies que denunciam o solo alcalino. Além das orquídeas (duas delas muito raras) e da sempre sedutora Leuzea conifera, aparece uma azeda (género Rumex) que se destaca pela inaudita elegância. Quando com ela deparámos, e ainda sem lhe poder dar nome, soubemos logo que era a primeira vez que a víamos. Alta, de quase 1 m de altura, haste fina e ramificada, inflorescência como uma nuvem tocada pelo pôr-do-sol, folhas sagitadas, estreitas e compridas como lanças.

Consultados os manuais, concluímos tratar-se do Rumex intermedius. Tem certa preferência por calcários, mas não mantém com eles uma relação de exclusividade. Apesar de muito espalhado no país vizinho, é escasso em Portugal e, como informa o mapa de distribuição no Flora-On, encontra-se sobretudo no Algarve. A Flora Ibérica sublinha essa preferência pelo sul, assinalando-o apenas em quatro províncias: Estremadura, Algarve, Alto e Baixo Alentejo. O salto para Trás-os-Montes, província que agora se acrescenta à corologia da espécie, é considerável. Como chegou ele àquela ilha calcária transmontana sem usar, que se saiba, os calcários do centro do país como trampolim? Veio certamente de Espanha, pois Portugal não é uma ilha e estamos todos embarcados na mesma jangada de pedra.

4 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Sem dúvida aquilo que escreves sobre o local; embora não o tenha conhecido por raide botânico mas antes por 'estacionamento temporário' entomológico, é um daqueles sítios onde irei, pelo que prometia. E agora, com a tua bela descrição, promete com mais certeza.
Abraço.
Carlos M. Silva

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelo comentário, Carlos. Como estas coisas estão todas ligadas, suponho que a existência de uma flora "anormal" (em relação à região onde se insere) num certo local significa também que nesse nicho haverá alguns insectos incomuns. Tudo para dizer que uma visita demorada da tua parte a Santo Adrião e ao bosque envolvente é com certeza obrigatória.
Um abraço,
Paulo

bea disse...

Nunca tinha visto azeda de tal cor e tão bonitinha. Obrigada.

ZG disse...

Mais um excelente post - a perfeição, sempre!!