27.2.16

Super-agrião



Rorippa pyrenaica (All.) Rchb.

Em terrenos baldios, pousios, bermas de estrada, às vezes em hortas, as crucíferas de flor amarela são, em cada ano, os arautos da Primavera. Rabanetes, mostardas, saramagos, couves e agriões atropelam-se para nos dar a boa nova de que os dias sombrios, curtos e descoloridos vão ficando para trás. Boa altura para trazer ao escarapate um membro deste grupo, ressalvando-se contudo que o agrião-dos-Pirenéus (tradução apressada de Rorippa pyrenaica), por ser raro e de floração tardia (só a partir de Maio), não participa no esforço colectivo de pintar de amarelo as paisagens neste final de Fevereiro.

Dentro do género Rorippa, ou pelo menos se a compararmos com outras espécies que por cá conhecemos, a R. pyrenaica, com os seus 70 cm de altura, destaca-se pelo porte erecto e pela floração abundante. Apesar de o seu nome fazer referência aos Pirenéus, ela não é exclusiva dessa cadeia montanhosa e encontra-se, por vezes a altitudes modestas, em boa parte da Europa mediterrânica, desde a Península Ibérica até aos Balcãs. Preferindo lugares abrigados e húmidos, em orlas de bosque ou junto a cursos de água, está referenciada em quatro províncias portuguesas, mas ultimamente, de acordo com o portal Flora-On, só tem sido vista em Trás-os-Montes. Na única vez em que a encontrámos, em Vimioso, perto do rio Angueira, tivemos de nos contentar com um exemplar solitário para a sessão fotográfica. Ainda assim, talvez por não exigir habitats tão encharcados, teve ela melhor sorte do que a Rorippa amphibia, que deveria existir na Beira Litoral e no Ribatejo mas poderá ter sido erradicada pela proliferação de barragens. Sorte idêntica parece reservada à Rorippa palustris se alguma vez se construir uma barragem no rio Minho.

O modo mais fiável de reconhecer a Rorippa pyrenaica é pelas folhas caulinares (ver 3.ª foto), que estão divididas em segmentos quase lineares, têm um par de aurículas na base, e apresentam pêlos dispersos ao longo do eixo. Como tira-teimas, e caso estejam presentes, convém atentar nas silíquas - que são curtas e engrossadas, bem diferentes das da Barbarea verna e das de outras crucíferas com as quais poderia ser confundida.

24.2.16

Solaris





Potamogeton perfoliatus L.

Nas primeiras imagens do filme Solaris, de Andrei Tarkovsky, a câmara mostra-nos em pormenor um lago junto a uma casa com janelas amplas, cores luminosas e decoração esmerada. Servem para que guardemos inúmeros detalhes na memória, lembranças a que mais tarde o oceano inteligente do planeta Solaris acederá, construindo com elas uma linguagem com que tenta comunicar com os humanos. Um aspecto em que a câmara se demora é a vegetação submersa no lago, plantas que se adaptaram à vida dentro da água num processo que, imaginamos no fim do filme, uma das personagens terá de dominar.

Deixando, a custo, o filme de lado, procurámos saber como sobrevive uma planta dentro de água. A ciência parece convencida de que as plantas aquáticas de maior porte descendem de vegetação terrestre que entretanto colonizou o habitat marinho ou fluvial. Mas como conseguem elas não apodrecer com a humidade excessiva? O que lhes permite resistir intactas à água mole que fura a pedra dura? Como se realiza a fotossíntese, tendo em conta a pior exposição à luz e a menor concentração de oxigénio e dióxido de carbono num meio aquoso? E, havendo marés, não precisam elas de saber funcionar também como seres terrestres, tal qual as baleias? O que se segue é apenas um resumo sobre mecanismos de adaptação à vida submersa, alguns dos quais o leitor poderá confirmar na planta das fotos.

Não lhes convém ter raízes ou caules demasiado rígidos, ou quebrariam com uma ondulação mais forte. Obviamente, não precisam deles para absorver, reter e conservar água, como sucede às plantas terrestres. De facto, estes são sobretudo âncoras (nem sempre necessárias pois, ao contrário do ar, a água permite que as plantas se sustenham sem esforço) que retiram oxigénio da água. Os talos são flexíveis, por vezes com nós que se fixam no fundo, mas frequentemente ocos ou com câmaras de ar para melhor flutuarem; neles a planta guarda a sua reserva privada de oxigénio, uma função semelhante à da estrutura análoga das plantas terrestres onde elas conservam nutrientes e água. E há a solução dos narizes exteriores, claro.

As folhas são finas, planas, por vezes largas ou longas para se manterem estáveis sem resistência às ondas, e realizarem a fotossíntese com eficiência. O pigmento verde está em geral concentrado na face superior, a que recebe luz, e há vários modos de fotossintetizar, nem todos eles inteiramente compreendidos. Em algumas espécies, as folhas parecem ter textura de borracha, e são decerto difíceis de rasgar. Além disso são sésseis, de modo que a sua ligação aos ramos é mais firme. E, sobretudo, são à prova de água: não têm, como as plantas terrestres, tecido protector ou poros com um sistema rigoroso de abertura que, em plantas em terra, são essenciais para reduzir a perda de água, seja pelo calor ou por outro factor ambiental; e a face superior das folhas está coberta com uma camada cerosa que repele a água, caso precisem de emergir, e mantém os poros livres para a transferência de oxigénio e dióxido de carbono, ou para selectivamente expelir certos iões e manter o equilíbrio químico das células.

Com as flores todo o cuidado é pouco, e elas nascem em hastes, ou espigas, que se erguem acima da água. A fertilização, na ausência de polinizadores, exige astúcia e alguma sorte - e há espécies que, em vez de largar o pólen ao acaso na água, na esperança de que atinja o estigma de alguma flor feminina, formam, com as pétalas das flores masculinas, pequenos botes que deslizam à bolina até colidirem com a haste feminina.

Por cautela, às vezes as sementes germinam ainda ligadas à planta-mãe, para depois, quando soltas, terem maior viabilidade. Disseminadas as sementes, pela água e ar, ou garantida a reprodução vegetativa através de pedaços da planta capazes de formar clones, ela hiberna ou morre, garantindo com os restos da folhagem ou dos rizomas fibrosos um substrato rico no fundo de lago, que assim se eleva, ajudando os rebentos a sobreviver e permitindo a formação de colónias mais ou menos densas.

As plantas das fotos são do rio Minho, algures entre Monção e Melgaço - talvez o último local do nosso país onde esta espécie (uma das que vemos no filme de Tarkovsky) ainda resiste. Por trás do areal da primeira imagem esconde-se um pequeno lago com uma população mimosa de Nymphoides peltata.

20.2.16

Vassoura 1.0



Erica scoparia L.

Hoje a tecnologia renova-se todos os dias, e quem não se esforça por acompanhar as novidades transforma-se rapidamente num exilado de outras eras. Porém, nem sempre foi assim. É causa do maior espanto como puderam os nossos antepassados usar durante tantos séculos (ou milénios) o mesmo modelo básico de vassoura: um punhado de galhos secos mas flexíveis atados na ponta de um pau. Custa a crer, mas é verdade: não havia substituições periódicas de vassouras perfeitamente funcionais por modelos recém-lançados que faziam exactamente o mesmo; as vassouras só iam servir de lenha quando ficavam carecas, e as suas substitutas eram cópia exacta do que elas tinham sido quando novas.

Travão a fundo na dissertação, pois alguém nos avisa que as vassouras não evoluíram assim tanto: tirando o ter-se substituído a madeira pelo plástico (e ainda as há com cabo de madeira), a arquitectura geral da vassoura mantém-se inalterável desde sempre e assim há-de ser até à consumação dos séculos. A criatividade humana, seduzida pelo aspirador, deixou de se preocupar com a vassoura. E mesmo o aspirador, ao que nos dizem, dá sinais de estagnação no que toca ao design e ao princípio geral de funcionamento. Tanto assim é que há quem tenha desistido de trocar de aspirador todos os anos.

Desde a vassoura primordial até à vassoura contemporânea passámos da versão 1.0 para a versão 1.1, coisa que, no actual frenesim de inovação tecnológica, não deveria levar mais que uma semana. Mas essa falta de evolução permite-nos alegar que o fabrico artesanal de vassouras, usando justamente a urze-das-vassouras como matéria-prima, é assunto que não perdeu actualidade.

Deixando as instruções de montagem da vassoura para gente mais versada nessa arte, focamo-nos na questão de reconhecer a Erica scoparia. O epíteto scoparia é derivado de scopae, designação latina para vassoura, e outras plantas que partilham o mesmo epíteto (como o Cytisus scoparius) têm igual vocação para varrer. Quanto à urze-das-vassouras, o seu porte avantajado (excede frequentemente os 2 m de altura e pode chegar aos 4 m) e as suas folhas lineares, dispostas em verticilos de 3 ou 4, não permitem distingui-la de imediato de outras urzes de grande tamanho como a Erica arborea (urze-branca) e a E. lusitanica. Pelas flores, que são muito pequenas (até 2,5 mm de diâmetro) e esverdeadas, a distinção é óbvia, mas infelizmente o período de floração é curto, umas poucas semanas entre Abril e Maio. Com as flores já secas ou transformadas em frutos, é útil saber que elas se dispõem de forma muito densa e compacta (ver foto), o que não sucede com outras urzes de porte comparável. E há outra diferença que exige um olhar mais minucioso: a E. scoparia tem hastes glabras ou com poucos pêlos, enquanto que tanto a E. arborea como a E. lusitanica as têm densamente tomentosas.

É consolador para gente como nós que um gigante como Lineu também tenha cometido deslizes. A descrição no Species Plantarum (1753) da Erica scoparia assenta que nem uma luva, não ao arbusto que hoje é conhecido por esse nome, mas à... Erica arborea, que Lineu descreve (separadamente) na mesma obra e até na mesma página. Terá havido algum extravio ou má etiquetagem do material que Lineu recebeu dos seus colectores. Lineu apercebeu-se do erro e acabou por guardar no seu herbário uma amostra de E. scoparia com a etiqueta correcta, mas a descrição equivocada nunca foi corrigida. Se as leis que regem a taxonomia botânica tivessem sido cumpridas à risca, E. scoparia seria sinónimo de E. arborea, e a urze-das-vassouras teria que adoptar outro nome científico - por exemplo (e estes nomes existem mesmo) Erica absinthioides e Erica fucata. Valeu a tradição, pois o nome Erica scoparia já era usado antes de Lineu.

A terminar, diga-se que duas urzes endémicas dos nossos arquipélagos atlânticos, a E. azorica nos Açores e a E. platycodon subsp. maderincola na Madeira, são parentes muito próximas da E. scoparia - da qual, na opinião de alguns, não passariam de subespécies. Têm no entanto flores avermelhadas, o que, por a floração durar pouco, nunca pudemos confirmar ao vivo.

16.2.16

O cravo dos cravos


Dianthus armeria L.

Algumas herbáceas hesitam entre um regime anual ou um ciclo bianual se o habitat tem poucos recursos ou é de elevado risco. O ano extra que por vezes se concedem serve para poupar as sementes que, desconfiam elas, não germinariam naquele ano em boas condições. Esta estratégia permite-lhes resistir em solos com poucos nutrientes, aguentar climas agrestes ou sujeitos a longos períodos de seca, e perdurar em locais improváveis. O cravo das fotos é um exemplo desse esforço de sobrevivência em condições extremas, nem sempre bem sucedido. As plantas do género Dianthus que ocorrem em Portugal, país rico em cravos silvestres, alguns deles endémicos, necessitam de boa exposição solar e, por isso, é frequente encontrarmos grandes populações deles em escarpas, taludes de estrada, dunas, clareiras de matos, afloramentos rochosos em leitos de cheia ou zonas pedregosas de montanha. Mas a espécie D. armeria é mais exigente, e requer prados e terrenos baldios ou em pousio na orla de bosques, com substrato arenoso ou argiloso. Além disso, tende para a indolência, e só algum distúrbio do solo no Inverno parece encorajar a germinação das sementes. Não surpreende, por isso, que os registos desta espécie em Portugal estejam confinados a meia dúzia de sítios no nordeste (embora a Flora Ibérica o assinale também na Beira Baixa) e sempre com número reduzido de indivíduos. A mesma redução de efectivos é notória em Inglaterra, Escócia e Irlanda, onde as populações decresceram para níveis alarmantes após a conversão de muitos prados em terrenos arados, florestados ou impermeabilizados - mas onde, por certo, recuperará através do zelo louvável de ecologistas, botânicos e amadores que costumamos testemunhar em outras ocasiões.

Vimos estes exemplares em Campo de Víboras, num dia de Julho quente e com muita luz, a conviver com zelhas, peónias e orquídeas. O mais alto media cerca de 60 cm, sem requebros nem a formar moitas como é comum noutras espécies de Dianthus; notavam-se-lhe bem as folhas opostas (duas por nó) e penugentas, e as rosetas basais de cor verde nítido em vez do tom glauco mais frequente na folhagem deste género. Havia poucas flores (têm cerca de 15 milímetros de diâmetro), que não são perfumadas mas são muito vistosas pelo rosa purpurino das pétalas maculado de sardas. Podem ver na última foto que elas se agrupam em cimeiras justas como vassouras, protegendo-se com enormes brácteas.

O nome vernáculo em inglês é Deptford pink, atribuído em 1633 pelo naturalista Thomas Johnson que, neste local perto de Londres, o confundiu o Dianthus deltoides. Em português não se conhece designação comum; o título acima refere-se apenas ao facto de os epítetos Dianthus e Armeria significarem ambos cravo.

13.2.16

Giesta dos espinhos




Genista hystrix Lange

Para compensar a pouca atenção que damos aos verdadeiros tojos, assunto espinhoso em muitos sentidos, aqui vai um falso tojo menos eriçado e traiçoeiro, mas capaz também de picadas agressivas. Cada haste da Genista hystrix é rematada por um forte espinho, parecendo que isso lhe basta como defesa, pois de resto a planta é desprovida de acúleos. Essa relativa mansidão, assim como o porte erecto, permitem diferenciá-la, na ausência de flores e de folhas, do Echinospartum ibericum, uma leguminosa bastante mais espinhenta que forma característicos almofadões em zonas pedregosas de montanha. Havendo flores, a diferença entre as duas espécies é óbvia: as do E. ibericum são menores e têm um cálice muito mais lanudo.

A Genista hystrix, cujo epíteto é o nome grego para ouriço-cacheiro, é um arbusto que não costuma ultrapassar um metro do altura. Em cada estação de crescimento, flores e folhas só aparecem nos ramos novos, que têm uma textura acetinada; os ramos velhos são glabros e grossos, profundamente marcados por 10 a 12 estrias. É um endemismo do NW peninsular, que vive perto de rios em locais rochosos de média altitude, em geral longe da costa. Escasseia no Minho e na Galiza, mas vai-se vendo em Trás-os-Montes ao longo das bacias dos maiores afluentes do Douro. As fotos que ilustram o texto foram porém captadas nas margens do rio Minho, algures nas pesqueiras de Melgaço, onde a G. hystrix surge na companhia de muitas outras plantas improváveis que ali se instalaram por engano - engano esse que nos serve de desculpa para lhe termos dado, inicialmente, o nome errado. Foi o João Lourenço, que de tojos verdadeiros ou falsos percebe muito mais do que nós, quem nos apontou o lapso.

Quando não temos a prudência de estudar uma chave de identificação, deixando-nos guiar pelas primeiras impressões, a geografia, que neste caso confundiu, pode de facto dar uma ajuda. Fica então o leitor prevenido de que, se estiver no Alentejo ou no Algarve passeando pelas margens pedregosas de algum rio, e lhe parecer reconhecer a Genista hystrix, então o que está a ver é de facto outra coisa, a Genista polyanthos, que se distingue por caracteres demasiado subtis para serem aqui explicados. Estas duas Genistas gémeas, ambas endémicas da Península Ibérica, uma do norte e outra do sul, têm distribuições praticamente disjuntas, embora com alguns pontos de contacto na Extremadura espanhola.

9.2.16

Jogo de cores


Prunella laciniata (L.) L.

Em grandes populações de orquídeas é frequente verem-se gradações na cor das flores e, por vezes até em percentagem elevada, plantas com flores completamente brancas ou hipocromáticas. Não se trata de plantas albinas (aquelas em que uma mudança genética impede qualquer parte de realizar a fotossíntese) pois os talos e a folhagem são verdes. Nesta família, em que há muitas espécies cujas flores não têm néctar e que atraem os polinizadores seduzindo-os ardilosamente, crê-se que as variações na cor fazem atrasar a aprendizagem dos polinizadores. É que os insectos, tal como nós, desenvolvem preferências com base em experiências anteriores e, portanto, os que são sistematicamente iludidos aprendem a evitar as flores enganadoras. No ano seguinte, as flores surgem ligeiramente diferentes, nos matizes de cor ou perfume, e o logro funciona de novo entre os polinizadores mais jovens. Todavia, para lidar com os insectos mais experientes, as orquídeas precisam de ser mais hábeis. É nesse contexto que as plantas de flores brancas são essenciais: elas criam contraste e distraem os polinizadores que estão em dúvida, levando-os a descurar o que já sabiam. Alguns estudos de campo comprovam que, nas populações com flores brancas ou com variações da quantidade de pigmento na corola, a produção de sementes é maior.

Não podemos concluir deste arrazoado que há neste procedimento um propósito, um plano prévio de evolução na natureza. O mais certo é que as mutações que dão origem ao polimorfismo cromático sejam ocasionais, ou resultado de hibridação, mantendo-se nas populações porque são benéficas em termos evolutivos - até porque tais mudanças são, em geral, geneticamente recessivas, logo os descendentes de plantas com flores brancas podem dar depois flores com a coloração padrão.

Uma população que surgiu de uma mutação e que só dá flores brancas pode isolar-se num habitat, tornar-se estável e ganhar autonomia como espécie, ainda que o processo possa levar milhares de anos a completar-se. Terá sido isso o que separou estas duas espécies de Serapias? Ou estas duas espécies de Cephalanthera? Ou a Prunella grandiflora da Prunella laciniata? Para complicar a tarefa dos cientistas, não há um só modo de se criarem espécies com flores brancas que são, em tudo o resto, semelhantes às que dão flores com outras cores. E até pode ter acontecido o contrário, ser a Prunella de flores roxas a descendente; ou terem as duas um progenitor em comum, a P. vulgaris.

A Prunella laciniata ocorre no sul e centro da Europa, norte de África e parte da Ásia. É uma planta pequena mas de base lenhosa. Os talos são penugentos e as folhas divididas, com uma a duas lacínias de cada lado (veja-se a segunda foto). A Flora Ibérica regista que a corola branca por vezes nasce púrpura. Os exemplares que vimos estavam junto a um regato em Campo de Víboras, Vimioso, um habitat notável em vegetação herbácea.


Campo de Víboras

6.2.16

Tomilhos mil



Thymus praecox subsp. britanicus (Ronniger) Holub

Três dias e duas noites na Cantábria forneceram-nos assunto florístico para quatro meses, mas tudo tem um fim e a nossa incursão espanhola termina hoje no trigésimo capítulo. O Thymus praecox é uma daquelas espécies alegadamente existentes em Portugal que encontrámos na Cantábria e nunca vimos por cá, seja por não as termos procurado com suficiente empenho, seja porque desapareceram ou estão em vias de desaparecer. De acordo com a Flora Ibérica, o tomilho-precoce deveria existir na serra da Estrela, e o mesmo se aplica ao Sedum candollei, mas ambos têm paradeiro desconhecido. O nome "tomilho-precoce", tradução à letra do nome científico, é mal justificado por uma época de floração que, estendendo-se de Maio a Setembro, não é especialmente temporã. Distribuído por grande parte da Europa central e ocidental, este tomilho é ecologicamente versátil, frequentando orlas de bosques, prados de montanha e fissuras de rochas, tanto em substratos ácidos como básicos.

Os tomilhos são perfumados, dão sabor à comida, e fazem boa figura num vaso ou no jardim. Não espanta serem muitos os tomilhos silvestres que foram domesticados pelo comércio hortícola. Entre eles conta-se o Thymus praecox - que, pelo seu porte rasteiro, abundante floração e resistência a condições atmosféricas adversas, é uma boa escolha para forrar canteiros ou para um jardim de plantas alpinas. Outro tomilho que forma tapetes rosados não menos atraentes é o Thymus caespititius, frequente na Madeira e nos Açores e nas serras xistosas da metade norte de Portugal.

Não fosse tratar-se de uma planta arrumadinha e compacta, o T. praecox poderia confundir-se, na folhagem e na forma das inflorescências, com o T. pulegioides, que aparece aqui e ali em Trás-os-Montes ao longo da fronteira com a Galiza. Mas o tomilho-das-pulgas tem hastes bem mais altas (20 a 30 cm contra uns 8 cm do T. praecox) e, por culpa do ar desgrenhado e da floração mais rala, é menos vocacionado para jardins.

2.2.16

Segredos da Pipa (2)


Lamarosa, Coruche

Continuamos nas margens da represa da Pipa, cautelosos para não pisotear aquilo que as vacas, retidas pela cerca de arame, não tiveram oportunidade de estragar. A mesma cerca deveria ter-nos impedido a aproximação, mas já se sabe que isto de botanizar é um regresso aos livros de aventuras juvenis, em que uma porta fechada é um convite a entrarmos pela janela.


Cyperus flavescens L. [sinónimo: Pycreus flavescens (L.) P. Beauv. ex Rchb.]

São duas as ciperáceas hoje na montra, ambas amareladas e a primeira denunciando isso mesmo no epíteto flavescens. Incluída por Lineu no género Cyperus, foi transferida pelo naturalista Palisot de Beauvois (1752-1820) para um novo género a que chamou Pycreus, mas a proposta não teve acolhimento unânime. Ambos os géneros são caracterizados por espiguetas achatadas, com os florículos organizados em duas fiadas opostas, mas no género Pycreus, tal como delimitado por Beauvois, os aquénios não são marcados por um sulco dorsal, ao contrário do que sucede no género Cyperus sensu strictu. É uma diferença imperceptível a olho nu e que, para ser confirmada, exige a colheita da espigueta e o uso de uma boa lupa. Em todo o caso, o Pycreus (ou Cyperus) flavescens, que tem uma ampla distribuição por três continentes (Europa, África e América) e em Portugal faz o pleno do continente, Madeira e Açores, é fácil de reconhecer pelo seu pequeno porte (7 a 30 cm de altura) e pelo molho de espiguetas amarelas. Muito parecido, mas com espiguetas de um castanho quase negro, é o Cyperus fuscus, que vive também em habitats temporariamente encharcados.

Pycreus é um óbvio anagrama de Cyperus. Outros exemplos do mesmo teor que mostram como os botânicos gostam de brincar com as palavras são Mantisalca (anagrama de salmantica) e Logfia (anagrama de Filago).


Fimbristylis bisumbellata (Forssk.) Bubani

Baptizada com o polissilábico nome de Fimbristylis bisumbellata, esta ciperácea fica, com os seus 15 cm de altura máxima, muito aquém da grandeza que o nome promete. Traduzido à letra, Fimbristylis significa estilete fimbriado ou franjado, enquanto que bisumbellata se refere, presumivelmente, à nada evidente disposição das espiguetas em dupla umbela (já que estamos em maré de anagramas, bilambuzata seria um bom adjectivo para uma criança com um chupa-chupa na boca). Ainda que tenha alguma semelhanças com os Cyperus / Pycreus, a Fimbristylis diferencia-se bem pelas espiguetas arredondadas (não achatadas) com os florículos dispostos em espiral.

Em Portugal, a Fimbristylis bisumbellata é muito pouco comum (veja aqui o mapa de distribuição) e só aparece em território continental. Trata-se porém de uma espécie quase cosmopolita, presente como nativa nos dois hemisférios e, a julgar por esta página, muito disseminada pelas regiões tropicais ou subtropicas da Ásia, África e Austrália.