30.4.16

Orquídeas portuguesas


Em 2008, José Monteiro publicou um livrinho de 80 páginas sobre as orquídeas silvestres da Beira Litoral. Para muita gente (e para nós também) foi o primeiro contacto com essas flores misteriosas e efémeras que crescem, ignoradas por muitos, um pouco por todo o país. Embora a província sobre a qual Monteiro então se debruçou seja aquela que em Portugal apresenta maior abundância e diversidade de orquídeas, a verdade é que as há desde Trás-os-Montes ao Algarve, sem esquecer os arquipélagos atlânticos; e, ainda que se dêem melhor em substratos calcários, elas não são exclusivas desses habitats.

Faltava pois alargar o âmbito do estudo, estendendo-o ao país inteiro, e é isso que José Monteiro faz neste seu livro acabado de publicar, intitulado, com justeza, Orquídeas Silvestres de Portugal. Não é preciso ressalvas, pois é de Portugal inteiro que se trata: continente, Madeira e Açores (uma das orquídeas que aparece na capa é mesmo endémica deste arquipélago). O autor visitou e fotografou in loco todas as espécies de orquídeas alguma vez assinaladas no nosso país, incluindo algumas de que ele próprio foi o descobridor, e não deixou de fora os raríssimos híbridos que só gente como ele parece ser capaz de detectar. As fotos são excelentes, as descrições são sucintas mas úteis, e a informação adicional (ecologia, época de floração, distribuição) é tão completa quanto se pode desejar.

Em suma, uma obra obrigatória para quem já descobriu ou está em vias de descobrir os encantos da nossa flora silvestre. O livro, que é prefaciado pelo Prof. Jorge Paiva, custa 15€ e pode ser encomendado ao autor pelo endereço jbritesmonteiro@gmail.com

28.4.16

Alface dos mineiros



Montia perfoliata (Donn ex Willd.) Howell

É frequente ver-se em margens de regatos, fontes ou rochas com escorrências, por vezes mesmo parcialmente submersa, uma planta delicada, de folhas pequeninas e carnudas, a formar uns tapetes verdinhos, salpicados de pintinhas brancas na época de floração. Tal como a beldroega (Portulaca oleraceae), que é da mesma família (Portulacaceae), a meruginha (Montia fontana, herbácea anual ou vivaz a que os ingleses chamam blinks) já foi consumida em sopas e saladas, numa altura em que as hortas não resistiam a invernos tempestuosos. Perdeu o lugar à mesa quando se diversificou o mercado de alfaces e outros vegetais de maior porte ou sabor mais apurado.

Nesta história gastronómica entra outra beldroega, dita de Inverno (Montia perfoliata), que algumas Floras preferem arrumar no género Claytonia. Não há muitos registos da presença dela em Portugal ou na Península Ibérica, sinal de que esta planta anual e nativa da América do Norte (que, em inglês, se chama miner's lettuce por ter sido fonte preciosa de vitaminas para os garimpeiros nos primeiros tempos da Califórnia) se naturalizou na Europa mas não tem potencial invasor. Aprecia locais mais secos do que a sua congénere, dando-se bem em solos arenosos na orla de matos, mas as sementes precisam das chuvas de Outono para germinarem. A população que encontrámos mora perto da ribeira da Teja, no concelho de Vila Nova de Foz Côa.


ribeira da Teja, Numão, Vila Nova de Foz Côa

O aspecto da Montia perfoliata é um pouco bizarro. Ao contrário da M. fontana, que só tem folhas caulinares, na M. perfoliata as folhas são essencialmente basais, a formar uma roseta, e parecem colheres de cabo longo. No talo, que é estriado, por vezes alado, há ainda um (e um só) par de folhas caulinares, unidas numa taça que talvez funcione como bráctea a proteger a inflorescência. Nas fotos desta parte da planta, parece que o caule fura estas duas folhas geminadas -- e é a isso que o epíteto perfoliata alude. As flores reúnem-se em racimos terminais que lembram enfeites (piercings) em volta de um umbigo.

22.4.16

Filódios & cladódios


Lathyrus ochrus (L.) DC.

O chícharo (Lathyrus sativus) é o mais famoso representante do género, mas estas leguminosas que se enrolam noutras plantas para chegarem mais alto aparecem em muitas cores e feitios, especialmente em áreas de clima mediterrânico, e são um dos sinais mais firmes de que a Primavera já não volta atrás. Não fosse o prestígio de Lineu, seríamos tentados a afirmar que as flores do Lathyrus ochrus são brancas, e não amarelas como indica o epíteto por ele escolhido. Trata-se, em qualquer caso, de um amarelo muito pálido, que precisa de uma boa demão de Photoshop (inexistente à época em que viveu o patriarca da botânica) para se manifestar. Se não se destaca pela cor das flores, este chicharão vale como acepipe para o gado (é ocasionalmente cultivado como forragem) e singulariza-se pelo aspecto peculiar: o caule parece agasalhado pelas folhas, como quem se encolhe dentro da gabardina para se resguardar da intempérie. O exemplar das fotos era ainda jovem; à medida que cresce, esta planta anual liberta-se um pouco do seu ar friorento. Quanto ao agasalho em si, esclareça-se que ele não é formado por folhas normais, mas sim por filódios. Um filódio é uma folha incompleta, reduzida ao pecíolo, que para compensar a falta vai alargando até tomar o aspecto da (inexistente) lâmina foliar. Algo de semelhante se passa com a gilbardeira (Ruscus aculeatus), onde aquilo que nos parece ser uma folha é na verdade outra coisa (chamada cladódio) indevidamente inchada para se disfarçar de folha. Estas minudências taxonómicas não têm porém grande relevância para a vida da planta: desde que sejam verdes, filódios e cladódios cumprem com lealdade, como se fossem folhas, a função fotossintética que lhes é confiada.

Quando a planta está desenvolvida, as folhas superiores do Lathyrus ochrus, embora ainda apresentem os pecíolos intumescidos, dispõem já de um ou dois pares de folíolos (foto). Todas as folhas, completas ou reduzidas, são rematadas por gavinhas sempre à espreita de um pau para se agarrarem. Florescendo entre Março e Junho, com flores solitárias ou (raramente) aos pares, e com caules muito ramificados capazes de atingir 1,5 m de comprimento, o Lathyrus ochrus distribui-se por toda a Europa mediterrânica e pelo norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia); nativo de Portugal continental, está naturalizado nos Açores (ilhas de São Miguel e Santa Maria) e na Madeira.

17.4.16

À solta no Cachorro


Cachorro, Pico, Açores

Mesmo encostada ao aeroporto, de que está separada apenas por uma estrada e por uma vedação metálica, Cachorro é uma aldeia de 20 ou 30 casas de negríssimo basalto na costa norte da ilha do Pico. O nome vem-lhe da forma que tomou uma das rochas à beira-mar, lembrando um cachorro contemplativo que nunca se cansa do espectáculo das ondas. Se a aldeia em si é típica que baste para atrair turistas, e se o impassível cachorro está sempre disponível para ser fotografado, já para o botânico amador os motivos de interesse incluem uma rara população costeira de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), um manto amarelo de cubres (Solidago azorica), e a maior concentração de camarinhas (Corema album subsp. azoricum) de que há notícia no arquipélago. Por uma vez em consonância de gostos, turistas e botânicos podem, no Verão, deliciar-se com os figos que se oferecem maduros, nas vinhas abandonadas, à gula de quem os queira apanhar.


Hylocereus undatus (Haworth) Britton & Rose

Entre as casas recuperadas para ocupação sazonal e as lojas de artesanato para turistas, sobram ainda, no Cachorro como em todas as aldeias, umas tantas casas abandonadas à espera de quem lhes dê uso. Aquela que se vê na imagem, com o telhado ainda novo, não dá mostras de ruína iminente, mas os tentáculos que por ela vão subindo, aproveitando a longa ausência dos proprietários, ameaçam furar-lhe as paredes e inundar de verde todas as divisões. Esta paciente ocupação clandestina é levada a cabo por um cacto trepador vindo das Caraíbas, de seu nome Hylocereus undatus. É bom esclarecer que este cacto não está naturalizado nos Açores, e que dificilmente terá condições de o fazer: não tolerando temperaturas inferiores a 15ºC, nunca se poderá afastar muito da linha de costa; e a ausência de polinizadores especializados deverá impedir a produção de sementes. Assim, o exemplar que ameaça sufocar a casa foi decerto plantado. Deixado entregue a si próprio, ficou fora de controle, como cão de guarda que, ignorado pelos donos, acaba por se virar contra eles.

O género Hylocereus acolhe umas vinte espécies de cactos trepadores originários da América tropical; traduzido à letra, esse nome significa cacto-dos-bosques, o que dá uma indicação precisa do habitat destas plantas, habituadas a encavalitar-se em árvores, sob generosa sombra, em vez de penarem ao sol do deserto. O Hylocereus undatus, talvez originário em cultivo por hibridação (não se conhece em estado natural), é o mais popular do seu género em jardins tropicais, e também é apreciado pelos frutos. As flores, que são grandes (30 cm de diâmetro), brancas e fragrantes, só abrem à noite. Fica a sugestão, para quem estiver no Pico em Agosto, de uma visita nocturna ao Cachorro em busca desta flor.

15.4.16

Campainhas de Primavera

Ao contrário do Leucojum autumnale, com flores no Outono e fácil de avistar mais ou menos por todo o país, o L. tricophyllum, de floração primaveril, prefere o sul, e mesmo na Península Ibérica restringe-se à região sudoeste. Parece ter relutância em ultrapassar a barreira do rio Tejo. Por isso, fomos nós vê-lo ao Ribatejo.



Leucojum trichophyllum Schousb. [sinónimo: Acis trichophylla (Schousb.) G. Don]

Demos com ele a formar tapetes branquinhos em taludes arenosos de berma de estrada e em clareiras de pinhais, e notámos logo como as flores são bastante maiores do que as do L. autumnale. Pendentes (para a última foto foi preciso levantar-lhes o queixo), solitárias ou dispondo-se em umbelas de duas a quatro por escapo, com um pedicelo longo e seis tépalas brancas, as flores exibem uma espata escariosa tal como os narcisos e os alhos (género Allium), e que é típica da família Amaryllidaceae. A cor dos talos (avermelhados no L. autumnale) e a da estrutura reprodutora na base das tépalas (verde no L. tricophyllum) são outros pormenores que distinguem estas duas espécies. Além deles, observe-se que a folhagem, que é basal, surge no Leucojum trichophyllum antes antes da floração, quando no L. autumnale são as flores que nascem primeiro.

Em Espanha há registo de mais duas espécies de Leucojum: uma delas, L. valentinum, também de floração outonal, é endémica da região de Valencia; a outra, L. aestivum, com flores entre Fevereiro e Junho a que os ingleses chamam com graça Summer snowflakes, é nativa do sul da Europa, incluindo o sul de Inglaterra, e ilhas Baleares. Em Portugal pode ver-se (já em Fevereiro) em alguns velhos jardins.

Como já aqui antes comentámos, estudos morfológicos e genéticos publicados em 2004 fundamentam uma alteração na classificação taxonómica destas duas espécies de Leucojum, que deveriam transitar para o género Acis (um nome talvez inspirado no mito de Acis e Galatea). Esta diferenciação não é, contudo, recente. Ela é referida na obra The Paradisus Londinensis (1807), de R. Salisbury, e por Robert Sweet que, em 1829, usou oficialmente o nome Acis autumnalis para designar o Leucojum autumnale. Desde 2014, são aceites as novas denominações para três das quatro espécies de Leucojum que ocorrem na Pensínsula Ibérica (Acis autumnalis, Acis trichophylla e Acis valentina), mantendo-se inalterada a filiação do Leucojum aestivum.

10.4.16

Em louvor dos taludes


Ferula communis L.

Nas estradas sinuosas das serras da Peneda e do Gerês, não são apenas as curvas que aconselham o condutor a moderar a velocidade. Grupos de vacas ou ovelhas tresmalhadas vão debicando, na maior das calmas, e indiferentes aos automóveis que são obrigados a desviar-se ou a parar, as ervas nem sempre tenras que revestem os taludes. É sorte delas que a canafrecha não cresça nas serranias minhotas, caso contrário essa refeição colhida na berma da estrada bem poderia ser a última. Fossem elas transmontanas de Vimioso, e ao risco de atropelamento próprio de estradas mais rectilíneas somar-se-ia o da ingestão deste apetitoso veneno. A Ferula communis, assim chamou Lineu à canafrecha, é uma das maiores herbáceas da nossa flora, uma haste de mais de dois metros de altura encimada por vistosas bolas amarelas, mas não é pela beleza que um pastor lhe vai perdoar a perigosidade. Não é que seja irremediavelmente mortal como outras umbelíferas (de que se destacam a Oenanthe crocata e o Conium maculatum), mas o seu consumo continuado provoca hemorragias internas que podem ser fatais, em especial para o gado ovino.

Não sendo nós pastores, é com agrado que vemos a canafrecha contribuir para o embelezamento de um dos troços de estrada botanicamente mais ricos do país, como é a EN218 junto ao rio Maçãs, em Vimioso. Herbácea perene de crescimento rápido e com óbvia vocação ornamental, a sua floração em terras nortenhas é tardia, decorrendo numa altura, entre Junho e Julho, em que o fulgor da Primavera já se desvaneceu. A preferência desta umbelífera por lugares alterados e substratos rochosos fazem dela uma frequentadora habitual das bermas de estrada em Trás-os-Montes. Surge mais raramente marginando prados e campos de cultivo, onde, conforme pudemos testemunhar, a sua presença não é bem-vinda: em Campo de Víboras, num passeio em Junho sob um calor impiedosamente estival, encontrámos muitas hastes decepadas ao longo do caminho.

Quem vê a canafrecha em flor não a irá por certo confundir com o funcho (Foeniculum vulgare), que tem uma floração bastante mais discreta, é abundante em terrenos baldios por todo o país, e compensa a desgraciosidade com uma firme reputação culinária. As duas umbelíferas podem contudo confundir-se na fase vegetativa, pois as folhas de ambas são muito divididas, com segmentos de última ordem lineares: compare-se a nossa terceira foto com esta outra da folhagem do funcho. Para evitar enganos, convém estar atento às folhas basais: as da canafrecha (que ninguém no seu juízo há-de querer usar nos seus cozinhados) são bastante maiores e têm um aspecto plumoso muito característico (ver foto).

7.4.16

Flores da Boneca

A serra da Boneca, em Penafiel, a cerca de 25 km do Porto, parece uma extensão das de Valongo e de Paredes, com o mesmo solo xistoso, idênticas fragas de recorte acentuado e muito cascalho, os mesmos eucaliptais trepando-lhe pelas encostas. Dela se avistam alguns meandros do rio Douro e pequenas povoações que se abrigam nos vales ou aproveitam a proximidade de riachos e moinhos. A meia altura, há o aleijão de um aterro sanitário e restos de rocha escalavrada numa pedreira; no topo, assentaram um parque eólico e rasgaram os respectivos acessos. Mas sobraram uns recantos preservados com vegetação muito interessante. Além de taludes musgosos ou com escorrências permanentes de água, onde vicejam Ophioglossum lusitanicum, Cicendia filiformis, Centaurium maritimum, Erica cilliaris, Radiola linoides e Serapias cordigera, entre muitas outras herbáceas que apreciam solos húmidos, há fendas de rocha recheadas de cravos, armérias, silenes, narcisos e, no final de Março, esta asterácea em plena floração.




Leucanthemopsis flaveola (Hoffmanns. & Link) Heywood

Regalada em prados ralos, na berma dos caminhos, em clareiras de matos ou em nichos na pedra nua, a população de Leucanthemopsis flaveola na serra da Boneca é notável e uma surpresa para quem, como nós, a tinha visto apenas no Gerês e na serra da Estrela em contingentes bastante mais reduzidos. A origem do nome da serra da Boneca é controversa, mas se aludiu a algum pormenor formoso, elegante e/ou vistoso, então pode ter sido este amarelo, de trigo quase maduro, que a enfeita na Primavera.



Na Beira Alta e no nordeste do país ocorre outra espécie deste género, a L. pulverulenta, igualmente perene, com touça lenhosa mas de pequeno porte, e folhagem cinzenta acetinada; não se confunde com a L. flaveola porque as lígulas das inflorescências são brancas, embora de base amarelada.

2.4.16

Erva de espantar ratos



Euphorbia lathyris L.

Como todas as suas congéneres, esta eufórbia segrega um látex irritante quando lhe ferimos o caule. A prudência aconselha-nos a não lhe pôr a mão em cima, e talvez ratos e toupeiras, munidos de uma sabedoria instintiva, saibam igualmente manter-se à distância. Pois diz-se que a planta é tradicionalmente usada para afugentar esse bichos de hortas e jardins. Não sabemos se a sua eficácia é equiparável à do proverbial espantalho para pássaros, mas parece-nos que qualquer outra eufórbia de médio porte (como a E. characias e E. hyberna) faria o mesmo serviço. Impõe-se reconhecer, à revelia do botanicamente correcto, que há eufórbias mais bonitas do que outras, e que a Euphorbia lathyris, com as suas folhas glaucas dispostas aos pares numa simetria perfeita, é de uma elegância quase estatuesca. É provável que seja cultivada pela beleza, mas quem a semeia por gostar dela pode sempre usar o pretexto de espantar ratos para não dar parte de fraco.

Planta bienal, glabra, capaz de atingir 1,5 m de altura, de caule geralmente não ramificado, florescendo na Primavera e no Verão, a Euphorbia lathyris, que é originária da Europa mediterrânica (Córsega, Itália, Sardenha, Grécia), encontra-se hoje disseminada por quase todo o mundo, e é uma invasora confirmada em paragens longínquas como a Austrália e a América do Norte. Em Portugal é pouco comum (vimo-la apenas no Minho), mas noutros países europeus é presença assídua perto de povoações, em terrenos baldios e bermas de estrada.