30.5.16

Flora endémica do Porto Santo: Saxifraga portosanctana



Sabíamos que este endemismo de Porto Santo vive apenas em fissuras de escarpas rochosas nos picos mais altos da ilha. Planeámos começar por procurá-lo no Pico do Facho, o mais alto mas também um dos mais difíceis de escalar. Quase no topo, num nicho sombrio, surgiu a primeira população, com muitos indivíduos prontos a florir mas sem uma única flor aberta. Além disso, a rocha estava longe de mais para que alguma fotografia pudesse revelar os pormenores das folhas. Descemos desiludidos, a pensar que teríamos de repetir o esforço, sem a certeza de virmos a obter boas fotos nos poucos dias que nos restavam de visita à ilha. Contornámos então a base da escarpa, onde um caminho ladeia uma torre de controlo aéreo e há um habitat, protegido por uma plantação de ciprestes (Cupressus macrocarpa), que o nevoeiro e a neblina que vêm do mar raramente abandonam. Depois de detectarmos vários pés da orquídea Gennaria diphylla (já sem flor) e um manto de Sibthorpia peregrina (ainda sem flor), encontrámos um talude não florestado, com muita urze (Erica scoparia subsp. maderincola) e ventania. E ali estavam felizes inúmeros coxins de S. portosanctana em plena floração.




Saxifraga portosanctana Boiss.

Esta é uma herbácea perene e completamente glabra, com umas poucas glândulas nos pecíolos e pedicelos. As folhas são carnudas e flabeladas, de base acunheada, geralmente com três lobos, de cor verde intenso, por vezes com tonalidades avermelhadas. As flores reúnem-se em cimeiras axilares e as pétalas brancas são longas e estreitas, maiores do que as sépalas. Conhecem-se umas seis populações na ilha, todas potencialmente sujeitas a alguns riscos graves: a erosão das rochas e o deslizamento de terras; a recolha de espécimes por coleccionadores ou colectores; a competição com espécies exóticas invasoras.

Num artigo de 1987 intitulado The genus Saxifraga L. in the Madeiran Archipelago, publicado na revista Bocagiana do Museu Municipal do Funchal, os botânicos D.A. Webb e J.R. Press compararam as saxifragas endémicas do arquipélago da Madeira, reafirmando o carácter específico da S. portosanctana (que tinha sido descrita em 1856 por Pierre Edmond Boissier) essencialmente pelo seu aspecto glabro e por ter inflorescências axilares. Comentam ainda que, apesar de ser nativa de paragens tão a sul, se mostrou muito resistente em Dublin, para onde foi levada e cultivada fora de estufa, tendo suportado temperaturas negativas. O que, segundo os autores, sugere que descende de uma espécie europeia (uma das que com ela tem maiores afinidades é a cantábrica S. trifurcata). Haverá, decerto, botânicos portugueses interessados em desvendar a genealogia deste endemismo de Porto Santo, desde que não lhes faltem apoios laboratoriais e acesso a testes genéticos decisivos.

27.5.16

Flora endémica do Porto Santo: Vicia costae



Vicia costae A. Hansen

Há plantas que podem tirar um período sabático de vários anos antes de regressarem ao activo. Em lugares sujeitos a secas periódicas, ficam as sementes adormecidas à espera de um bom ano de chuva. Quando ela vem, é tempo de agarrar a vida e renovar o banco de sementes para enfrentar nova travessia do deserto.

No Porto Santo, a chuva este ano tem sido pouca, e escolheu cair toda na semana da nossa visita. O resultado é que não pudemos observar a Vicia ferreirensis, nem ficámos para ver se a chuva ainda foi a tempo de a despertar. Essa ervilhaca, que é endémica de um ou dois picos do Porto Santo (fotos aqui e aqui), só aparece em anos de grande pluviosidade. Podem passar-se anos sem que ninguém a veja: não está extinta, está apenas à espera. Eis o que o padre José Gonçalves da Costa, um estudioso da flora do arquipélago da Madeira e o primeiro a notar o fenómeno, escreveu sobre o assunto em 1946 no Boletim do Museu Municipal do Funchal:

«Parece que as sementes destas espécies têm a propriedade de conservarem a força germinativa durante diversos anos e a prudência de não germinarem em anos de estiagem, em que pereceriam à seca, germinando somente nos anos de chuvas abundantes. Esta tendência para a ombrometria fá-las germinar apenas nos anos em que as águas das chuvas penetraram profundamente no subsolo e há a humidade necessária assegurada para o seu desenvolvimento e frutificação. Esta propriedade ombrométrica torna-as sobremodo cientificamente interessantes! A Vicia portosanctana Menezes [= Vicia ferreirensis Goyder], que descobri na encosta sul do pico da Ana Ferreira em Abril de 1923, ano em que fiz no Porto Santo a minha primeira pesquisa botânica para coleccionar plantas para o herbário do Seminário, parece poder considerar-se, neste ponto, uma espécie típica; porquanto em Março e Abril de 1939, procurei-a cuidadosamente no referido local onde a tinha descobrido, mas não vi o mínimo vestígio dela, de maneira que a reputei extinta. Nos mesmos meses de 1940, depois de chuvas abundantes, observei-a lá em grandes e verdejantes tufos, a fazer latada sobre os moledos ou enleada na Crambe fruticosa L. f. e na Euphorbia piscatoria Ait. "Figueira do inferno".»

Privados de ver a Vicia ferreirensis, foi nosso prémio de consolação encontrarmos noutros picos (Pico Branco, Pico do Facho, Pico do Castelo) a segunda ervilhaca anual que é endémica da ilha, e cujo nome (Vicia costae) homenageia justamente o padre Costa, que foi quem primeiro a descreveu. Gozando de uma distribuição mais ampla, embora sempre exígua dada a dimensão da ilha, esta Vicia costae não será, em anos secos, tão absentista como a sua congénere, até porque, nos pontos mais altos da ilha, a condensação atmosférica compensa a falta de chuva. O padre Costa chamou-lhe Vicia atlantica, mas esse nome foi considerado inválido por ter sido anteriormente atribuído a uma espécie africana. O nome hoje aceite foi proposto em 1974 pelo botânico dinamarquês Alfred Hansen, que exprimiu então a convicção de que a Vicia costae (como lhe chamou) era "sem dúvida uma espécie bem definida e autónoma, relacionada com a Vicia benghalensis".

Comparando as fotos acima com as do Flora-On, o leitor poderá constatar que, na forma e cor das flores e no indumento do cálice, a V. costae e a V. benghalensis são de facto próximas uma da outra. As diferenças, porém, são ainda mais notórias do que as semelhanças: a V. costae tem em geral duas flores por haste, muito raramente três ou mais, enquanto que a V. benghalensis costuma ter cachos de dez ou mais flores. E, ao passo que na V. costae os dentes inferiores do cálice têm metade do comprimento do tubo da flor, na V. benghalensis esses dentes são tão ou mais compridos do que o tubo.

Estar com estas minudências é como explicar, com entediante detalhe, porque é que um cão e um gato, tão diferentes aos olhos de quem vê, são também diferentes à "luz da ciência". Mas o exercício justifica-se quando, em nome de uma ciência que ignora o senso comum, alguém nos quer fazer acreditar que cão e gato são animais da mesma espécie. Dessa arrogância foi culpada a (de resto notabilíssima) Flora of Madeira de J. R. Press & M. J. Short, publicada em 1994, ao considerar a V. costae como sinónimo de V. benghalensis. Nessa obra, a descrição da V. benghalensis (que, embora rara, de facto ocorre na ilha da Madeira) foi suficientemente alterada em relação ao que é usual para abranger também a V. costae. É um facto que, se definirmos intervalos de variação suficientemente amplos, conseguimos meter tudo no mesmo saco - mas, num caso como este, era impossível não notar como as duas espécies artificialmente unificadas caíam sempre em extremos opostos de tais intervalos.

A proposta, felizmente, não fez escola, e hoje em dia (veja-se por exemplo aqui e aqui) ninguém considera que V. costae seja sinónimo de V. benghalensis.


O Pico do Facho, com 516 m de altitude, é o ponto mais elevado do Porto Santo

24.5.16

Flora endémica do Porto Santo: Echium portosanctensis





Echium portosanctensis J. A. Carvalho, Pontes, Batista-Marques & R. Jardim

Responsáveis por uma vasta mancha roxa que enfeita agora os nossos prados e terrenos baldios, as plantas do género Echium são vulgares no nosso território e resistentes a muitos dos riscos a que estão sujeitos nestes habitats. Não são especialmente bonitas, com excepção do raríssimo E. boissieri, mas em conjunto garantem uma nota colorida nos campos e são fonte importante de alimento para as abelhas.

As espécies que existem no arquipélago da Madeira destacam-se das continentais pelo porte arbustivo e pelas inflorescências cilíndricas exuberantes. Sabe-se hoje que essas espécies de Echium derivam de uma herbácea do continente europeu, conclusão fundamentada num estudo genético conduzido, em 1996, por Böhle e colaboradores. E, de facto, a um olhar desatento, as plantas de Porto Santo talvez pareçam todas iguais, e semelhantes ao endemismo madeirense E. nervosum (foto em baixo). Porém, anos antes, já havia sido notado, em obras sobre a flora da Madeira, que alguns espécimes em Porto Santo se distinguiam pela corolas branco-rosadas, com estames de cor carmim e anteras azuis, e um anel branco (que surge na 4ª foto) no topo da inflorescência, que é mais pequena que a do E. nervosum. E, decerto, também terão reparado em diferenças na forma e textura das folhas, e no tipo de pêlos que as protegem.

Foi o bastante para que uns quarenta anos depois, em 2010, alguns botânicos quisessem pôr fim às dúvidas e, após minuciosa comparação morfológica, publicassem um artigo (no Anales del Jardín Botánico de Madrid, Vol. 67 (2) : 87-96) que atesta a existência de três espécies endémicas do género Echium no arquipélago da Madeira: E. candicans, planta de montanha e de que só há registo acima dos 800 metros na ilha da Madeira; E. nervosumon, das ilhas da Madeira, Desertas e Porto Santo; e E. portosanctensis, da ilha de Porto Santo, com flores campanuladas (não em funil, como as outras espécies continentais e madeirenses) e com um matiz de azul escuro na base de cada corola (ausente nas outras espécies). Os autores estão seguros sobre o valor adaptativo de todos estes pormenores distintivos ao ambiente rochoso e, por vezes, muito seco de Porto Santo, com intenso vento e maresia. E apresentam uma chave clara para mais facilmente identificarmos cada uma das espécies.

Depois de termos visto o E. nervosum plantado em jardins e bermas de estrada em vários locais da ilha, foi o E. portosanctensis que procurámos na subida ao Pico Branco, montanha com cerca de 450 metros de altura máxima e um percurso assinalado até ao topo, protegido aqui e ali por uma balaustrada firme de madeira. A flora interessante está nas encostas mais ou menos escarpadas que ladeiam o caminho e, confirmámos, o Echium portosanctensis acompanha-nos esparsamente durante quase toda a subida. A distribuição conhecida do E. portosanctensis restringe-se a este pico e ao Pico da Gandaia, com um total de cerca de mil indivíduos. Não surpreende que conste da lista vermelha internacional de espécies em risco.


Pico Branco, ilha do Porto Santo

19.5.16

Flora endémica do Porto Santo: Limonium lowei


Aeroporto do Porto Santo em dia de ventos cruzados na Madeira

Como ir. Consta que há voos directos semanais de Lisboa para o Porto Santo, mas são caros e, no regresso, os aviões entregam-se a uma sesta prolongada na Madeira. Para quem não parte de Lisboa, o mais prático e barato será voar para a Dinamarca e daí tomar uma das ligações semanais entre Billund e o Porto Santo asseguradas pela Danish Air Transport. Caso opte patrioticamente pela nossa companhia aérea de bandeira, saiba que o voo do Porto para o Funchal descola às 6h30 da madrugada, e por isso nem pense em dormir nessa noite. Apesar da hora, não terá oportunidade de admirar o nascer do Sol porque as salas de embarque estão viradas para poente. Da Madeira para o Porto Santo voam uns aviõezinhos de brinquedo, a um preço por passageiro (ida e volta por 120 euros) que é toda uma lição sobre práticas monopolistas. Nos dias, três ou quatro em cada mês, em que na Madeira sopram ventos cruzados, os aviões, depois de uma demorada valsa nos céus da ilha, desistem de aterrar e são desviados para o Porto Santo. O inesperado bónus do voo directo traduz-se numa poupança de tempo mas não de dinheiro, pois ninguém é reembolsado pelo bilhete para o tal aviãozinho em que afinal não chegou a embarcar.

Onde dormir. Se nos permite a franqueza, isso é consigo. Gastou na viagem todo o dinheiro que tinha e vê-se obrigado(a) a dormir na praia? Nada temos a dizer sobre a sua escolha.

O que ver. Sobre esta questão já temos opiniões mais assertivas. Se lhe fosse permitido atravessar a pista a pé, o que em dias normais não representa qualquer perigo, poderia iniciar as suas observações da flora endémica da ilha ainda dentro do perímetro do aeroporto. No limite norte, e de ambos os lados da vedação, concentra-se a mais acessível das populações de Limonium lowei, uma planta de caule lenhoso que forma compactas almofadas verdes contrastando com os tapetes azulados de Lotus glaucus, um simpático endemismo macaronésico muito espalhado pelo litoral da ilha.






Limonium lowei R. Jardim, M. Seq., Capelo, J. C. Costa & Rivas Mart. [sinónimo: Limonium ovalifolium subsp. pyramidatum]

Este pequeno limónio de folhas largas e onduladas, com 3,5 a 7 cm de comprimento, e inflorescências muito ramificadas, em panículas com uns 30 cm de altura, é uma versão algo reduzida do Limonium ovalifolium, uma planta comum em arribas e sapais da costa algarvia. Subordinado à espécie continental ou como espécie autónoma, a singularidade do limónio porto-santense sempre foi reconhecida desde que Lowe, em 1830, o descreveu como Statice pyramidatum. Igual sorte não teve o limónio açoriano, ainda hoje oficialmente chamado Limonium vulgare apesar de se distinguir claramente, até na ecologia, da espécie europeia com o mesmo nome.

Exclusivo de uma ilha tão pequena, e confinado a alguns pontos da costa norte, o Limonium lowei é necessariamente raro. O núcleo junto à vedação sobreviveu à expansão do aeroporto e ao asfaltamento da estrada que leva à Fonte da Areia. Com a falésia ali a poucos metros, a falta de espaço garante que não se farão novos alargamentos do aeroporto ou da estrada. A Fonte de Areia é uma duna fóssil gigante, que todos os dias vai largando grandes e pequenos calhaus de cor rosada que ao cair se desfazem em pó. É preferível que não nos caiam na cabeça, e esse justo receio acaba por abreviar a visita. Partindo de um parque de merendas ao abandono, guarnecido por araucárias e por esfarrapados guarda-sóis de palha ao jeito tropical, pode-se descer ao mar por uma vereda íngreme que, aqui e ali, vai sendo enfeitada com limónios. Eles sabem que a erosão costeira os levará a morar a uma cota cada vez mais baixa e, prudentemente, começam a adaptar-se ao seu futuro habitat.


Fonte da Areia, ilha do Porto Santo

15.5.16

Flora endémica do Porto Santo: Erysimum arbuscula

Ao contrário do que anunciavam em uníssono os cartazes turísticos, raramente tivemos céu limpo durante os quatro dias que passámos no Porto Santo. Durante uma tarde e uma noite as nuvens explicaram ao que vinham, fazendo cair uma chuva comparável às melhores que temos no continente. Imaginámos que o fenómeno inaudito seria recebido como uma benção numa ilha ressequida, semidesértica, onde as ribeiras profundamente escavadas no solo arenoso são apenas memória de águas há muito passadas. Mas, ao tomarmos gradual consciência de certos estranhos sinais que vínhamos registando, percebemos que talvez a chuva não fosse bem-vinda, e não apenas por contradizer a imagem turística da ilha. É que ninguém no Porto Santo se comporta como se a água fosse um problema. No hotel, não há avisos exortando os hóspedes a poupar água. Os relvados exibem um verde brilhante, e na própria tarde em que choveu grosso a rega automática não deixou de funcionar. O campo de golfe, inaugurado em 2008, tem muitas palmeiras, uma relva verdíssima e sete lagos artificiais. Na estrada marginal, com sete quilómetros de extensão, só em curtos troços se podem ver o mar e a praia, que de resto estão tapados por um cortina de hotéis e aldeamentos turísticos em contínua e desenfreada expansão. Tais empreendimentos seriam impensáveis numa ilha tão pequena (11 Km de comprimento, 4 Km de largura máxima) se o consumo de água estivesse racionado. A explicação afinal é simples: a água que corre nas torneiras da ilha vem do mar, e o mar é inesgotável. Porto Santo tem a funcionar, desde 1979, a única central de dessalinização em território português. O processo de tornar potável a água do mar é caro, mas tem-se tornado ambientalmente menos oneroso com recurso à energia solar. Agora todos os sonhos são possíveis: queira o homem (esperemos que não, mas os sinais são ameaçadores) e o Porto Santo poderá converter-se de uma ponta à outra num resort enxameado de hotéis, enquadrados pelas mesmas palmeiras que enfeitam as Caraíbas ou as ilhas dos mares do sul.

Tirando pequenas parcelas cultivadas entre as dunas secundárias, que pouco parecem produzir e a prazo serão engolidas por construções turísticas, Porto Santo não tem agricultura ou pecuária que se veja. Nas zonas planas a paisagem é nua, sem árvores. Antes de a ilha ser habitada terão existido bosques de zambujeiros e dragoeiros e, nas encostas sombrias dos picos mais elevados, uma laurissilva de barbusano semelhante à que ainda subsiste na Madeira. Tudo isso desapareceu: o barbusano (Apollonias barbujana) e o dragoeiro (Dracaena draco) estão extintos na ilha, e do zambujeiro (Olea maderensis) sobram apenas exemplares isolados. Uma ilha assim desertificada tornar-se-ia inabitável mais tarde ou mais cedo, e só o aproveitamento da água do mar permitiu salvá-la desse destino. Mas já antes, em meados do século XX, tinha havido tentativas de suavizar as agruras da natureza, com plantações que revestiram de árvores os cumes de seis ou sete dos picos que pontuam, abruptos e dissonantes, a paisagem da ilha. As árvores, além de travarem a erosão, iriam reforçar as captações de água para alimentar ribeiros e aquíferos. Em suma, uma ideia salvadora que nos permite, sessenta ou setenta anos mais tarde, contemplar, do topo do Pico Branco, uma paisagem que só não passa por alpina porque o mar está logo ali.


Pico Branco, ilha do Porto Santo

A esta distância no tempo, podemos lamentar que essa meritória arborização tenha sido feita em exclusivo com espécies exóticas de carácter completamente alheio ao da vegetação original da ilha. Teria sido talvez possível reconstruir um arremedo de laurissilva, mas em vez disso plantaram-se coníferas: ciprestes (Cupressus macrocarpa, a espécie dominante) e várias espécies de pinheiros. À época, contudo, as árvores autóctones não eram valorizadas como, mais no discurso do que na prática, passariam entretanto a ser; e também no continente, sem o menor rebuço, se fizeram então extensas plantações de coníferas exóticas (por exemplo no Gerês e na serra da Estrela), e em lugares onde nem havia a desculpa de a floresta original ter desaparecido.

Ainda assim, é nos picos, e em especial nos afloramentos rochosos que formam a crista de muitos deles, que se concentram os melhores resquícios de vegetação nativa, maioritariamente composta por herbáceas mas contando ainda com alguns importantes arbustos. Seria um erro desprezar a flora do Porto Santo por ser uma versão empobrecida da flora da Madeira, pois nesta pequena ilha existem formações vegetais que não ocorrem na maior ilha do arquipélago (um exemplo óbvio é dado pela flora dunar) e, além disso, ela detém pelo menos uma dezena de endemismos. Falando mais claramente: no Porto Santo há umas dez espécies de plantas que não ocorrem na Madeira nem em nenhum outro lugar do mundo. Vamos mostrar seis delas numa série de fascículos de que este é o primeiro.




Erysimum arbuscula (Lowe) Snogerup

Esta pequena crucífera lenhosa, com uns 30 cm de altura máxima, folhas lineares dispostas em tufos na extremidade das hastes, e vistosas flores de cor lilás, foi descrita originalmente por Richard Thomas Lowe (1802–1874), autor do indispensável "A Manual Flora of Madeira" (1868), e chamou-se então Cheiranthus arbuscula. É uma séria concorrente ao título de planta mais bonita do arquipélago, e vivêssemos nós num país dado à jardinagem seria componente obrigatória dos jardins xerófilos à beira-mar. A verdade, porém, é que a planta é desconhecida dos próprios porto-santenses, e mesmo os mais informados só lhe saberão o nome, que costuma ser recitado (desacompanhado de fotos) quando se desfia o elenco das maravilhas naturais da ilha (exemplos: 1, 2, 3). Este curioso hábito de se incentivarem os outros a "descobrir" aquilo que os autores dos textos de incentivo manifestamente nunca descobriram não se deve apenas à comprovada indiferença dos portugueses pelos seus valores naturais, mas também, num caso como este, à grande raridade do Erysimum arbuscula. Não era assim no século XIX, pois Lowe escreveu que este goivo arbustivo se encontrava com abundância nas rochas perto do topo do Pico Branco e do Pico do Concelho. Nós, que subimos aos dois picos, só o vimos no Pico Branco, duas ou três plantas debruçadas numa ravina. Que se terá passado entretanto? Será abusivo conjecturar que a arborização destas encostas (pelo menos no Pico Branco, já que o Pico do Concelho continua despido) provocou uma redução drástica do habitat da espécie?

12.5.16

O que não se vê


Minuartia hybrida (Vill.) Schischk.

Se o leitor erguer um dos seus dedos mais pequenos, terá uma ideia aproximada do tamanho desta planta. Mesmo em flor, só por mero acaso reparámos nela no chão calcário e magro de uma antiga pedreira em Vimioso. Sendo anual e tão débil, a sua sobrevivência depende de alguma estabilidade neste habitat, garantida enquanto a exploração de inertes não for mais rentável. E, quem sabe, daqui a alguns anos talvez ela atinja a bitola teórica de 22 cm de altura máxima que algumas chaves taxonómicas lhe atribuem.

Quanto ao género Minuartia, já aqui tínhamos mostrado a Minuartia recurva, herbácea perene de ambientes frios e rochosos de montanha e de que, por cá, só se conhecem populações nas serras do Gerês e da Estrela. A Península Ibérica foi favorecida por este género -- cujo nome homenageia o naturalista catalão Juan Minuart -- e conta com não menos que dezoito espécies. Se o leitor tiver tempo, detenha-se a comparar as imagens seguintes de algumas delas: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9.

Entre nós, falta encontrar plantas da terceira espécie que ocorre em Portugal, a M. mediterranea, de que, curiosamente, não há ainda imagens no portal Flora Silvestre del Mediterráneo e só são mostradas sementes no Anthos. Segundo a Flora Ibérica, deveríamos vê-la no centro e sul do país, em particular no Alto Alentejo e Ribatejo, mas há risco de confusão com a M. hybrida, com quem, homessa, até pode hibridar.

8.5.16

Erva da alergia



Parietaria judaica L.

No subúrbio onde cresci, rodeado de campos ainda lavrados por famílias de agricultores, e com uns silvados a pontuar os intervalos dos prédios, esta planta era bem conhecida da miudagem. Não que eu lhe soubesse o nome - a ideia de que as ervitas pudessem ter nome próprio, quando até as árvores eram apenas árvores, nunca então me passou pela cabeça. Mas tinha uma utilidade que a distinguia das demais ervitas: as folhas eram adesivas e, colhidas uma a uma, podiam ser coladas na roupa para formar palavras e frases. Numa época em que o "merchadising" desportivo era inexistente, podiam até ter servido, nos jogos de futebol entre a criançada, para inscrever os números dos jogadores nas camisolas. Que me lembre, isso nunca foi feito, talvez por exigir uma ideia de organização de todo estranha ao carácter espontâneo dessas futeboladas.

Ao transitar da infância no subúrbio para a vida adulta na cidade, a erva-das-letras acompanhou-me, surgindo em paredes velhas e em jardins, mas perdi o hábito de a usar para juntar palavras. Ganhou um nome, como ganharam as árvores e quase todas as coisas verdes à minha volta: parietária, nome vulgar que é também nome científico e que significa, com alguma dose de inevitabiblidade, erva-dos-muros. O nome erva-da-alergia que aparece em título foi agora inventado, mas nem por isso deixa de ser merecido. O pólen da Parietaria judaica, uma espécie perene que floresce durante quase todo o ano, mais intensamente em Abril e Maio, é dos mais alergénicos que se conhecem. Juntamente com as omnipresentes gramíneas que colonizam todos os pedaços de terra livre, é ela que faz com que nem a cidade seja abrigo seguro para quem sofre de febre dos fenos. As árvores que a vox populi costuma apontar como culpadas das reacções alérgicas (choupos, plátanos) têm em geral pouquíssima responsabilidade na matéria.

Presente em quase todo o país, incluindo continente, Madeira e Açores, a Parietaria judaica é, como indica o mapa no portal Flora-On, mais frequente a norte do Tejo. Prefere habitats urbanos ou ruderalizados, em lugares mais ou menos soalheiros, e a sua presença acaba por ser um subproduto da presença humana. É curioso notar que, no cada vez mais despovoado nordeste do país, ela se vê em parte substituída por uma congénere anual, a P. lusitanica, com apetites também ruderais mas mais amiga da sombra e da humidade.

3.5.16

Sobre os pés



Plantago serraria L.

Quem sabe latim - ou não sabe mas vai aprendendo umas migalhas à custa dos nomes botânicos - por certo não desconhece que planta e têm quase o mesmo significado, como aliás denuncia a expressão planta do pé. Dir-se-ia até, falseando a etimologia, que as duas palavras têm a mesma raiz, mas enquanto que nós, os donos dos pés, podemos ter raízes metafóricas, as plantas têm-nas de verdade. É porém um facto indesmentível que tanto plantas como pés foram feitos, de um modo geral, para assentar no chão. Daí que a palavra latina planta se aplique de igual modo ao vegetal (em especial na fase de rebento) e a essa parte basilar da anatomia humana.

Se, por via do latim, todas as plantas têm alguma coisa a ver com os pés, já as do género Plantago se destacam por manter com eles uma relação mais íntima. Plantago, dizem os entendidos, traduz-se justamente por planta do pé - o que, como agora sabemos, é uma expressão algo pleonástica. Tal designação dever-se-á à forma das folhas de certas espécies: as do Plantago major fazem lembrar chinelos dispostos em círculo, com os calcalhares virados para dentro. Em espécies de folha mais estreita, como P. lanceolata ou P. maritima, a semelhança pedestre é bem menos vincada. Há porém outra afinidade entre estas plantas e os nossos pés: são várias as espécies de Plantago que se dão muito bem em lugares pisoteados tais como caminhos ou parques de estacionamento. Quanto mais calcamos os rebentos de P. coronopus e P. major que espreitam entre as pedras mais eles ganham forças para se reproduzirem. E à mesma escola masoquista pertence de pleno direito o Plantago serraria, o primeiro dos dois que hoje aqui mostramos.

A roseta basal do Plantago serraria, formada por folhas grandes, por vezes com mais de 20 cm de comprimento, é inconfundível (ver 1.ª foto) e permite identificá-lo em qualquer altura do ano. Preferindo substratos calcários e solos argilosos, vive no centro e sul de Portugal continental e na metade oeste da bacia mediterrânica. É presença habitual nas clareiras dos matos de zimbro que revestem o litoral de Sintra e Cascais.


Plantago bellardii All.

O Plantago bellardii é anual e de porte discreto, e por isso mais difícil de observar, embora não seja menos frequente e beneficie até de uma distribuição mediterrânica mais ampla. Ao contrário do seu congénere, não consta que fique grato quando lhe põem um pé em cima. A sua haste raramente atinge os 10 cm de altura, e as folhas ficam-se pelos 5 cm de comprimento; a sua espiga é compacta, contrastando com a espiga alongada do P. serraria. Vimo-lo nos pinhais da Tocha, mas, exigindo sempre solos ácidos, é suficientemente versátil para aparecer também em montados longe da costa.