3.1.17

Flores de outras heras



Glechoma hederacea L.

Para as plantas herbáceas perenes, o Inverno é tempo de descanso forçado pelas poucas horas de sol e pelas longas noites frias. A maioria delas resguarda-se no subsolo, pacientemente à espera de Março. Algumas, porém, apreciadoras de sombra e humidade, aproveitam esse recolhimento geral para avançarem determinadas pelo solo, enraizando os caules e garantindo para si na Primavera os melhores recantos. Parece ser o caso da herbácea rasteira das fotos. Outrora com uso medicinal e culinário, alguns chamam-lhe erva-de-São-João, outros ground-ivy. Para quem, como nós, insiste em procurar plantas que não estão em flor nesta altura do ano, estes são os exemplares que, de tão sozinhos, reconhecemos pelas folhas. As da Glechoma hederacea lembram as da hera (do género Hedera), e são reniformes com margens dentadas ou crenadas.

Esta é a única espécie do género Glechoma que ocorre na Península Ibérica, onde parece restringir-se ao norte e oeste. A descrição da Flora Ibérica sugere que é abundante em bosques caducifólios de quase toda a Europa e parte da Ásia, mas por cá tem sido raro encontrá-la. As fotos são de espécimes de Macedo de Cavaleiros (junto ao rio Azibo), mas poderiam ser do Gerês (perto da albufeira de Salamonde) ou de Chaves (nas margens do rio Mousse). A preferência por habitats ribeirinhos fartamente arborizados, ainda não convertidos em praias fluviais, confina esta espécie, no nosso país, a uns poucos e recatados lugares.



Com o perfil e formato típicos da família das labiadas, as flores de Glechoma (femininas ou hermafroditas) usam, além do aroma, sinais de cor no espectro ultravioleta que guiam os polinizadores até ao néctar -- e que são desligados quando a polinização acontece. Nos refúgios com parca luminosidade onde estas plantas vivem, a cor roxa suave que vemos na corola das flores surge ao olhar dos insectos claramente dividida em duas zonas de tonalidade distinta, realçando-se desse modo o centro da flor onde estão os nectários e a polinização se pode efectuar. É uma conversa silenciosa esta que as flores mantêm com os insectos.

3 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Vocês são intrépidos.
Não aproveitam o Inverno para, tal como as plantas, descansarem e recomporem as energia.
O lugar é-me conhecido mas só da Primavera-Verão, e lembro que o trilho que fiz, a partir dessa ponte pelos campos em frente foi bem entusiasmante. Mas sou como os insectos: preciso da flor para me alimentar já que para o resto a visão é um pouquito mais fracota.
Abraços e que o vosso ano de 2017, aqui e fora daqui seja o melhor que consigam desejar.

Carlos M. Silva

Susana disse...

A minha avó tem esta planta a nascer naturalmente (penso eu) na sua horta bem ao sul de Portugal, no Algarve. cresce perto de um muro que está sempre à sombra e por onde a agua do regadiu passa. Ela usa-a para fazer "chá de ervas"; até cheguei a levar para a Escócia, onde se deu muito bem...

bea disse...

Que coisa tão bonita pode ser a fecundação de uma flor! As coisas que neste blogue se aprendem são sempre, para mim, de agrado surpreendido. E a foto da ponte é um deleite.