7.2.17

Fajã dos goivos amarelos

A ilha da Madeira não tem praias de areais extensos, com areia fina e clara, como as do Porto Santo. Onde o bordo da ilha é acessível, há em geral umas pouco convidativas pedras roladas de cor cinza para deter os avanços do mar em dias de tempestade. No mais, as escarpas são a pique, sem escadinhas que sirvam a descida, e o chão é de terra e rocha perigosamente soltas. Contudo, se olharmos o fundo destas falésias com atenção, quase sempre se divisam campos de cultivo verdejantes, ramadas de vinha ou maracujá, além de casinhas minúsculas, gatos e abóboras. Em resumo: há por ali gente. Como conseguem vencer tais precipícios? A solução, nesta ilha onde as estradas percorrem muitos quilómetros em túneis, num sobe e desce enervante, mas raramente nos levam às fajãs, está num par de teleféricos.



Enquanto num deles descemos receosos, abanados pelo vento de Dezembro, o outro sobe calmamente, vazio ou com turistas animados a fotografar. Antes que o pânico nos domine, chegamos a terra e, já serenos e a rir do medo, ouvimos as ondas, aquecemos os pés e saboreamos o ar salgado. Estamos no litoral sul da Madeira, entre Cabo Girão e Câmara dos Lobos, num dos poucos lugares da ilha onde ainda existem populações do endemismo que lhe mostramos nas próximas fotos.



Erysimum maderense (L'Hér.) Polatschek



Pela semelhança com as três espécies do género Erysimum que conhecemos por cá (ainda que na Península Ibérica ocorram mais de vinte) e a de Porto Santo, não nos pareceu haver dúvida sobre a filiação destes arbustos nesse género, ainda que, ao contrário de outras espécies, nesta as flores não mudem de cor quando amadurecem. Mas isso é porque sabemos pouco. A abreviatura L'Hér. no nome científico refere-se ao francês Charles Louis L'Héritier (1746-1800) que, em 1788, chamou a esta espécie Cheiranthus tenuifolius. A designação actualmente aceite foi-lhe dada em 1976 pelo botânico austríaco Adolf Polatschek (nascido em 1932), um especialista na família Brassicaceae, em especial do centro e sul da Europa, Cabo Verde, Canárias e Madeira.

Junto ao mar, não há fiscal a controlar os bilhetes do teleférico, nem sequer um painel com horários. Vê-se apenas uma câmara de segurança que verifica se há passageiros à espera para subir, ou estes simplesmente accionam um botão para que a próxima viagem se inicie. Na subida, já não receámos sentar-nos voltados para o mar, a vê-lo afundar-se bordejado de pintinhas amarelas.

2 comentários :

bea disse...

Duvido mesmo muito que eu tivesse a vossa coragem para o teleférico, mas deve ser uma paisagem bonita de ver. Os goivos também não me entusiasmam por aí além.
BFS

bettips disse...

O impossível da Natureza (e os humanos).
Abçs